Exposições
"Ao Porto"
Alfredo Moreira da Silva regressa ao Porto, cidade onde nasceu e se formou, para apresentar "Ao Porto", uma nova exposição que reúne uma seleção de pinturas de grande formato realizadas no Alentejo ao longo da última década.
19 Set a 3 Out 2026
Há lugares dos quais partimos sem verdadeiramente os deixar. Quarenta e quatro anos depois de ter deixado o Porto, Alfredo Moreira da Silva regressa à cidade onde nasceu e se formou para apresentar “AO PORTO”, uma exposição que reúne uma seleção de obras realizadas no Alentejo ao longo da última década.
Com inauguração a 18 de setembro, entre as 18h00 e as 21h00, na Casa Rocha Gonçalves, e patente até 3 de outubro, a exposição estabelece um diálogo entre dois territórios fundamentais na vida e na obra do artista: o Porto onde começou e o Alentejo onde, ao longo de mais de três décadas, construiu grande parte do seu universo pessoal e artístico.
Depois de “SUL | Espectros Além do Tejo”, retrospetiva que assinalou cinco décadas de pintura, e de “INNATA”, apresentada este ano em Lisboa, “AO PORTO” introduz um novo movimento neste percurso: o regresso. Não como exercício nostálgico, mas como reencontro entre aquilo que permanece e aquilo que a distância transformou.
Nascido no Porto em 1958, Alfredo Moreira da Silva formou-se na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis e começou cedo a desenvolver uma relação com a paisagem, a cor e a matéria que viria a atravessar toda a sua obra. Em 1982 deixou a cidade e, depois de diferentes experiências, estabeleceu-se no Alentejo, onde criou na Herdade da Matinha um território em que pintura, floresta e vida quotidiana se tornaram progressivamente indissociáveis. É dessa paisagem que chegam agora ao Porto as obras desta exposição.
O ALENTEJO NO PORTO
Selecionadas entre pinturas realizadas entre 2016 e 2025, as obras de “AO PORTO” percorrem uma década da produção de Alfredo Moreira da Silva e revelam diferentes momentos de uma linguagem construída através da cor, da sobreposição, do derrame e da experimentação continuada.
Não são representações literais da paisagem. São antes vestígios daquilo que nela foi vivido e observado: luz, água, vegetação, matéria, estações, tempo. A paisagem surge transformada pela memória e pelo gesto, numa pintura que se aproxima da abstração sem perder a relação física e emocional com o território que lhe deu origem.
Entre as obras apresentadas encontram-se duas pinturas que, realizadas com três anos de distância, partilham a mesma linha de horizonte: “Living on the Edge of a Desert (19)”, de 2016, e “Living on the Edge of a Desert (15)”, de 2019. Numa, um céu lilás ergue-se sobre uma paisagem árida; na outra, o horizonte mantém-se, mas o território transforma-se numa sucessão de laranjas, rosas e verdes. A estrutura permanece enquanto a paisagem muda - como muda também a forma de a recordar.
Outras obras mais recentes revelam a evolução da prática do artista: a tinta derramada substitui progressivamente a pincelada, as superfícies tornam-se mais fluidas e o próprio acaso passa a fazer parte do processo, sempre dentro de uma disciplina de observação e experimentação construída ao longo de décadas.
UMA EXPOSIÇÃO PENSADA PARA UMA CASA
“AO PORTO” nasce também do encontro entre estas pinturas e um lugar muito particular. A Casa Rocha Gonçalves, projetada pelo arquiteto Alfredo Viana de Lima para Fernando Rocha Gonçalves e construída em 1951, é uma das obras marcantes da arquitetura moderna portuguesa. A casa nasceu no contexto das reflexões de Viana de Lima sobre uma nova forma de habitar e rompe com a lógica doméstica da compartimentação: os espaços sucedem-se com continuidade, a luz atravessa-os e a relação com a paisagem faz parte da própria arquitetura.
Setenta e cinco anos depois, as pinturas de Alfredo Moreira da Silva ocupam essa mesma casa. Distribuídas por cinco espaços - Átrio de Entrada, Foyer, Sala I, Sala II e Hall Superior -, as sete obras assumem uma presença física determinante na exposição. São pinturas de grande formato, com cerca de dois metros de altura e podendo atingir os 3,60 metros de largura, cuja escala estabelece uma relação direta com a arquitetura da casa e com o corpo de quem a percorre.
A seleção e disposição das obras respondem à escala, à luz e às perspetivas criadas pelo edifício. Algumas pinturas revelam-se à distância, através da continuidade entre espaços; outras exigem proximidade para que se percebam as camadas, derrames e gestos que constroem a superfície. A exposição transforma-se assim num percurso em que pintura e arquitetura se condicionam mutuamente.
Ao contrário de uma galeria neutra, aqui não existe uma separação clara entre obra, espaço e observador. A casa deixa, assim, de ser apenas o lugar onde a exposição acontece para se tornar parte dela.
UM REGRESSO SEM NOSTALGIA
Se o Alentejo se tornou o território central da vida e da pintura de Alfredo Moreira da Silva, o Porto permanece como ponto de origem. Foi aqui que nasceu, estudou e começou a formar o olhar que, décadas mais tarde, continua a orientar o seu trabalho. “AO PORTO” coloca esses dois lugares frente a frente: não para reconstruir o passado, mas para perceber aquilo que atravessou a distância.
Depois de cinco décadas de prática artística, regressar significa também olhar novamente para o lugar de onde se partiu.
Porque a distância altera aquilo que permanece.
SOBRE ALFREDO MOREIRA DA SILVA
Alfredo Moreira da Silva (Porto, 1958) é um pintor português cuja obra se desenvolve no campo da abstração contemporânea, com uma linguagem contemplativa e cromática profundamente ligada à paisagem. Formado na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, desenvolveu ao longo de cinco décadas uma prática pictórica marcada pela cor, pela matéria, pelo gesto, pela memória e pela observação continuada.
Desde os anos 1990, vive e trabalha no Alentejo, onde recuperou a Herdade da Matinha, no Cercal, transformando-a ao longo de décadas através de um processo continuado de regeneração da paisagem. É também aí que se encontra o seu atelier, estabelecendo uma relação direta entre o trabalho artístico e o território que o rodeia. A paisagem que ajudou a regenerar tornou-se, simultaneamente, matéria e contexto da sua pintura.
As suas pinturas são expostas desde 1995 e integram coleções privadas em vários países. Entre 2025 e 2026 apresentou “SUL | Espectros Além do Tejo”, retrospetiva dedicada a cinco décadas de pintura, seguindo-se “INNATA”, em Lisboa.

