"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"OS MAIAS"

de EÇA DE QUEIRÓS

Análise de Miguel Real
Tradução: Alexandra Leitão


O romance Os Maias, publicado em dois volumes em 1888, sintetiza o período estilisticamente mais crítico da vida literária de Eça de Queirós (1845 – 1900). Com efeito, a década de 80 constitui, para o autor, como para os seus amigos Antero de Quental e Oliveira Martins, a tomada de consciência crítica dos entusiasmos de participação social e do empenhamento militante da literatura da década anterior. Os anos 80 evidenciam um Eça indeciso entre obedecer à «fantasia» (a «forma nova»), que iniciara com O Mandarim (1880) e prosseguirá satiricamente em A Relíquia (1887), ou sobrevalorizar a análise realista dos quadros sociais e históricos, como o fará em Os Maias. Um Eça indeciso em aprofundar a “fantasia” ou em continuar o seu antigo estilo realista, abandonando o naturalismo, como o faz na terceira edição (1880) de O Crime do Padre Amaro. Tateando os dois caminhos, Eça não parece optar decididamente por um deles até 1888, data da publicação d’Os Maias, onde regista uma belíssima síntese estilística do seu novo realismo, menos militante, menos revolucionário, e mais humanista.

Neste sentido, Os Maias constituem um texto-charneira na evolução estilística e ideológica de Eça, operando a consolidação da passagem entre o período revolucionário naturalista da década de 70 e o da década de 90, de inspiração humanista. A expressão «humanismo» significa aqui o ponto de vista de um autor que planeia colocar-se epistemologicamente acima dos grupos sociais em contenda, dos interesses conjunturais da sociedade, visando abarcar a Sociedade e a História como um todo, uma espécie de olhar majestático por que conclui que o que acontece atualmente já de modo semelhante acontecera em outras épocas (tempo) e em outras sociedades (espaço). Assim, o humanismo conduz, normalmente, a um certo relativismo comparativista entre épocas e sociedades diferentes e este relativismo conduz, por sua vez, a um certo ceticismo, que serão justamente o relativismo e o ceticismo presentes n’Os Maias.

Assim, neste romance, Eça recobre tanto o processo realista de construção literária quanto o processo humanista de observação social. Trata-se de, retratando os grupos sociais afrancesados pós-Regeneração e a sociedade lisboeta fontista, denunciar igualmente os aleijões sociais da mentalidade portuguesa finissecular oitocentista, evidenciando geneticamente os efeitos de uma educação europeia (Carlos da Maia) comparativamente com os efeitos de uma educação monárquica tradicional (Afonso da Maia) e de uma educação burguesa portuguesa. Se Eça, quando começou a escrever Os Maias, ainda era realista, quando o findou já assumia a pele de um humanista que contemplava a sociedade portuguesa do século XIX (as três gerações da família Maia) do ponto de vista da totalidade da sua experiência como jovem romântico (década de 1860), como participante numa intervenção social no sentido da transformação da mentalidade cultural de Portugal (Geração de 70), como feroz crítico de costumes (As Farpas, escritas com Ramalho Ortigão), e, agora, como observador crítico e reprovador da evolução da sua própria geração enquanto motor de uma revolução cultural nos costumes e na mentalidade dos portugueses («Falhámos a vida, menino!», diz Carlos da Maia para Ega). Assim, Os Maias constitui-se como um romance profundamente cético, tão cético quanto o pode ser um romance humanista, isto é, um romance que não disfarça nem cala os defeitos e as virtudes do homem, neste caso, do homem urbano português do século XIX, defeitos para os quais ao romancista já lhe falta a vontade de regeneração, e virtudes que sempre sabem a compensações.

Escrevendo Os Maias, Eça problematiza setenta anos de liberalismo constitucional, evidenciando, a partir de um olhar francês, tanto o progresso civilizacional existente em Portugal quanto a vacuidade das elites políticas e intelectuais. Neste sentido, sob a história de amor incestuosa entre Carlos e Maria Eduarda, a maioria dos capítulos d`Os Maias e a maioria das personagens encerram uma lição sobre os momentos da história contemporânea de Portugal, mas em nenhum capítulo, como em nenhuma personagem, Eça propõe uma lição dogmática, definitiva ou exclusiva sobre o futuro de Portugal – é esta a lição do novo humanismo crítico de Eça, a certeza de que Portugal, monárquico ou republicano, pobre ou rico, moderno ou arcaico, dura (como escreve em 1890).

Deste modo, Os Maias refletem as dúvidas sobre a bondade estética dos seus processos estilísticos anteriores (principalmente sobre a eficácia representativa do naturalismo como melhor forma de enquadramento unitário de um romance), compensando-as por um afoito trabalho narrativo em torno do conjunto das Cenas Portuguesas, que Eça anuncia a Chardron em Outubro de 1877, e confirma, enquanto labor narrativo geral, a Ramalho Ortigão em carta de 18 de Abril de 1878: «Eu trabalho nas Cenas Portuguesas, mas sob a influência do desalento». Mesmo armado de um espírito dubitativo quanto à correção literária dos seus romances, Eça, num processo que tem tanto de realizante quanto de frustrante, nunca deixa de escrever. Dos livros anunciados, apenas Os Maias serão publicados, já fora do espírito das Cenas e depois de uma longa história de peripécias editoriais. Porém, deve realçar-se que sem essa vasta prática de escrita inconclusiva (apenas com efeitos póstumos), talvez não tivesse sido possível Eça ter atingido a mestria literária e estilística d`Os Maias.



"OS MAIAS" 
by EÇA DE QUEIRÓS

The novel Os Maias, published in two volumes in 1888, synthesises the most critical period, stylistically speaking, of the literary life of Eça de Queirós (1845-1900). The 1880s for the author and his friends Antero de Quental and Oliveira Martins were when they acquired critical awareness of the enthusiasms of the social participation and militant engagement of the previous decade’s literature. The 80s show an Eça who was undecided between complying with the “fantasy” (the new form) that he began in O Mandarim (1880) and continued satirically in A Relíquia (1887), or to enhance the realistic analysis of social and historic frameworks as he did in Os Maias. Attempting both, Eça did not appear to have opted clearly for either one until 1888 when Os Maias was published, in which he records a wonderful stylistic synthesis of his new realism, less militant, less revolutionary and more humanist.

In this sense, Os Maias is a pioneering text of Eça’s stylistic and ideological evolution, operating the consolidation of the passage between the naturalist revolutionary period of the 70s and the humanist-inspired period of the 90s. The term “humanism” here means the point of view of an author who intends to place himself epistemologically above the social groups at stake and society’s contemporary problems, to cover society and history as a whole. It is a sort of majestic look, leading him to conclude that what is happening now had in similar fashion occurred in other eras (time) and in other societies (space). So, under normal conditions, humanism leads to a certain comparative relativism between different eras and societies and in turn this relativism leads to a certain scepticism, which are precisely the relativism and scepticism present in Os Maias.

In this novel, therefore, Eça recovers both the realist process of literary construction and the humanist process of social observation. By portraying the post-Regeneration Frenchified social groups with “Fontist” Lisbon society, he also denounces the social ills of the late 19th century Portuguese mentality, genetically highlighting the effects of a European education (Carlos da Maia) compared with the effects of a traditional monarchic education (Afonso da Maia) and of Portuguese middle class education. Whilst Eça was still a realist when he began writing Os Maias, by the end he had taken on the role of a humanist who contemplated 19th century Portuguese society (the 3 generations of the Maia family) from the point of view of his entire experience as a young romantic (the 1860s), as a participant in a social intervention to change Portugal’s cultural mentality (the 70s generation), as a strong critic of customs (As Farpas, written with Ramalho Ortigão) and now, as a critical and censorious observer of the evolution of his own generation as a driving force of a cultural revolution in Portuguese customs and mentality (“We have failed life, my boy!”, says Carlos da Maia to Ega). Thus, Os Maias is a deeply sceptical novel, as sceptical as a humanist novel can be, that is a novel that does not disguise or conceal the faults and virtues of man, in this case Portuguese 19th century urban man, faults that the novelist no longer has the urge to regenerate, and virtues that always hint of compensation.

In writing Os Maias, Eça problematises seventy years of constitutional liberalism and highlights from a French viewpoint both the civilisational progress existing in Portugal and the vacuity of the political and intellectual elites. In this regard, under the story of the incestuous love between Carlos and Maria Eduarda, most of the chapters of Os Maias and most of the characters teach a lesson about events of contemporary Portuguese history, but in no chapter or character does Eça propose a dogmatic, definitive or exclusive lesson about the future of Portugal – this is Eça’s lesson of new critical humanism, the certainty that republic or royalist, rich or poor, modern or archaic, Portugal will endure (as he wrote in 1890).

So, Os Maias reflects the doubts concerning the aesthetic merit of his previous stylistic processes (mainly as to the representative efficacy of naturalism as the best way to provide the framework for a novel), compensating them by an arduous narrative task around the Cenas Portuguesas which Eça announces to Chardron in October 1877 and confirms, as a general narrative task, to Ramalho Ortigão in a letter dated 18 April 1878: “I am working on Cenas Portuguesas, but under the influence of discouragement”. Even armed with a doubting spirit concerning the literary correctness of his novels, in a process that is as accomplishful as it is frustrating Eça never stops writing. Of the books announced only Os Maias was published, no longer within the spirit of Cenas Portuguesas and after a long saga of editorial contretemps. However, we should highlight that without that vast practice in inconclusive writing (only printed posthumously) perhaps Eça would not have reached the literary and stylist mastery of Os Maias.



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