"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"O DESTERRADO"

de ANTÓNIO SOARES DOS REIS (1872)
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto

Análise de Rui-Mário Gonçalves
Tradução de Paul Bernard


Num rochedo alisado pelas ondas do mar, está tristemente sentado um jovem nu, com as costas arqueadas, a cabeça pendente, numa atitude de recolhimento. Medita na sua impossibilidade de voltar à pátria e aos tempos felizes de outrora, vítima do destino, contra o qual não pode lutar, apesar do seu corpo ser saudável e robusto. O seu mal é puramente espiritual. A sua melancolia advém da solidão e do pressentimento de que o desenraizamento, uma vez sofrido, não tem cura, nem sequer se houver regresso.
O escultor esmerou-se na representação da anatomia, observada em termos neoclássicos perfeitamente conjugados com pormenores naturalistas, alcançando um notável equilíbrio entre a expressividade essencialista e a da imediata vida sensível. Este equilíbrio permitiu-lhe mostrar subtilmente os diversos graus de tensão e lassidão, através dos quais deixa adivinhar a sentimentalidade romântica do tema.
Nesta escultura cruzam-se, portanto, três modos do pensamento artístico desenvolvidos ao longo do século dezanove: a vontade clássica de clareza formal e de bom acabamento; a expressão romântica da vida interior; e a captação dos dados da experiência comum, quer ao nível da perceção visual quer no âmbito dos sentimentos. Por este último aspeto, Soares dos Reis foi, a partir de então, e mais ainda nas suas obras posteriores, um dos introdutores do Naturalismo em Portugal, coincidindo cronologicamente com as intenções dos anti-românticos escritores da década de setenta. Mas Soares dos Reis inspirara-se no poema “Tristezas do Desterro” do romântico Alexandre Herculano (1810-1872). A sua escultura ligou o passado ao futuro, encarnando antecipadamente o derrotista espírito do final do século, em que relevantes intelectuais e militares se mataram, o que levou o filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) a caracterizar Portugal como terra de emigrantes e suicidas, entre as quais se contou o próprio Soares dos Reis. O poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952) formulou um juízo mais amplificante e menos pessimista. Para ele, “O Desterrado” era a expressão máxima da saudade, sendo esta uma característica essencial do povo português. Na Poesia de Pascoaes, a saudade foi revelada como uma profunda entrega à reminiscência iluminante, análoga à da filosofia de Platão em busca dos arquétipos. Nesta problemática filosófica, o “Desterrado” adquiriu uma significação perene e universal. 



THE EXILE (1872) by ANTÓNIO SOARES DOS REIS 

Soares dos Reis National Museum, Oporto

On a rock smoothed by the sea waves sadly sits a young nude, with arched back and hanging head, in an attitude of withdrawal. He meditates on the impossibility of returning to his homeland and the happy times of old. He is a victim of destiny, against which he is unable to fight in spite of his having a healthy and robust body. His woe is purely spiritual. His melancholy stems from his solitude and the foreboding that the uprooting, once suffered, has no cure, even if he were to return.
 
The sculptor took great care in modelling the anatomy, observed in neoclassical terms as being perfectly combined with naturalist details, attaining a notable balance between essentialist expressiveness and immediate sensitive life. This balance permitted him to subtly demonstrate the diverse degrees of tension and lassitude, through which he allows us to decipher the romantic sentimentality of the theme.
 
In this sculpture there are however three modes of artistic thinking developed along the nineteenth century: the classical will for formal clarity and fine finishing; the romantic expression of inner life; and the captivation of the details of common experience, whether at the level of visual perception or within the scope of the feelings. Through this last aspect Soares dos Reis was, as of then, and even more in his later works, one of the precursors of naturalism in Portugal, coinciding chronologically with the intentions of the anti-romantic writers of the 1870’s. But Soares dos Reis is inspired by the poem “The sadness of exile” of the romantic Alexandre Herculano (1810-1872). His sculpture linked the past to the future, precociously embodying the defeatist spirit of the end of the century, in which relevant intellectuals and military people took their lives, leading the Spanish philosopher Miguel de Unamuno (1864-1936) to characterise Portugal as a land of emigrants and suicides, amongst the latter of which Soares dos Reis was to include himself. The poet Teixeira dos Pascoaes (1877-1952) formulated a wider expanding and less pessimist judgement. For him, The Exile was the supreme expression of saudade, this being the essential characteristic of the Portuguese.  In Pascoaes’ poetry, saudade was revealed as a deep surrender to illuminative reminiscence, analogous to that of the philosophy of Plato in search of the archetypes. In this philosophical problem The Exile acquired a perennial and universal significance.



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