"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Exposições2

Galeria Francisco Fino apresenta "La Morte del Desiderio", de Vasco Araújo

Esta exposição apresenta um conjunto de novas obras em diferentes formatos pensadas especificamente para ocupar o espaço da Galeria.

10 Mar a 28 Abr 2018

Galeria Francisco Fino
Rua Capitão Leitão, 76 1950-052 Lisboa (Marvila)


Vasco Araújo redige um texto em formato epistolar que oferece uma reflexão sobre este conjunto de obras e permite acompanhar os diferentes núcleos e as questões que nestes se encontram refletidas.

Meu Carx 

São cerca de duas horas da madrugada e acabo, apesar de ter dúvidas, de terminar a última peça para a minha primeira exposição na Galeria Francisco Fino, que dá pelo titulo “La Morte del Desiderio”. Esta carta é um press-release sobre a exposição, mas é também sobre a nossa vivência... nossa a dos seres humanos. Então começo assim:  “Ele sabe que este espelho reflete o rosto que o engana… é novo ainda, mal sabe reconhecer os seus próprios erros…”1 

Ao escrever estas palavras, duvido da sua realidade. Duvido da realidade do ser que elas designam. Eu mesmo, nós, nós todxs - será que existimos? Serei, seremos outra coisa a não ser a projeção de um desejo ou, melhor dizendo, a morte do desejo? 

A explicação mais razoável que posso encontrar para os meus pensamentos é que há em nós uma ideia de desejo que assenta numa ideia de futuro, numa ideia certa e idealizada de futuro. “Esta imagem realista foi executada de acordo com a máscara de cera obtida por aplicação no rosto do falecido.”2  

Quando perseguimos o desejo, procuramos satisfazer ou cumprir uma certa ideia num futuro (mais próximo ou longínquo). Essa ideia é acorrentada, é fixa e estabelecida a priori. Isto implica uma certa conceção de futuro: o futuro como concretização de um pensamento do presente, “Tempo morto…”3 onde se sucedem as surpresas do destino, os equívocos da grandeza, as intenções falaciosas, os palpites mal-entendidos, a tendência a deixarmos que a vida nos passe ao lado. 

É uma ideia de futuro que não está disponível para o imprevisto. Uma ideia que mostra com quase impercetível ironia que os seres humanos estão mergulhados num mundo que os ultrapassa, que os derrota, e como a sua verdadeira grandeza consiste em estar à altura dessa mesma derrota. Esta ideia de desejo assenta, pois, numa certa ideia de correspondência entre pensamento e concretização do pensamento, correspondência essa condenada ao falhanço (nunca o que se pensa corresponde ao que acontece).  

“nada… incessantemente nada… nem mesmo a infelicidade. Tudo passa a memória, medo da memória?... tudo isto são apenas ruínas da nossa passagem.”4 (“Entre o tempo e o desengano”)5 

Uma outra característica identitária humana para esta ideia de desejo/fracasso, prende-se com a necessidade de construir um inimigo enquanto espelho de si mesmo, “Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.”6 

Este inimigo é o nosso espelho, no sentido em que nos revela, em que nos mostra verdadeiramente o nosso carácter, comportamento e atitude perante aquilo que nos é contrário ou diferente, mas também nos serve para definir e redescobrir a cada segundo a nossa própria identidade. “Não sejas assim.olha que não há tortura física, não há verdade!  

No entanto, nós estamos no inferno. E mais ninguém deverá vir aqui. Ninguém. Ficaremos até ao fim, nós os dois apenas, juntos(...). Falta o carrasco (...). Fizeram uma redução de pessoal. Eis tudo (...). O carrasco agora está em cada um de nós, um no outro.”7

Continuo com dúvidas e alguns caprichos sobre a nossa existência. “Cappriccio” do italiano, é uma decisão ou uma exigência que é arbitrária e cuja origem se encontra numa vontade. É também uma tentativa de encontrar outra ideia de desejo que esteja disponível para o imprevisto. Nesse sentido, “não desejar” corresponde a uma libertação do sujeito, bem como a uma vontade (desejo) de viver o futuro que vier. Esta posição não implica uma desresponsabilização do sujeito que deseja, mas sim uma consciência de que os desejos são construções múltiplas, mutáveis e sempre imperfeitas... 

Enfim, estou cansado, vou parar por uns momentos... vou, vou ligar a um amigo meu para o convidar a escrever um guião para um filme que não será filmado, com personagens escondidas e vontades insatisfeitas. Antes disso, talvez lhe envie uma imagem de uma pintura que servirá de exemplo para o principal setting do filme. 

Deixo-vos com algumas frases que anotei no meio destes pensamentos e que, em parte, me servem de amparo e recordação de dias passados, deslumbramentos ou de tudo aquilo que se esvai mas que deixa um traço inapagável:  

"As lágrimas são, quase sempre, o último sorriso do amor"
"A felicidade e o desejo não podem juntar-se"
"A posse é a sepultura do desejo"
"Amor a quanto obrigas
"Nunca ter desilusões no amor, é um privilégio dos imbecis"
"Amor com amor se paga"
"Muitos bons desejos se enterram"
"Quando o desejo é prevenido, o gozo é nulo"
"Todo o desejo nasce de uma necessidade, uma privação, um sofrimento"
até sempre...
Vasco Araújo

Vasco Araújo, nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde vive e trabalha. Em 1999 concluiu a licenciatura em Escultura pela FBAUL., entre 1999 e 2000 frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da Maumaus em Lisboa. Desde então tem participado em diversas exposições individuais e coletivas tanto nacional como internacionalmente, integrando ainda programas de residências, como Récollets (2005), Paris; Core Program (2003/04), Houston. Em 2003 recebeu o Prémio EDP Novos Artistas. 

Das exposições individuais destacam-se : “Decolonial desires”, Autograph ABP, Londre, U.K. (2016); “Potestad”, MALBA – Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.(2015); “Under the Influence of Psyche”, The Power Plant, Toronto (2014); “Debret”,  Pinacoteca do Estado de S. Paulo, S. Paulo (2013); “Avec les voix de l’autre”, Musée d’art de Joliette, Joliette (2011); “Mais que a vida”, Fundação C. Gulbenkian/ CAM, Lisboa e MARCO, Vigo (2010) ; “Eco” Jeu de Paume, Paris (2008); “Vasco Araújo: Per-Versions”, the Boston Center for the Arts, Boston (2008); “About being Different” (2007), BALTIC Centre for Contemporary Art, U.K.; “Pathos” (2006), Domus Artium 2002, Salamanca; “Dilemma” (2005), S.M.A.K., Gent; “L’inceste” (2005), Museu do Azulejo Lisboa; “The Girl of the Golden West” (2005), The Suburban, Chicago; “Dilema” (2004), Museu de Serralves, Porto; “Sabine/Brunilde” (2003), SNBA, Lisboa. 

Nas exposições coletivas destaque para a participação na “All that Falls”, Palais de Tokyo, Paris (2014); “Investigations of a Dog”, Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, Turim (2009); “Everything has a name, or the potential to be named”, Gasworks, Londres (2009); “Em Vivo Contacto”, 28º Bienal de S. Paulo, São Paulo (2008); “Artes Mundi, Wales Internacional Visual Art Exhibition and Prize”, National Museum Cardiff, Cardiff (2008); “Kara Walker and Vasco Araújo: Reconstruction”, Museum of Fine Arts, Houston, (2007); “Drei Farben – Blau”, XIII Rohkunstbau, Grobleuthen (2006); “Experience of Art”; La Biennale di Venezia. 51th International Exhibition of Art, Veneza; “Dialectics of Hope”, 1st Moscow Biennale of Contemporary Art, Moscovo, (ambas em 2005); Solo (For Two  Voices), CCS, Bard College (2002), Nova Iorque; “The World Maybe Fantastic” Biennale of Sydney (2002), Sydney; “Trans Sexual Express, a classic for the Third Millennium” (2001), Centre d’Art Santa Mònica, Barcelona.

O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias coleções, públicas e privadas, como Centre Pompidou, Musée d’Art Modern (França); Museu Coleção Berardo, Arte Moderna e Contemporânea, (Portugal); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Fundación Centro Ordóñez- Falcón de Fotografía – COFF (Espanha); Museo Nacional Reina Sofia, Centro de Arte (Espanha); Fundação de Serralves (Portugal); Museum of Fine Arts Houston (EUA), Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Brasil). 

1 Excerto de um poema do Konstantinos Kaváfis.
2 Legenda de escultura de uma cabeça Romana, Museu do Louvre, Paris.
3 Titulo de instalação de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”,
4 Excerto do texto pertencente à instalação “Notebook - La morte del Desiderio” de Vasco Araújo.
5 Titulo de instalação de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”.
6 Excerto do texto pertencente à instalação “O Inimigo” de Vasco Araújo, incluída na exposição “La morte del Desiderio”.
7 Excerto do texto pertencente à instalação “O Inimigo” de Vasco Araújo incluída na exposição “La morte del Desiderio”.

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