Teatro
18ª edição do Encontro Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo
De 29 de maio a 7 de junho todos os caminhos vão dar a ‘Montemor’ .Ao longo da extensão temporal da iniciativa vão apresentar-se 13 companhias nacionais e 6 internacionais.
29 Mai a 7 Jun 2026
A palavra por via das conversas, elemento fulcral de toda esta dinâmica, para se saber o que se criou, como se criou, e o resultado do que se criou enquanto estímulo de retroação para voltar a criar. Tudo segundo o espírito de partilha criativa, claro está. A iniciativa é da companhia Alma d’Arame, que conta para o efeito com o apoio da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e da Direção Geral das Artes, DG Artes.
Espalhados um pouco por toda a cidade, com incidência nuclear no Cineteatro Curvo Semedo e na Carvoaria, este último é a prenda/presente para a companhia, um novo espaço sede-com auditório (uma outra estreia), estarão 20 espetáculos, com direito a 30 apresentações, e que mobiliza e envolve, em termos de labor em prol do evento, cerca de 70 pessoas. Ao longo da extensão temporal da iniciativa vão apresentar-se 13 companhias nacionais e 6 internacionais. No domínio das últimas a serem referenciadas, inscrevem-se países como Inglaterra, Holanda, Brasil, França, Itália e Canadá, serão sete as nações representadas, contando com Portugal. Tudo em consonância com a denominação e o espírito transnacional do evento, como se verifica.
Amândio Anastácio, mentor e diretor artístico da Companhia Alma d’Arame e do Encontro Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo confere ao simbolismo comemorativo da efeméride um estatuto singular. “A Alma d’Arame celebra vinte anos de existência. Duas décadas de encontros, sonhos partilhados e arte que une e transforma. Este ano, o Encontro Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo é ainda mais especial: celebramos a Aceitação, um valor fundamental que sempre esteve no centro do nosso percurso”, começa por dizer. A mais valia emocional desta edição, prestes a começar, faz-se sob o signo de um outro valor, o humano, que é o da Aceitação (sim, repetidamente, em maiúscula).”
Numa cidade em estado de frenesim e polvorosa durante 10 dias devido a uma atividade artístico-cultural das que marcam a agenda - e que supera a geografia regional e local, com gente de múltiplas paragens a aceder às propostas calendarizadas no evento – há evidentemente espetáculos que se destacam, sem desprimor para os demais integrantes no menu da programação.
A abrir o universo das prestações de maior relevo, em termos internacionais, está “Hélichryse”, de Bettina Szabo, da companhia de dança Petrikor Danse [Canadá/Uruguai]. Na verdade, o valor artístico desta instalação/experiência cénica imersiva faz-se pela via de uma performance com dança a solo, que explora os tabus sociais em torno do envelhecimento do corpo feminino e revela a menopausa como um momento de emancipação e de reconexão consigo mesma (dias 3 e 4 de junho, às 21:30, no Cineteatro Curvo Semedo)
Em estreia no Alentejo e em todo o Sul de Portugal - algo que ‘Cidade Invicta’, via FIMP – Festival Internacional de Marionetas do Porto teve oportunidade de ver em primeira mão em Portugal, em 2024 – está um dos maiores destaques desta edição do ‘Encontro’. “Lullaby For Scavengers” (Canção de Embalar para Necrófagos), de Kim Noble, da Companhia Campo [Reino Unido] não deixa ninguém indiferente: ou se ama, ou se odeia. É um espetáculo perturbador, mas imperativo. Pode fazer com que se soltem as vísceras, mas é profundamente humano e até possui o condão de ser terno. Noble imprime um estilo provocador e humorístico para expor a condição humana, através de noções de morte, sexualidade, género e religião, são abordadas com um uso do cómico seco próprio da tragédia, misturada com o absurdo (dia 6 de junho, às 21h30, no Cineteatro Curvo Semedo).
Lá mais para o final do “filme”, que é como quem diz, do Encontro, entramos em “DIS ORDER”. A narrativa cénico-dramatúrgica versa na essência e traduz-se através de um drama psicológico sobre transtornos alimentares. A Cat Smits Company, dos Países Baixos, parece, por coincidência, fazer um trabalho complementar ao apresentado por Kim Noble. A peça parte da inspiração plasmada nos diários de Cat Smits e na pesquisa científica de Marlies Rekkers, que foi psicóloga de Smits há cerca de 15 anos. A performance é parcialmente autobiográfica e transformada em ficção por Christine Otten. DIS ORDER combina marionetas, atuação e dança com imagens de filmes de Sunny Bergman. Essa combinação garante que o público seja conduzido para a luta interior, que cada pessoa conhece em maior ou menor grau de forma comovente: a batalha entre a luz e a escuridão (dia 7, às 17h00, na Carvoaria).
“A jogar em casa”, a Alma de Arame juntou-se ao Teatrão e desta soma resulta curiosamente uma peça com nome de peça de vestuário, bem conhecida do léxico Alentejano: “O Capote”. Trata-se de um espetáculo de atores, objetos, marionetas, figuras, música ao vivo e teatro visual, inspirado no universo mordaz e profundamente humano de [Nicolau] Gogol, onde o humor e a melancolia se entre laçam para iluminar a estranheza do mundo (dias 29 e 30 de maio às 21h30, no Cineteatro Curvo Semedo).
No âmbito da Sementeira – Bolsa de Novas Criações para o Alentejo, há um projeto teatral que merece a atenção do público. “Espantos” é um objeto artístico que cruza teatro e formas animadas, com uma dramaturgia ancorada nas problemáticas do abandono populacional do Interior, assumindo simultaneamente “uma ética da alegria” como posição artística e relacional. A proposta afirma-se como um projeto plástico e ético na relação com o universo da aldeia, articulando o tempo e identidade rural na sua linguagem e dramaturgia (dia 30 de maio, às 18h30, na Oficina Magina).
“Capital Canibal” é uma proposta bizarra que se traduz na soma criativa protagonizada pelo binómio constituído pelo Teatro de Ferro e a Sonoscopia, duas estruturas com sede no Porto e com sede de ousadia em palco. É uma performance para os estômagos mais fortes e requintados, mas ao mesmo tempo muito inclusiva, pois até as partes piores podem ser aproveitadas (2 de junho, terça, às 21h30, na Carvoaria).
E como tónica circular, vincula-se a ideia de Amândio Anastácio para o melhor acolhimento das pessoas que se desloquem a Montemor-o-Novo para o efeito referenciado e haja comunhão com quem já vive na cidade:
‘Aceitação é reconhecer, acolher e respeitar a diversidade de pessoas, ideias, sentimentos e realidades. É abrir espaço para o outro, sem preconceitos ou julgamentos, e criar oportunidades para o diálogo e a convivência. É também aceitar(-nos) a nós próprios, com as nossas qualidades e fragilidades, e encontrando a serenidade mesmo perante o que não podemos mudar. Aceitar não é resignar-se, mas sim um ato de abertura, respeito e compreensão perante a pluralidade do mundo e da vida estes são os valores em que acreditamos. Acreditamos, hoje como há vinte anos, que a arte é uma das chaves para um mun-do mais justo, livre e humano. Por isso, voltamos a abrir as portas de Montemor-o-Novo ao mundo, num festival sem fronteiras, onde pessoas e países se encontram na diversidade que nos une e enriquece’.

