"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Roteiros

AZULEJARIA DE LISBOA (Roteiro 1)

Este passeio inicia-se no Rossio, passando pelo Martim Moniz, Mouraria e Graça, até ao Campo de Santa Clara. Deve estar preparado para enfrentar uma longa caminhada a subir e a descer colinas.

Azulejos com as fábulas de La Fontaine, na Igreja de São Vicente de Fora

O Rossio, tradicional centro da cidade histórica, regista todos os momentos da história do país. Nele se fizeram, ao longo dos séculos, autos de fé da Inquisição, mercados, touradas e hoje tornou-se ponto de encontro da comunidade africana.

Comecemos por entrar pelo Largo de S. Domingos, no ângulo norte, no Palácio da Independência que foi da família Almada e onde, segundo rezam as crónicas, se urdiu a conjura que levou à restauração da independência nacional, em 1640. O palácio, hoje ocupado pela Sociedade Histórica da Independência Nacional pode ser visitado pedindo autorização aos responsáveis.

Depois de se atravessar um grande pátio de entrada passamos um pequeno túnel, na sua face norte. Aí temos o primeiro contacto com a azulejaria, no próprio túnel onde se veem azulejos ali colocados, provenientes de parte incerta; depois, num segundo pátio de dimensões mais reduzidas existem azulejos representando cenas de caça, atribuídos a Gabriel del Barco, que servem de espaldar a um banco, denunciando a sua reutilização. Um jardim que fica na parte mais recôndita do palácio esconde uma série de painéis de azulejos alusivos aos conjurados que naquele exato lugar, segundo a tradição, se juntaram. Num recanto criado em torno de uma fonte manuelina cuja bica é um querubim barroco, três das faces da fonte são ocupadas por outras tantas composições inseridas em grandes cartelas rococó datáveis de 1774, provavelmente pintadas por Francisco de Paula e Oliveira na Fábrica do Rato. Este recanto é ladeado por uma casa de fresco a que se segue uma fonte de embrechados de conchas, vidros, porcelana e azulejos.

Saindo do Palácio, atravessemos a Rua Barros Queirós sem deixar de reparar nas fachadas dos prédios revestidas com azulejos de verde intenso semelhantes a outros que encontraremos mais à frente.

Atravessemos na diagonal a Praça do Martim Moniz, na direção da secular Capelinha de Nossa Senhora da Saúde fundada no final do século XVI em homenagem à Virgem por ter posto fim à grande peste de 1569. Apesar da importância desta capela como lugar de romaria o tempo urge e portanto não entramos, pois a Rua da Mouraria, que lhe fica contígua, guarda uma das mais fascinantes coleções de azulejos da capital: o antigo Colégio dos Meninos Órfãos. A entrada faz-se por uma porta à esquerda de uma porta manuelina, por onde se entra para o posto da polícia. Como o edifício é hoje ocupado por serviços públicos e habitação, a porta está sempre aberta e a sua visita terá um caráter “semiclandestino” que lhe dará mais encanto. Para entrar no edifício teremos de passar um pequeno pátio, e depois de atravessar um majestoso portal joanino, estaremos perante um verdadeiro prodígio da azulejaria nacional: um conjunto de painéis que se estendem ao longo da escadaria do prédio de quatro andares narrando toda a história dos antepassados da Virgem - da Casa de David - até ao prenúncio da paixão de Cristo, quando o Menino Jesus desaparece de casa de sua Mãe que o encontrará no templo entre os doutores. O programa azulejar simboliza a antiga função do edifício do Colégio dos Meninos Órfãos, recolhimento de meninos abandonados.

Voltemos à rua e subamos rapidamente a Rua dos Cavaleiros, não sem deixar de reparar no efeito decorativo das fachadas de alguns prédios da rua com azulejos de fabrico já industrial que criam rimas de cor ao conjugarem verdes e azuis. É esta diversidade de tipos, épocas e cores que acompanhará sempre o nosso passeio.

Ao chegar ao Largo do Terreirinho, devemos virar à esquerda e localizar a Travessa dos Lagares. É uma das vielas típicas da Mouraria, que termina numa rua com o mesmo nome. Ao chegar a este ponto, não se perca, deve virar primeiro à direita e, metros depois, encontrará, à esquerda, uma escadaria com o sugestivo nome de Caracol da Graça. A subida poderá ser penosa, mas será compensada pelas vistas inusitadas de Lisboa que se descobrem entre as voltas e revoltas a que obriga este verdadeiro escadório. Quando finalmente se chegar ao alto deste «calvário», obtém-se o prémio final que é o panorama do miradouro da Graça, onde encontrará uma esplanada para se retemperar.

Para trás ficaram, ainda na Mouraria, casos tão importantes como o conjunto do Palácio da Rosa, propriedade da CML (com a sua sala do trono e os seus paineis com figuras de cortesia), e o Palácio dos Távoras, este com a sua curiosa cozinha toda revestida de azulejos, onde funciona o Grupo Desportivo da Mouraria (infelizmente esta associação só funciona à noite).

Agora entremos na Igreja da Graça para visitar o vestíbulo da sacristia velha (através de marcação prévia) que é fundamental conhecer para se entender boa parte da história da arte portuguesa. Em verdade, o que aqui vamos encontrar é uma série de padrões de azulejos deslocados e muitas vezes mal colocados. Logo à entrada, um conjunto de azulejos com decoração de desenvolvido grotesco, pintados no terceiro quartel do século XVI, de gosto profano inspirado em modelos flamengos, constitui parte de um programa muito mais vasto que ornaria a capela-mor, que era propriedade da família Albuquerque e para a qual Brás Afonso de Albuquerque (o proprietário da Casa dos Bicos e da Quinta da Bacalhoa) fez transferir em 1566 as ossadas do grande “Marte” da Índia (Afonso de Albuquerque). Depois vemos dois altares com frontais do século XVII, um com decoração de animais exóticos e franjas têxteis e o outro com decoração imitando brocado em tons laranja. Por cima estão representadas quatro figuras das virtudes (a Fé, a Esperança, a Misericórdia e a Justiça). Todo o monumental pórtico barroco da sacristia é envolvido em decoração azulejar de festões e apresenta dois nichos com a Magnificência e a Liberalidade.

O tempo urge. Deve sair-se do Mosteiro e, logo no Largo da Graça, deparamo-nos com panos de fachadas cobertos de azulejos que fazem contrastar um azul marinho com outro castanho. E, primeiro, é a antiga Vila Sousa. As «vilas operárias» - construídas por patrões adeptos do socialismo proudhoniano -, são um dos emblemas do bairro e se tiver paciência, e as pernas ainda não fraquejarem, vale a pena um pequeno desvio, desça a Travessa da Pereira e, logo na primeira esquina à esquerda, encontrará a mais bela vila de Lisboa, a Vila Berta, que também tem faixas de azulejos de ornamentos enrolados. A mais curiosa destas «vilas urbanas» da Graça é sem dúvida a Vila Estrela de Ouro que tem entrada pelo fim da Rua da Graça, quase a chegar a Sapadores.

Mas voltemos ao nosso percurso. Do Largo da Graça devemos descer pela Travessa de São Vicente que fica entre os dois prédios cobertos de azulejos. Passamos o Teatro da Graça num cotovelo que a rua faz e descemos a Rua da Voz do Operário: o edifício da instituição que deu o nome à rua fica logo à direita. E um pouco mais abaixo, à esquerda, surge o Palácio de São Vicente que guarda no seu interior uma riquíssima coleção de azulejos mas, infelizmente, só podemos observar os que extravasam para o exterior.

Depois a nossa atenção prende-se de imediato com a vista da mais bela igreja da capital: São Vicente de Fora. Arquitetada por nomes tão importantes como Baltazar Alvares, Filipe Terzio e Herrera, é a grande obra do período filipino em Portugal (séc. XVII). O seu interior guarda um verdadeiro museu de azulejos do século XVIII português. Grandes painéis historiados com cenas galantes e paisagens de caça, atribuídos a Valentim de Almeida, cobrem as paredes dos claustros. Mas não se fica por aqui. Uma série de azulejos com as fábulas de La Fontaine recentemente destacadas e colocadas em painéis expositivos encontram-se no claustro de cima do Mosteiro. E é com esta verdadeira festa que é um regalo para quem gosta desta arte que termina esta sugestão de percurso.

No entanto, se ainda tiver energia, vale a pena dirigir-se ao Campo de Santa Clara, passando por baixo do arco, e deleitar-se com o edifício nos números 124, 125 e 126, bem como, um pouco mais abaixo, com o interior da Messe de Oficiais (entre e peça para observar o magnífico revestimento azulejar da Messe).

Agenda
Ver mais eventos

Passatempos

Passatempo

Ganhe convites para concerto da banda NEON

Em parceria com a Music For All, oferecemos convites duplos para o concerto da banda NEON a ter lugar no Centro Cultural de Carnide no próximo dia 6 de março, às 21h00. Participa e... boa sorte!

Visitas
47,920,351
>