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Exposições

"Tragédia e Farsa. Júlio Pomar e Gabriel Abrantes"

Exposição com curadoria de Sara Antónia Matos, incluindo obras históricas de Júlio Pomar e obras inéditas de Gabriel Abrantes, num total de cerca de 100 obras, em pintura e desenho. 

6 Nov a 28 Fev 2027

Atelier-Museu Júlio Pomar
Rua do Vale, nº7, 1200-472 Lisboa

Inauguração: dia 5 de novembro, às 18h.

Enquadrada no âmbito das comemorações do centenário de Júlio Pomar, «Tragédia e Farsa. Júlio Pomar e Gabriel Abrantes», com curadoria de Sara Antónia Matos, dá seguimento a um programa de exposições do Atelier-Museu que, todos os anos, cruza a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas. Este cruzamento pretende estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade, indagando se os conceitos e as questões levantadas pelo autor continuam operativas no presente.  São algumas dessas questões (a relevância da prática pictórica na atualidade, o seu potencial crítico e político e os próprios dispositivos de exposição) que Gabriel Abrantes procura problematizar. Deste modo, esta exposição é pensada, desde a sua génese, como uma intervenção específica no espaço do Atelier-Museu, evocando também uma museografia da década de 1940, alusiva às Exposições Gerais de Artes Plásticas (em particular a de 1947), na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Ao desafiar Gabriel Abrantes (n. 1984) a realizar uma exposição que se focasse no domínio específico da pintura, relevando as suas questões mais prementes – “pintura, pintura”, como lhe foi pedido num dos primeiros encontros –, e após várias conversas com a equipa do museu, consulta de imagens referentes a obras, fotografias documentais, entre outros elementos, Abrantes avançou com a ideia de uma exposição com o título «Tragédia e Farsa». Trata-se, portanto, de uma alusão à frase de Marx, que no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) afirma que a história ocorre duas vezes: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

A um núcleo de obras neorrealistas de Pomar, composto por O Almoço do Trolha (1946-50), Resistência (1946), Estrada Nova (1946) Marcha (1946) e Sem título (Rapaz) (1942?), Abrantes responde com: cinco novas obras em pintura (além de um conjunto de desenhos assinalável), tomando os motivos de Pomar – a refeição familiar, a resistência, a estrada, a marcha, o rapaz –, como pontos de partida para refletir sobre censura, opressão, violência de Estado, resistência e precariedade em 2026.

Recorrendo ao seu processo de trabalho habitual, ancorado em ferramentas digitais e computacionais utilizadas na criação de cenários e figuras em 3D, posteriormente materializado em transposições que operam no campo da pintura tradicional, a óleo sobre linho, desenho, e pastéis, Abrantes aproxima-se de Pomar, não apenas através dos meios artísticos – pintura e desenho – mas também das temáticas e assuntos inerentes aos quadros, portadores de crítica social.

Quando olha para a obra de Júlio Pomar, é de facto muito interessante sublinhar aquelas que são as escolhas de um artista como Gabriel Abrantes, cujo percurso se iniciou já no século XXI. Elas incidem sobre um período inicial da obra de Júlio Pomar, dentro de um movimento que procurou cruzar arte e sociedade, que entendeu a arte como veículo de revolução, de denúncia, de divulgação de ideais sociais, transformadoras e antirregime. São igualmente, quase todas, obras do período do pós-Segunda Guerra Mundial, de paleta escura, textura rugosa, modestas na dimensão.

As obras que Gabriel Abrantes produziu para integrar a exposição do Atelier-Museu são de outra tonalidade, geradas por outras ferramentas e habitadas por outro tipo de figuração. A paleta passou a ser ou ter a luminosidade do ecrã, hiper-colorida, a textura é plana e a espessura própria dos corpos reais perdeu-se à maneira do digital. Contudo, o trabalho digital das imagens não anula a necessidade da pintura como prática manual, mais tradicional, ou analógica. Gabriel Abrantes desenha, digitaliza, tridimensionaliza, espacializa, manipula, projeta e finalmente pinta a óleo sobre tela e até como Júlio Pomar, raspa a tinta na superfície pictórica.

E o que nos diz a figuração de Gabriel Abrantes? Que figuras ocupam o lugar do trolha? São os trabalhadores explorados do presente, figuras sem rosto, por vezes desfiguradas, vulneráveis, servis, que se distanciam das figuras idealizadas dos trabalhadores, representadas pelos neorrealistas e particularmente por Júlio Pomar. Trabalhadores precários de bicicleta e mochila amarela às costas, estafetas em geral, homens que dividem - por falta de opção - o quarto, a cama onde dormem.

Daí que se entenda mais profundamente o título «Tragédia e Farsa». A primeira como o prenúncio de uma revolução, aguardada prolongadamente, e que apesar da dureza, se veio a efetivar. A segunda como uma repetição vã da primeira, que vinca a necessidade de mudança, mas efetivamente não leva a lado nenhum: a estrada nova não abre para um novo caminho, a marcha não vai em direção alguma, não há fuga nem mudança social.

Se por um lado, Gabriel Abrantes focou a sua atenção num período específico da produção de Júlio Pomar, por outro lado, interessou-se igualmente pelo modo como essas obras foram originalmente expostas. A partir de registos fotográficos da época, Gabriel Abrantes procurou então questionar e devolver algumas das qualidades dos antigos regimes cenográficos de apresentação da arte – protocolos museográficos que hoje assumem uma importância extraordinária na fruição e no reconhecimento da arte.

No piso térreo, a instalação concebida por Gabriel Abrantes evoca e atualiza a sala de 1947 da SNBA – Sociedade Nacional de Belas Artes, a partir das fotografias de Mário Novais da «II Exposição Geral de Artes Plásticas», que constituem fontes referenciais para entender a exposição e que aqui também se reproduzem. Os registos fotográficos de Mário Novais, disponibilizados pela Fundação Calouste Gulbenkian, dão conta das qualidades museográficas subjacentes a este tipo de mostras, cenografadas de um modo muito distante daquilo que hoje vemos acontecer em galerias ou museus.

Subvertendo o décor de época, de forma irónica, a proposta provocadora de Gabriel Abrantes para o Atelier-Museu Júlio Pomar permite revisitar obras, ambientes e protocolos museológicos de apresentação de arte, a própria forma de construção e criação do sistema. Tragédia, farsa?

Do mesmo modo, Abrantes traz para o presente preocupações análogas às exploradas por Júlio Pomar, abordando diretamente questões políticas controversas como a emigração, o trabalho precário, a subalternização e que são abordadas por exemplo na pintura de grande formato (340 × 250 cm), Sem título (Benformoso / Dormitório), apresentada no segundo piso do museu. 

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