"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Património Imaterial

Saberes e práticas tradicionais de construção do cavaquinho

País: Portugal

Tipo de Património
Património Imaterial
Classificação
Inventário Nacional de Património Imaterial
Descrição

A Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) inscreveu os «Saberes e práticas tradicionais de construção do cavaquinho» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, conforme Despacho da Subdiretora-Geral do Património Cultural de 17 de outubro de 2022, que será publicado em breve em Diário da República.

A arte artesanal de construir o cavaquinho é anterior ao século XX. A construção tradicional de cavaquinhos tem maior expressão no Noroeste de Portugal, mas está presente em muitas outras regiões do país e é efetuada por artesãos que se dedicam à construção de outros cordofones tradicionais portugueses nas suas oficinas.

Este ofício tradicional cruzou os séculos XIX e XX, e ainda está ativo, o que evidencia a sua capacidade de resistência às mudanças sociais entretanto ocorridas, e a sua capacidade de recriação e adaptabilidade a novos espaços geográficos e a novas condições que lhe dão sentido.

À produção tradicional de cavaquinhos realizada para vender em mercados e romarias até à década de 60 do século XX, sucede, na contemporaneidade, a produção de cavaquinhos que são comercializados na oficina do construtor, fruto do diálogo com o cliente, o qual recai geralmente sobre a escolha das madeiras e sobre particularidades relacionadas com a sonoridade ou com a apresentação estética do instrumento.

Apesar de ainda estar presente em várias casas minhotas de cariz rural ou semi-rural onde é tocado para animar os serões ou os encontros e festas de família, o cavaquinho foi também utilizado noutros contextos, como os concertos das suas “orquestras”, muito populares nas décadas de quarenta a sessenta. Atualmente, são muito comuns em espaços ao ar livre dotados de palco, os chamados “encontros” de cavaquinhos, envolvendo grupos de aficionados oriundos de vários pontos do país, numa celebração de festa e amizade.

Além da produção artesanal para o universo da música tradicional profissional e amadora, nacional e internacional (por exemplo, os espaços de emigração portuguesa) e para os alunos e professores das escolas de música, o cavaquinho é muitas vezes adquirido para oferecer aos familiares, aos filhos e aos netos, aos amigos, ou, por exemplo, a um médico ou advogado como reconhecimento por um serviço prestado. No contexto da diáspora, o cavaquinho é tocado para recordar, confortar e/ou afirmar a identidade do tocador(es). Em muitos dos espetáculos de música tradicional, organizados pelas associações de emigrantes, o cavaquinho surge a par de outros instrumentos musicais populares portugueses.

Os construtores referem muitas vezes o contributo do músico Júlio Pereira (LP Cavaquinho, 1981) na revitalização, requalificação e difusão do cavaquinho que ocorreu na década de oitenta. Houve uma procura do instrumento, a nível nacional, que proporcionou a prática do mesmo nas décadas seguintes.

Esta nova dimensão e expansão do papel do cavaquinho nas novas expressões da música popular tradicional portuguesa, despoletou estudos e experiências no interior das oficinas tradicionais, entre os construtores e os músicos, que contribuíram para melhorar a potencialidade e sonoridade dos cavaquinhos produzidos à época, nomeadamente as alterações registadas ao nível da escala.

CONSTRUTORES
A construção de cavaquinhos é uma atividade desenvolvida por um artesão (o mestre), mas pode envolver outros familiares que estão a aprender a arte (filhos, netos, irmãos ou sobrinhos - os aprendizes), ou que apenas desenvolvem tarefas complementares ou finais, como lixar, envernizar, ajudar a cortar as pranchas (mulher, filhos, filhas).

O artesão é responsável por todas as fases do processo de construção, o processo inicia-se com a escolha das madeiras e termina com a afinação do instrumento. A oferta de cavaquinhos e outros instrumentos cordofones de fabrico artesanal, apesar de mais dispendiosos, são assim uma alternativa à oferta industrial e comercial massificada de instrumentos musicais disponíveis em espaços comerciais, e tem permitido que estes artesãos se mantenham no circuito comercial. Alguns dos construtores desenvolvem o seu ofício tradicional, como uma forma de auto-subsistência natural, que herdaram dos pais e avós, e que correspondia a uma determinada organização cultural, social e económica das sociedades rurais e urbanas dos séculos XIX e XX.

Outros construtores dedicaram-se à construção artesanal de cordofones tradicionais, após terem passado por outras áreas profissionais, como a marcenaria, o desenho técnico, etc. Existem também alguns casos de construtores que desenvolveram interesses relacionados com a história da construção dos instrumentos musicais portugueses, e decidiram reatar, reproduzir e reinventar os saberes e as práticas tradicionais da construção do cavaquinho. Cada construtor assina (identifica) a sua obra e divulga a sua atividade através dos rótulos ou etiquetas (pequeno papel de forma redonda, oval, quadrada ou retangular). Nas etiquetas regista os tipos de instrumentos que constrói, o seu nome, morada, número de registo e a data. Por vezes, ainda acrescenta pequenas marcas/incisões “invisíveis” que garantam uma eventual anulação do rótulo por outro construtor, por exemplo, num contexto de restauro.

Os construtores reconhecem facilmente a sua obra e a de outros construtores, geralmente, através do som e por alguns pormenores, tais como a cabeça do cavaquinho, o formato do cavalete e a decoração da boca. Além da divulgação do seu ofício através do instrumento musical construído, os construtores possuem páginas pessoais na internet e alguns participam em feiras de artesanato/tradições locais e nacionais. Estes eventos nem sempre reúnem as condições desejáveis para a exposição de cordofones, instrumentos muito sensíveis às alterações de temperatura ou humidade.

A comunicação social, televisão, rádio e imprensa escrita têm periodicamente divulgado o trabalho de alguns dos construtores, em rubricas e programas relacionados com os ofícios tradicionais e a música popular. Os artesãos de cordofones tradicionais consideram que a arte que desenvolvem é um desafio constante, que os absorve para lá das horas normais de trabalho e dos supostos períodos de descanso e lazer. Num processo contínuo de aperfeiçoamento do seu trabalho, muitos artesãos anseiam por construir cavaquinhos com alta qualidade acústica e estética, que possam eventualmente ser adquiridos por músicos/intérpretes de renome e utilizados nos seus espetáculos.

Quase todos os construtores passaram pela experiência de vender cavaquinhos para as lojas de instrumentos musicais dos grandes centros urbanos, porém verificaram que a melhor opção para receber as encomendas dos clientes nacionais e estrangeiros é diretamente no espaço da oficina, quer seja presencialmente, por telefone ou email. Após a encomenda, o construtor entrega o cavaquinho produzido no espaço da oficina, ou envia-o à cobrança pelo correio, ou através das empresas de transporte (como as carrinhas que diariamente percorrem os países da Europa a entregar produtos gastronómicos portugueses).

Desta forma os cavaquinhos produzidos em Portugal “viajam” para variadíssimos destinos da Europa, dos Estados Unidos da América, do Canadá e ainda para o Brasil, Japão, Austrália e até para o Havai. Há cavaquinhos do mestre Domingos Machado em coleções particulares e museológicas, como no Museu Nacional de Etnologia (Lisboa), no Museu de Etnologia de Hamburgo e no Museu Nacional de Etnologia do Japão. Os construtores de cavaquinhos são também restauradores de cordofones tradicionais, e são unânimes sobre a importância da atividade de restauro, por ser mais constante e de lucro imediato, garantindo-lhes a viabilidade do seu ofício tradicional.

O segredo da construção do cavaquinho passa por estratégias de construção próprias de cada artesão: a precisão simétrica dos seus cordofones, o uso de determinadas colas, vernizes e outras matérias por si escolhidas, ferramentas ou equipamentos que “inventa”, pela qualidade e espessuras das madeiras que escolhe e pela posição das travessas.

TIPOS DE CAVAQUINHO
O cavaquinho minhoto é um instrumento musical de pequenas dimensões, do tipo da viola, com quatro cordas metálicas, escala rasante ao tampo com doze trastos e boca de raia ou redonda.

Os cavaquinhos urbanos, cuja construção e prática se encontram atualmente em fase de revitalização, pode ser de dois subtipos, um mais antigo com quatro cordas de tripa, a escala rasa e doze trastos, e um outro mais tardio com quatro cordas de tripa ou metal, a escala sobreposta ao tampo e dezassete trastos que vem até à boca que é redonda. O machete madeirense mais antigo (em fase de revitalização) com quatro cordas de tripa, pode ter a escala rasa com doze trastos ou sobreposta e dezassete trastos. O braguinha, também da Ilha da Madeira possui as características do cavaquinho urbano tardio tendo vulgarmente quatro cordas de tripa/nylon, a escala sobreposta, dezassete trastos e a boca redonda. As dimensões dos cavaquinhos e braguinhas/machetes variam pouco de construtor para construtor, o comprimento varia entre 50 a 60 cm, pertencendo cerca de 50% do tamanho à caixa-de-ressonância.

PROCESSO DE CONSTRUÇÃO
Cada cavaquinho é uma peça única, e é geralmente feito por encomenda nas oficinas dos construtores, muitas vezes um anexo da sua habitação, local de receção dos clientes e espaço de convívio com os amigos e os vizinhos tocadores. Na oficina, os construtores têm alguns exemplares de cavaquinhos e o cliente pode experimentá-los antes de comprar. O artesão leva para as feiras de artesanato um número reduzido de cavaquinhos, pois o seu objetivo principal é participar, divulgar o seu trabalho/arte e receber encomendas. O cavaquinho é construído segundo o processo tradicional, com os moldes originais e com ferramentas manuais, mas pode incorporar indicações específicas do cliente e apresentar dimensões únicas (como a largura do braço ou a altura da caixa de ressonância).

Também pode resultar do processo criativo e artístico do construtor e incorporar formas e detalhes estéticos inovadores. A maioria dos construtores já introduziu algumas alterações/inovações no processo tradicional de construção, tal como o uso de ferramentas elétricas, a utilização de colas e de vernizes sintéticos, ou a inclusão de pormenores técnicos a partir do diálogo com os clientes músicos, tocadores. Segundo eles esse diálogo é imprescindível para a evolução do trabalho que exercem diariamente.

Construir um cavaquinho com vista à sua utilização para fins musicais implica diversas operações: selecionar as madeiras da caixa-de-ressonância e do braço, colocação da escala, do cavalete e dos embutidos, cravelhas, cordas, trastos e subsequente envernizamento e afinação. Aproveitando os tempos de colagem, o construtor intercala a produção de um cavaquinho com a produção de outros cavaquinhos, ou com a construção de outros cordofones. Quando o instrumento fica pronto, para ser entregue ao cliente, é colocado num estojo resistente, de madeira acolchoado a espuma. Muitos construtores começaram por construir os seus estojos, atualmente passaram a adquiri-los no comércio especializado e/ou ao construtor de cavaquinhos, Joaquim Rodrigues de Famalicão, que constrói diferentes tipos de estojos para cordofones. O preço de um cavaquinho de construção artesanal, consoante os materiais utilizados e/ou o renome do construtor, varia entre os 100 euros e os 800 euros.

Os construtores, como constroem vários tipos de cordofones, podem fazer cinco, dez cavaquinhos por ano, ou mais, caso haja encomendas relacionadas, por exemplo, com o início do ano escolar/académico, ou com grupos musicais que pretendam integrar cavaquinhos ou substituí-los. A par de uma tecnologia tradicional, as máquinas elétricas (serras, furadoras, lixadoras, pistolas de envernizamento, etc.) são neste processo ferramentas complementares que são usados por alguns dos construtores para transformar a madeira no produto final: o instrumento musical.

A lixadeira vibratória e a pistola vieram facilitar as tarefas, que outrora eram atribuídas aos aprendizes, ou às mulheres da família (esposas, irmãs, filhas) que lixavam e envernizavam manualmente os cavaquinhos.

As madeiras
Para garantir uma boa sonoridade, a madeira utilizada para construir o cavaquinho deve ser seca, antiga e proveniente do lado da árvore que durante anos acompanhou o ciclo do sol (desde o nascimento ao ocaso). Os construtores adquirem madeiras da flora nacional (nogueira, cerejeira, plátano, tília, etc.) e madeiras da flora internacional (pau santo, ébano, pinho de flandres, ácer, sicómoro, etc.) em estâncias/armazéns/serrações de madeiras locais, nas fábricas de Braga que produzem cordofones, e em fábricas de Espanha, Itália e Alemanha que produzem materiais para a construção de instrumentos musicais. As madeiras são fornecidas com as medidas exatas e as espessuras ideais, e agrupadas para as aplicações específicas (ilhargas, tampos, etc.), por exemplo, os tampos necessitam de madeiras com cerca de 4 mm de espessura. Os artesãos também aproveitam alguns troncos de árvores derrubadas pelo vento, e pranchas de edifícios demolidos, compradas e/ou doadas por vizinhos, amigos, conhecidos.

Alguns construtores têm pranchas de madeira (com cerca de 8 cm de altura) a secar há várias dezenas de anos em anexos cobertos junto das suas oficinas. Para cortar as madeiras com a espessura e dimensões ideais que permitam a sua utilização e arrumação no espaço da oficina, os construtores recorrem aos serviços das serrações, ou utilizam máquinas de pequena dimensão que possuem em anexos ou espaços contíguos à oficina. Algumas dessas máquinas foram construídas pelos próprios ou pelos seus pais, com recurso, por exemplo, a motores de motorizadas, a pedais de máquinas de costura, etc.

A qualidade do instrumento e das diferentes partes que o constituem varia consoante a madeira utilizada na construção do cavaquinho. Como a função do tampo é vibrar, utilizam uma madeira branda que propaga melhor o som, quase todos os construtores utilizam o pinho de flandres. No entanto, também se fazem cavaquinhos com a metade superior do tampo em ébano, uma vez que é um tipo de madeira que resiste melhor ao desgaste produzido pelo movimento acelerado dos dedos sobre o tampo. Como o fundo (as costas) e as ilhargas (os lados) têm como função transmitir o som, os construtores utilizam uma madeira densa como a nogueira, a cerejeira, ou o pau-santo. Para a escala usam uma madeira dura como o panga-panga, o pau-santo ou o ébano, é muito importante que a escala não empene, pois se isso acontecesse afastaria as cordas da estrutura do instrumento.

O cavalete também deve ser resistente para que haja uma boa sonoridade, e geralmente utiliza-se o pau-santo na sua construção. Outros materiais Tradicionalmente a cola utilizada na construção de um cavaquinho é o “grude” (cola feita à base de restos de carcaças de animais), que é derretido em “banho-maria”, durante este processo deve mexer-se sempre para a cola não ganhar grumos. Atualmente já há muitos construtores que utilizam colas sintéticas, as designadas “colas para madeira”. Alguns construtores substituíram o verniz goma laca (álcool e goma laca) aplicado “à boneca” pelos vernizes sintéticos dados à pistola.

O verniz goma laca é sobretudo utilizado em trabalhos de restauro, na construção de um cavaquinho de luxo, ou a pedido do cliente.

Ferramentas
Como principais ferramentas encontram-se o compasso e as plainas (por vezes herdados dos pais ou avós), o raspador (ou raspão), as limas, os palhetes (as facas), o metro, as réguas, a fita métrica, os alicates, o martelo, a chave de fendas para apertar os carrilhões, os vários formões, os graminhos, as serras e os serrotes, o serrote faquinha para fazer os trastos, a serra de disco, o berbequim, a lixadeira circular e a lixadeira vibratória (que substitui a plaina e o raspador). Algumas das ferramentas são compradas, outras adaptadas pelos construtores e outras produzidas pelos serralheiros locais como os palhetes e os formões. Há formões produzidos a partir de molas de camião e que tem a têmpera de aço adequada para os procedimentos de corte.

O tampo e o fundo
Utilizam-se os moldes que têm a forma do fundo e do tampo (alguns com mais de trinta anos) para os desenhar (riscar) em folhas de madeira (quase sempre o que resta da construção de outros cordofones de maiores dimensões). Com a serra elétrica ou o tico-tico a pedal (ainda em uso na oficina de Domingos e Alfredo Machado) recorta-se o tampo e o fundo que são aplainados. Em regra, o fundo são duas folhas de madeira simétricas que são coladas e prensadas com cordas e talas de madeira ou com grampos. O tampo é feito de uma única folha. No tampo, com uma espessura entre 1,5 a 3 mm, é marcado o meio e com o compasso de bico marca-se a boca do instrumento. Em redor da boca e nos rebordos do tampo abre-se com o formão os frisos decorativos que são avivados com cor (como fuligem misturada com cola), ou preenchidos com madrepérolas e com embutidos (tiras de madeira muito fininhas construídas ou adquiridas) que são coladas e fixadas com ajuda do martelo.

Durante alguns anos, o construtor Alvarinho de Castro Pereira de Gondomar vendeu embutidos aos outros construtores de cordofones tradicionais. Após a cola dos embutidos secar, abre-se a boca do cavaquinho no tampo, faz-se um furo com o berbequim para permitir a entrada do tico-tico manual, ou elétrico, e recorta-se a boca. Na parte central inferior do tampo cola-se um taco (o bregueiro) que irá permitir a junção inferior das ilhargas (faixas laterais do instrumento) e utilizam-se os ferros ou grampos para o fixar ao tampo.

O braço
O braço é construído a partir de uma ripa de madeira, utiliza-se o molde do braço para o traçar e é serrado com a serra manual ou elétrica, deve ter uma espessura de cerca de 1,5 cm. Cola-se na zona inferior do braço um taco (a alpatilha) e com corda de sisal amarra-se as duas partes e aperta-se com duas cunhas de madeira. Após esta junção fica a secar até ao dia seguinte. Posteriormente, com a serra abrem-se ranhuras (cortes) no taco que irão permitir a junção (o encaixe) das ilhargas e cola-se o braço ao tampo. A parte superior do braço chama-se “cabeça” ou “pá”. Mais tarde, serão abertos furos na parte superior do braço para serem colocadas as cravelhas de madeira dorsais (em desuso), os carrilhões (o mais vulgar), ou o leque por influência da guitarra portuguesa. Os carrilhões são comprados no comércio especializado ou encomendados a um artesão de metais.

As ilhargas, cintas e travessas
As faixas de madeira das duas ilhargas (lados) cuja largura varia entre os 4 cm e os 6 cm (com uma espessura 1,5 mm) são dobradas (moldadas) a calor num tubo/cilindro de ferro/aço que é aquecido pela queima de aparas de madeira no seu interior (o farol - praticamente em desuso), ou por uma chama a gás (o mais vulgar), ou ainda por uma resistência elétrica. Esta fase da construção não é fácil, exige muita prática e geralmente é feita pelo mestre. Depois de moldadas as ilhargas e ainda quentes são unidas com uma corda de sisal, ou grampos, para ganharem a mesma forma. Concluída esta operação e após a pausa de colagem necessária, segue-se a colagem das ilhargas no tampo da frente, fixadas com molas de ferro ou grampos. Ao longo das ilhargas colam-se as cintas (sanefas, cerquinhas) e uns contrafortes (taquinhos) geralmente de pinho para reforçar a colagem. Colocam-se as duas travessas que dão resistência ao tampo, e a travessa arqueada que dá estrutura à caixa-de-ressonância. Por fim, cola-se o fundo, a parte de trás do instrumento, e ata-se a caixa-de-ressonância com uma corda de sisal, ou fixa-se (pressiona-se) com recurso a molas de ferro ou grampos, quando seca apara-se com o formão os rebordos excedentes.

A escala e o cavalete
Finalizada a caixa acústica, ovaliza-se a parte detrás do braço com o formão e o raspador. Constrói-se a escala recorrendo ao molde e cola-se a escala no braço, é fixada com a corda de sisal e fica a secar. No dia seguinte, marca-se a escala, serra-se e coloca-se o arame para os pontos ou trastes com ajuda do alicate e no fim lima-se. Cola-se a pestana de osso ou acrílico na escala. O cavaquinho é raspado e lixado. O cavalete é construído e fixado a meio do bojo inferior do tampo.
O modelo minhoto é sempre o mais elaborado, o de Lisboa e o do braguinha/machete é muito simples, uma pequena régua com um corte horizontal. Há quem coloque à frente do cavalete um outro móvel, de uma ou duas peças. Após esta fase, o instrumento é envernizado, com uma pistola elétrica ou manualmente à boneca, e o cavaquinho fica a secar cerca de 24 horas. O tampo da frente não leva verniz, às vezes é utilizada uma cera simples que protege o tampo da humidade, mas que deixa o som solto.

As cordas e afinação
O cavaquinho minhoto é montado com quatro cordas simples de metal, afinadas regra geral do grave para o agudo. As cordas são adquiridas em bobines no comércio especializado. Há um grande número de afinações que varia conforme os locais, o repertório musical tradicional e as técnicas interpretativas e/ou compositivas dos tocadores.

Para afinar os instrumentos, os construtores recorrem muitas vezes ao afinador eletrónico. Para o cavaquinho minhoto, a afinação mais conhecida/popular parece ser Ré-Si-Sol-Sol ou Mi-Dó#-Lá-Lá (da 1ª para a 4ª corda), mas usa-se também Mi-Si-Lá-Ré (da 1ª para a 4ª corda) com o Ré mais agudo que o Lá, por ser mais versátil; Lá-Mi-Ré-Sol (da 1ª para a 4ª corda) para o malhão e o vira; Lá-Mi-Dó-Sol (da 1ª para a 4ª corda) na afinação tradicional de Barcelos. O cavaquinho urbano pode ser afinado em Mi-Si-Sol-Ré (da 1ª para a 4ª corda) ou como um bandolim, Mi-Lá-Ré-Sol (da 1ª para a 4ª corda). No braguinha/machete usa-se vulgarmente Ré-Si-Sol-Ré (da 1ª para a 4ª corda), mas no século XIX também se afinava em Mi-Si-Sol-Ré (da 1ª para a 4ª corda).

O cavaquinho minhoto geralmente toca-se de rasgado, segundo uma técnica muito específica: o varejamento. O varejamento é realizado com o polegar e o indicador em posição rígida, ou com os quatro dedos menores da mão direita em movimentos contínuos ascendentes e descendentes. O cavaquinho de Lisboa, o braguinha/machete toca-se de ponteado, com palheta ou com a unha do polegar direito.

Construir com forma
Alguns construtores optam por construir o cavaquinho utilizando uma forma. Neste caso, os primeiros elementos a construir são as ilhargas que se encaixam na forma, depois o fundo, segue-se o braço e termina-se com a colagem do tampo, ao contrário do que acontece com o processo por molde, em que o tampo é o primeiro elemento a ser produzido.

As oficinas
Nas oficinas os construtores optam por construir cavaquinhos de forma artesanal, diferentes daqueles que são produzidos em série nas fábricas. Os artesãos satisfazem as solicitações do cliente sobre determinados aspetos estéticos ou questões de sonoridades. Estas oficinas têm caraterísticas muito semelhantes, situam-se geralmente nos pisos inferiores das habitações ou são pequenos anexos das mesmas, em espaço rural ou semi-rural. Há alguns casos de lojas e ateliers nos centros das cidades.

Habitualmente, a bancada de trabalho destas oficinas está junto das janelas, ou é iluminada por uma lâmpada de grande potência. Alguns cordofones construídos, outros por restaurar estão pendurados no espaço oficinal, as ferramentas, os moldes e as formas dos instrumentos ocupam as paredes, as madeiras, as caixas de embutidos e o ferro para moldar as ilhargas apresentam-se em estantes e as colas e os vernizes estão dispostos ao longo de prateleiras. Em anexos contíguos ou dentro da oficina são ainda visíveis máquinas de diferentes dimensões para cortar e tratar a madeira, elétricas ou a pedal. Os construtores António Pinto Carvalho e Manuel Carvalho (irmãos) transitaram da produção artesanal para a produção semi/artesanal de cavaquinhos. Nas suas fábricas em Braga, a Artimúsica (de Manuel Carvalho) e a APC (de António Pinto Carvalho), constroem-se cavaquinhos em série para o mercado nacional e internacional (lojas de música, grandes superfícies comerciais e plataformas de compras on-line) numa média de 50 a 100 cavaquinhos por dia. Estas unidades fabris possuem máquinas digitais para cortar as madeiras na espessura exata, e para construir as diferentes partes que constituem o instrumento musical, os tampos, os braços e as escalas. Uma das fábricas possui máquinas de comando numérico computorizado, programadas e orientadas por jovens engenheiros formados pela Universidade do Minho. A segunda parte do processo de construção, a montagem, é feita segundo as técnicas da construção artesanal, só que as diferentes fases da cadeia de operações são distribuídas pelos diferentes colaboradores, enquanto que nas oficinas artesanais o artesão é o responsável por todas as fases do processo de construção.

Alguns construtores acreditam que o fabrico em série de cavaquinhos para venda em espaços comerciais com preços mais acessíveis ao consumidor (e apresentados pela APC em feiras de instrumentos musicais internacionais, como Frankfurt, Xangai, Los Angeles, Málaga) contribui para uma maior divulgação e prática do cavaquinho. O fabrico artesanal responde a uma procura mais especializada e personalizada, está direcionado para clientes que possuem um conhecimento superior deste pequeno cordofone. Assim, consideram que todos os construtores, quer sejam artesanais ou semi-artesanais, contribuem para a salvaguarda e valorização à escala nacional e internacional do pequeno cordofone português, o cavaquinho.

Saiba mais AQUI. 

Fonte de informação
Direção-Geral do Património Cultural
Data de atualização
26/10/2022
Agenda
Ver mais eventos

Passatempos

Passatempo

Ganhe convites para a antestreia do filme "ÉPOCA DE CAÇA"

Em parceria com a Films4You, oferecemos convites duplos para a antestreia da hilariante comédia francesa, "ÉPOCA DE CAÇA", sobre um casal que se muda para o campo e descobre que os vizinhos usam o jardim como campo de caça, desencadeando uma guerra entre vizinhos!

Passatempo

Ganhe convites para a peça "23 SEGUNDOS"

Em parceria com o CENDREV - Centro Dramático de Évora, oferecemos convites duplos para a peça "23 Segundos", pela Comuna Teatro de Pesquisa. Tratando-se embora de ficção, a ação inspira-se numa situação verídica ocorrida na Cadeia do Forte de Peniche, na primeira metade dos anos 50, durante a ditadura do Estado Novo. Findo o passatempo, anunciamos aqui os nomes dos vencedores!

Visitas
93,062,706