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Exposições

"Pintar É Fácil. Faça Você Mesmo!"

Uma seleção de peças da notável Coleção de Arte Contemporânea da Fundação ”la Caixa” pode ser vista entre 10 de outubro de 2026 e 8 de fevereiro de 2027,  na Galeria Principal da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian.

Antoni Muntadas, «Pintar Es Facil», 1989 © Antoni Muntadas, VEGAP, Barcelona, 2023

10 Out a 8 Fev 2027

Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna, 45A, 1067-001 Lisboa

A Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação ”la Caixa”, em colaboração com o BPI,  apresentam esta mostra, com curadoria de João Maria Gusmão, que reúne cerca de quatro dezenas de obras de 31 artistas.

João Maria Gusmão, artista que nos últimos anos tem assinado vários projetos de curadoria, foi convidado a conceber uma exposição a partir do acervo da Coleção ”a Caixa”, tendo selecionado trabalhos de pintura, instalação, escultura, vídeo e fotografia de artistas como Antoni Muntadas, Giovanni Anselmo, Angela de la Cruz, Peter Halley, Damián Ortega, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Doris Salcedo, Thomas Schütte e Michael Snow, entre muitos outros.  Além de um trabalho do próprio Gusmão,foram também incluídas obras de artistas portugueses como Ana Jotta, Jorge Queiroz e a luso-alemã Susanne Themlitz.

O título da exposição remete para uma fotografia de Antoni Muntadas, de 1989, que mostra o anúncio de uma loja de materiais de construção pintado na sua fachada onde figura um balde de tinta e o slogan: «Pintar es fácil! Hágalo usted mismo», que introduz a reflexão que subjaz a esta mostra: os pontos de divergência e de contacto entre a cultura faça você mesmo e a prática artística. Deste modo, o curador traz à reflexão a máxima de Joseph Beuys segundo a qual "todo o ser humano é um artista" e que prometia uma utopia à luz da qual a criação artística deixaria de ser um privilégio de classe para adquirir uma dimensão abrangente de todas as formas produtivas tornadas estéticas, diluindo a diferença entre pintor civil e o génio pintor.

Olhando cada obra de arte a partir da cultura do “faça você mesmo”, João Maria Gusmão problematiza o lugar da arte numa sociedade onde o lazer, a criatividade e a subjetividade foram progressivamente incorporados nas lógicas da produção e do consumo. Estabelecendo um diálogo entre práticas experimentais na arte contemporânea dos últimos 50 anos, esta exposição propõe uma observação crítica e satírica, no quadro histórico atual, sobre o valor da arte no imaginário coletivo.

A abrir o texto da folha de sala, o curador avisa logo que a exposição, “não sendo bazófia tão-pouco é para levar a sério”. O tom satírico estende-se ao catálogo da exposição, em que as obras e os artistas são apresentados como no exemplo abaixo:

ANTONI MUNTADAS
Datada de mil novecentos e oitenta e nove e com um metro e noventa de altura, temos uma fotografia que retrata um mural-reclame de loja-drogaria que, para além de artigos de perfumaria, materiais de constru­ção, ferragens e ferramentas, venderia ainda, aos ver­dadeiros desenrasca-tudo-mãozinhas-d’oiro lá de casa, boa tinta de parede TITAN! Aliciada por tal anúncio, essa espécie rara de ladies & gentlemen que conserta tudo e mais alguma coisa, homo habilis vulgaris, esta­ria a ser instigada a enveredar pelas lides da pintura doméstica. O slogan promete: “Pintar é fácil! Faça você mesmo”. Claro está: a pintura a rolo, sem o constran­gimento de classe entre a pintura civil e a artística, faz da arte da têmpera d’ovo e pigmento coisa de toda a gente democraticamente, sem engenho ou génio, arte popularmente acessível.

A rolo ou a pincelinho, arte para todos, já e agora. Disse.

COMO FAZER UM ANTONI MUNTADAS
Esta é uma receita d’arte somítica e semiótica cuja res prima é a cultura, a cultura genérica, a forma como esta é difundida pelos aparelhos, som, imagem e texto, a lógica dessa distribuição enquanto propaganda, cons­trução, coerção, constrangimento e modelo social. É a ideologia, estú­pido!, essa plasticina da psique humana que é usada para naturalizar as regras de cada polis e para justificar a maldade, a violência e a injustiça, os meios e os fins, contra outras formas de existir coletivamente antitéticas.

Faz-se nesta receita notar que é nos media e na comunicação que residem a subtileza das nossas pechas mefistofélicas e os mecanismos para convencer as so­ciedades seculares contemporâneas da sua autoridade e notoriedade morais. Esta arte não faz assunto da forma artesã dos afazeres e do talento, mas dos mecanismos de produção/valor/distribuição/consumo na paisagem mediática que modela o su­jeito à imagem do mundo que o rodeia. Antropologia e antropofagia das mensagens: rever, analisar, pensar nisso. Ficar triste e melancólico se lhe parecer ajustado. Receita-inquérito da nossa maneira de existir enquanto bioma apocalíptico. Regis­te, catalogue e desconfie, exponha a contradição e o paradoxo de forma a tornar subtilmente evidentes as distorções de sentido à nossa volta. A mensagem é sempre outra coisa.

INGREDIENTES BÁSICOS
Subscrição impressa dos seguintes periódicos: The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, The Guardian, The Times, Le Monde, El País, o Financial Times e etecetera e tal...
Uma tesoura
 

Coleção de Arte Contemporânea da Fundação ”la Caixa”
Constituída por mais de um milhar de obras, a Coleção de Arte Contemporânea da Fundação ”la Caixa” foi criada nos anos 1980, com obras de artistas como Joseph Beuys, Bruce Nauman, Antoni Tàpies, Jannis Kounellis, Mario Merz, Giovanni Anselmo, Juan Muñoz, Giuseppe Penone, Luis Gordillo, Joan Hernández Pijuan, Robert Ryman, Donald Judd, Carl Andre, Antoni Muntadas, Mike Kelley, Robert Mangold, Agnes Martin, Gerhard Richter, Sigmar Polke, Ilya Kabakov e Paul McCarthy. Ao longo do tempo, foram incorporadas obras de criadores como Roni Horn, Steve McQueen, Pierre Huyghe, Juan Uslé, Cornelia Parker, Marlene Dumas, Mona Hatoum, Cristina Iglesias, Damián Ortega, Susana Solano, Francis Alÿs, Soledad Sevilla, Ester Ferrer, James Coleman, Philippe Parreno, Olafur Eliasson e Dora García, entre muitos outros. A coleção integra todas as práticas artísticas, da pintura e da escultura à fotografia, ao cinema, às instalações e à videoarte.

As obras desta coleção são mostradas nos centros CaixaForum em Barcelona, Madrid, Palma de Maiorca e noutras localidades, mas também em exposições regulares, em Espanha e em diferentes países da Europa e da América, realizadas por curadores independentes e por artistas, que incorporam a sua própria visão da arte contemporânea e propõem novas leituras.

João Maria Gusmão
Nasceu em 1979, em Lisboa, cidade onde vive e trabalha.
Ao longo dos últimos vinte anos, João Maria Gusmão desenvolveu um conjunto enigmático e complexo de práticas e meta-práticas que vão do cinema experimental à fotografia, passando pela escultura e pelo desenho, e estendendo-se à literatura, à curadoria de exposições e à edição. A sua investigação situa-se no cruzamento entre uma reflexão metafísica sobre a estética da fotografia e do cinema dos primórdios, uma análise conceptual do meio analógico, e a recuperação de determinadas experiências modernistas no âmbito da literatura e correntes específicas da filosofia contemporânea (o materialismo transcendental e o realismo especulativo). João Maria Gusmão tem expandido a sua prática artística através da colaboração com diferentes artistas, curadores e editores. A sua longa, multidisciplinar e prolífica colaboração com Pedro Paiva, de 2001 a 2018, destacou-se particularmente pelo uso de imagens cinematográficas em película de 16 mm, apresentadas em instalações imersivas através de diversos dispositivos de projeção. Baseadas em períodos de produção cinematográfica e no recurso a técnicas cinematográficas alternativas, estas criações foram reunidas em exposições temáticas que, no seu conjunto, constituem o corpus conceptual e poético do trabalho desenvolvido em conjunto (Eflúvio Magnético [Magnetic Effluvium], 2003–06; Abissologia [Abyssology], 2008–12; Papagaio [Parrot], 2014–16; Avantesma Fantasma, 2016–19).Em fevereiro de 2020, Gusmão juntou-se a Celia Bernasconi, curadora do NMNM, no Mónaco, para criar uma exposição dedicada à obra de Eugène Frey (1863–1930), um dos últimos pioneiros da lanterna mágica. Gusmão estabeleceu relações duradouras com outros artistas, criando conteúdos e materiais escritos para projetos com Natxo Checa e a ZdB, colaborando com artistas como Alexandre Estrela, Mattia Denisse e Gonçalo Pena. Um exemplo disso é o projeto Luacão, desenvolvido com Paiva e Estrela (e Natxo Checa, enquanto curador), apresentado em Lisboa pela ZDB em 2017, no Kunstverein München e na La Casa Encendida, em Madrid, em 2018. João Maria Gusmão publicou também livros e fez a curadoria de diversas exposições de Gonçalo Pena na Galeria Graça Brandão, na ZDB (em co-curadoria com Natxo Checa), no Kunstverein München (em co-curadoria com Pedro Paiva), na Andrew Kreps, em Nova Iorque, e na Galleria Zero, em Milão (em co-curadoria com Pedro Paiva). Em 2022, fez, em conjunto com Natxo Checa, a co-curadoria de uma exposição monográfica dedicada à obra de Mauro Restiffe na ZDB.

Fundação ”la Caixa”: 56 milhões de euros para 2026
A Fundação ”la Caixa” iniciou em 2018 a sua implantação em Portugal, consequência da entrada do BPI no grupo CaixaBank. Em 2026, destina 56 milhões de euros a projetos sociais, de investigação, educativos e de divulgação cultural e científica.

gulbenkian.pt 

Pintar É Fácil. Faça Você Mesmo!?
Coleção de Arte Contemporânea da Fundação ”la Caixa”
10 outubro 2026 – 08 fevereiro 2027
Galeria Principal - Fundação Calouste Gulbenkian
10:00 – 18:00
Sábado 10:00 – 21:00 
Encerra terça

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