Exposições2
Galeria Francisco Fino apresenta "La Morte del Desiderio", de Vasco Araújo
Esta exposição apresenta um conjunto de novas obras em diferentes formatos pensadas especificamente para ocupar o espaço da Galeria.
10 Mar a 28 Abr 2018
Vasco Araújo redige um texto em formato epistolar que oferece uma reflexão sobre este conjunto de obras e permite acompanhar os diferentes núcleos e as questões que nestes se encontram refletidas.
Meu Carx
São cerca de duas horas da madrugada e acabo, apesar de ter dúvidas, de terminar a última peça para a minha primeira exposição na Galeria Francisco Fino, que dá pelo titulo “La Morte del Desiderio”. Esta carta é um press-release sobre a exposição, mas é também sobre a nossa vivência... nossa a dos seres humanos. Então começo assim: “Ele sabe que este espelho reflete o rosto que o engana… é novo ainda, mal sabe reconhecer os seus próprios erros…”1
Ao escrever estas palavras, duvido da sua realidade. Duvido da realidade do ser que elas designam. Eu mesmo, nós, nós todxs - será que existimos? Serei, seremos outra coisa a não ser a projeção de um desejo ou, melhor dizendo, a morte do desejo?
A explicação mais razoável que posso encontrar para os meus pensamentos é que há em nós uma ideia de desejo que assenta numa ideia de futuro, numa ideia certa e idealizada de futuro. “Esta imagem realista foi executada de acordo com a máscara de cera obtida por aplicação no rosto do falecido.”2
Quando perseguimos o desejo, procuramos satisfazer ou cumprir uma certa ideia num futuro (mais próximo ou longínquo). Essa ideia é acorrentada, é fixa e estabelecida a priori. Isto implica uma certa conceção de futuro: o futuro como concretização de um pensamento do presente, “Tempo morto…”3 onde se sucedem as surpresas do destino, os equívocos da grandeza, as intenções falaciosas, os palpites mal-entendidos, a tendência a deixarmos que a vida nos passe ao lado.
É uma ideia de futuro que não está disponível para o imprevisto. Uma ideia que mostra com quase impercetível ironia que os seres humanos estão mergulhados num mundo que os ultrapassa, que os derrota, e como a sua verdadeira grandeza consiste em estar à altura dessa mesma derrota. Esta ideia de desejo assenta, pois, numa certa ideia de correspondência entre pensamento e concretização do pensamento, correspondência essa condenada ao falhanço (nunca o que se pensa corresponde ao que acontece).
“nada… incessantemente nada… nem mesmo a infelicidade. Tudo passa a memória, medo da memória?... tudo isto são apenas ruínas da nossa passagem.”4 (“Entre o tempo e o desengano”)5
Uma outra característica identitária humana para esta ideia de desejo/fracasso, prende-se com a necessidade de construir um inimigo enquanto espelho de si mesmo, “Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.”6
Este inimigo é o nosso espelho, no sentido em que nos revela, em que nos mostra verdadeiramente o nosso carácter, comportamento e atitude perante aquilo que nos é contrário ou diferente, mas também nos serve para definir e redescobrir a cada segundo a nossa própria identidade. “Não sejas assim.olha que não há tortura física, não há verdade!
No entanto, nós estamos no inferno. E mais ninguém deverá vir aqui. Ninguém. Ficaremos até ao fim, nós os dois apenas, juntos(...). Falta o carrasco (...). Fizeram uma redução de pessoal. Eis tudo (...). O carrasco agora está em cada um de nós, um no outro.”7
Continuo com dúvidas e alguns caprichos sobre a nossa existência. “Cappriccio” do italiano, é uma decisão ou uma exigência que é arbitrária e cuja origem se encontra numa vontade. É também uma tentativa de encontrar outra ideia de desejo que esteja disponível para o imprevisto. Nesse sentido, “não desejar” corresponde a uma libertação do sujeito, bem como a uma vontade (desejo) de viver o futuro que vier. Esta posição não implica uma desresponsabilização do sujeito que deseja, mas sim uma consciência de que os desejos são construções múltiplas, mutáveis e sempre imperfeitas...
Enfim, estou cansado, vou parar por uns momentos... vou, vou ligar a um amigo meu para o convidar a escrever um guião para um filme que não será filmado, com personagens escondidas e vontades insatisfeitas. Antes disso, talvez lhe envie uma imagem de uma pintura que servirá de exemplo para o principal setting do filme.
Deixo-vos com algumas frases que anotei no meio destes pensamentos e que, em parte, me servem de amparo e recordação de dias passados, deslumbramentos ou de tudo aquilo que se esvai mas que deixa um traço inapagável:
"As lágrimas são, quase sempre, o último sorriso do amor"
"A felicidade e o desejo não podem juntar-se"
"A posse é a sepultura do desejo"
"Amor a quanto obrigas
"Nunca ter desilusões no amor, é um privilégio dos imbecis"
"Amor com amor se paga"
"Muitos bons desejos se enterram"
"Quando o desejo é prevenido, o gozo é nulo"
"Todo o desejo nasce de uma necessidade, uma privação, um sofrimento"
até sempre...
Vasco Araújo
Vasco Araújo, nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde vive e trabalha. Em 1999 concluiu a licenciatura em Escultura pela FBAUL., entre 1999 e 2000 frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da Maumaus em Lisboa. Desde então tem participado em diversas exposições individuais e coletivas tanto nacional como internacionalmente, integrando ainda programas de residências, como Récollets (2005), Paris; Core Program (2003/04), Houston. Em 2003 recebeu o Prémio EDP Novos Artistas.
Das exposições individuais destacam-se : “Decolonial desires”, Autograph ABP, Londre, U.K. (2016); “Potestad”, MALBA – Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.(2015); “Under the Influence of Psyche”, The Power Plant, Toronto (2014); “Debret”, Pinacoteca do Estado de S. Paulo, S. Paulo (2013); “Avec les voix de l’autre”, Musée d’art de Joliette, Joliette (2011); “Mais que a vida”, Fundação C. Gulbenkian/ CAM, Lisboa e MARCO, Vigo (2010) ; “Eco” Jeu de Paume, Paris (2008); “Vasco Araújo: Per-Versions”, the Boston Center for the Arts, Boston (2008); “About being Different” (2007), BALTIC Centre for Contemporary Art, U.K.; “Pathos” (2006), Domus Artium 2002, Salamanca; “Dilemma” (2005), S.M.A.K., Gent; “L’inceste” (2005), Museu do Azulejo Lisboa; “The Girl of the Golden West” (2005), The Suburban, Chicago; “Dilema” (2004), Museu de Serralves, Porto; “Sabine/Brunilde” (2003), SNBA, Lisboa.
Nas exposições coletivas destaque para a participação na “All that Falls”, Palais de Tokyo, Paris (2014); “Investigations of a Dog”, Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, Turim (2009); “Everything has a name, or the potential to be named”, Gasworks, Londres (2009); “Em Vivo Contacto”, 28º Bienal de S. Paulo, São Paulo (2008); “Artes Mundi, Wales Internacional Visual Art Exhibition and Prize”, National Museum Cardiff, Cardiff (2008); “Kara Walker and Vasco Araújo: Reconstruction”, Museum of Fine Arts, Houston, (2007); “Drei Farben – Blau”, XIII Rohkunstbau, Grobleuthen (2006); “Experience of Art”; La Biennale di Venezia. 51th International Exhibition of Art, Veneza; “Dialectics of Hope”, 1st Moscow Biennale of Contemporary Art, Moscovo, (ambas em 2005); Solo (For Two Voices), CCS, Bard College (2002), Nova Iorque; “The World Maybe Fantastic” Biennale of Sydney (2002), Sydney; “Trans Sexual Express, a classic for the Third Millennium” (2001), Centre d’Art Santa Mònica, Barcelona.
O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias coleções, públicas e privadas, como Centre Pompidou, Musée d’Art Modern (França); Museu Coleção Berardo, Arte Moderna e Contemporânea, (Portugal); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Fundación Centro Ordóñez- Falcón de Fotografía – COFF (Espanha); Museo Nacional Reina Sofia, Centro de Arte (Espanha); Fundação de Serralves (Portugal); Museum of Fine Arts Houston (EUA), Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Brasil).
1 Excerto de um poema do Konstantinos Kaváfis.
2 Legenda de escultura de uma cabeça Romana, Museu do Louvre, Paris.
3 Titulo de instalação de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”,
4 Excerto do texto pertencente à instalação “Notebook - La morte del Desiderio” de Vasco Araújo.
5 Titulo de instalação de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”.
6 Excerto do texto pertencente à instalação “O Inimigo” de Vasco Araújo, incluída na exposição “La morte del Desiderio”.
7 Excerto do texto pertencente à instalação “O Inimigo” de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”.

