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Exposições

ECO-nomia, as regras da casa

As regras da casa até são relativamente simples: precisamos de ar, água, solo e fogo para viver, a morte é a única certeza da vida, e a vida é composta por um emaranhado de ciclos dentro de outros ciclos, formando uma realidade fractaliana e hélixica.

29 Mai a 27 Set 2026

Centro Cultural de Cascais
Avenida Rei Humberto II de Itália | 2750-800 Cascais

As obras de Catarina Leitão na exposição ‘ECO · NOMIA: as regras da casa’, acompanham o zeitgeist da nossa época, uma ckallosvicinostasis profunda: a condição sistémica onde a imposição de uma paralísia (stasis) sobre o ciclo natural da gerência da casa (vicis), é motivada por uma dessensitização (callus) à beleza (kallos) inerente dessa mesma gestão. Esta paralísia é dupla: é um estado de dissociação da natureza que impede que voltemos a ela, e é o decretar da paralisação dos próprios ciclos vicissitúdicos, em prol de uma estabilidade ilusória, linear. Esta dissonância dá-se porque a Economia não está a servir a Ecologia.

A consolidação desta Grande Inversão (a decisão de que a economia era a mestre e a biosfera a servente) cristalizou-se em 1988, em reação a um discurso de James Hansen, cientista da NASA, que alertou para o facto do aquecimento global ser provocado pelo homem, e o papel central dos combustíveis fosseis. Em 1989 a Global Climate Coalition foi criada, e inicia-se uma campanha agressiva de manipulação da opinião pública sobre a fiabilidade do discurso científico.

John Sununu, o  chefe de gabinete do Presidente George H. W. Bush de 1989 a 1991, utilizou os cientistas ligados à indústria para silenciar o alerta climático, vendendo o futuro do planeta por dois tostões. Ele matematizou o ar, as florestas e a água, transformando o Princípio da Caução num cenário distópico onde regular o ambiente seria mais caro que destruí-lo. Logo de seguida veio a financeirização da natureza, mascarada de vitória ambiental, quando em 1990 se implementou o Acid Rain Program. Este programa introduziu o sistema de cap-and-trade, normalizando a poluição como mercadoria transacionável, tornando a destruição planetária em créditos abstratos.

Esta engenharia abstratizadora criou as bases para o que Alex Steffen criticou como a ilusão do verde brilhante: uma estética de sustentabilidade high-tech e sintética que opera pela substituição do real pelo simulacro. O verde deixou de ser um ecossistema vivo para se tornar uma marca visual, ou um saldo positivo, que licencia a continuidade da destruição. Uma armadilha cromática, e sintética, que com um sorriso luzidio e plásticos fantásticos assimila a lógica de mercado, estendendo-se à obra de Leitão, especialmente nas obras Naturfatura ( 2.0 e 3.0 em exibição): a natureza vê-se serializada, e através dela se fatura o lucro.

Porém, esta abordagem é também híbrida em complexidades críticas, comportando nas palavras da artista que ‘Naturfatura evoca ainda a ideia de ‘fazer com’, presente no pensamento de Donna Haraway, e a participação na construção de um corpo comum, onde o limite entre o natural e o artificial se diluem’1. Este ‘fazer com’ é evidente na relação entre o desenho e a escultura, sendo o desenho a mesa de operações, um estágio de preparação cirúrgica com medidas e estudos que remetem para o poster científico, mas que revela o corpo comum numa mutação escultórica, onde a assemblage já não é só técnica mas sim um devir ontológico.

Leitão expõe na sua nova série Morfometrias (2026) composições onde a parafernália científica se impõe num espaço habitado por formas orgânicas, e o papel de cola feito pela artista nos remete para uma metodologia elementar, quase microscópica, tão característica da prática quer científica, quer da colagem.

É no entusiasmo dos materiais e dos media - desde o linóleo ao tecido, da madeira à tinta da caneta e aguarelas - que esta antologia recente, marca uma rutura com a fase de paleta austera que João Silvério identificou nas primeiras Naturfatura, evoluindo para uma explosão convulsiva de cor nas Naturfatura em exposição. Este refinar formal aprofunda e complexifica cartografias que navegam uma assimilação entre o natural e o fabricado quase absoluta. Ao confrontar-nos com florestas simuladas, a obra mostra o triunfo final da Grande Inversão: a nossa dessensibilização (callus) é tal, que consubstanciamos o artefato como se fosse ciclo vivo. A eco·nomia revela-se assim na busca de uma beleza ultra-analisada, sintetizada e antropogénica.

Não é por acaso que as esculturas emergem do verde da relva sintética: uma materialização quase literal do astroturfing. Tal como o greenwashing mascara a inação climática (como por exemplo a Global Climate Coalition), o verde falso denuncia que a natureza foi substituída por uma infraestrutura comodificada, a domesticação e estabilidade ilusória.

A impotência subjacente na ckallosvicinostasis materializa-se, na obra que Leitão apresenta nesta exposição, numa reorganização dos elementos familiares que, operando como um ‘varrer para debaixo do tapete’, culmina na ilusão de ordem. Contudo, é precisamente na falácia de confundir a cartografia com o território, que a obra de Catarina Leitão afirma a sua tese: a prática artística é um campo de investigação onde o pensamento evolui intrinsecamente ligado ao seu tempo, recusando a nostalgia de um mundo que já não existe.

Inês Ferreira-Norman 

1 – Leitão, Catarina . 2025. “Naturfaturar.” In Ensaios de Arte, ed. Bruno Gil e Pedro Pousada, 31–46. Coimbra: Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. 

A obra de Catarina Leitão interroga aquilo que habitualmente chamamos natureza — a sua construção cultural, os seus limites e a sua permanente negociação com o que é humano, artificial ou fabricado. Trabalhando no território instável onde o orgânico e o manufaturado se tocam e confundem, a artista propõe uma continuidade em vez de uma oposição: entre cultura e mundo vivo, entre artifício e crescimento, entre o que se planta e o que se constrói. Esta investigação desdobra-se através da escultura, da instalação, do desenho e do livro de artista — meios que partilham, na sua prática, uma mesma lógica de construção, hibridização e adaptação.

Catarina Leitão tem exposto o seu trabalho em diversas instituições e galerias sobretudo entre Portugal e Nova Iorque, onde viveu durante 15 anos. Em Nova Iorque expôs no P.S.1/MoMA, Socrates Sculpture Park, Andrea Rosen Gallery, Michael Steinberg e Bronx Museum; The Aldrich Museum, CT, entre outros. Conta com exposições individuais no Centro de Arte Moderna Gulbenkian e na Coleção Berardo-Sintra, Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Galeria Fernando Santos e Galeria Pedro Cera, entre outras. Obra sua integra coleções públicas como a Coleção de Arte Contemporânea do Estado, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação PLMJ, entre outras. Destacam-se os prémios e bolsas da New York Foundation for the Arts Fellowship (2009), Center for Book Arts (2007), Triangle Arts (2006), Sharpe Foundation (2004), LMCC (2003), Pollock-Krasner Foundation Grant (2001), Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Luso-Americana (1997–99).

Leitão é doutorada pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (2022), MFA pela Hunter College, New York (2000), licenciada pela FBAUL (1993). Foi docente na ESAD. CR–IPL (2011–24), é membro do LiDA (ESAD. CR) e leciona no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra desde 2024.

www.catarinaleitao.net

Horário: De terça a domingo das 10h às 18h, última entrada às 17h40.

 

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