"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

"O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas"

O mais recente livro de José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2017) inicia uma nova coleção da editora, constituída por obras do escritor e poeta.


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins
de 25 de setembro a 1 de outubro de 2017

O OFÍCIO DE PERGUNTAR

Os 155 pequenos textos que constituem este livro correspondem a reflexões do autor sobre um conjunto muito vasto de temas em torno da experiência cristã. A esperança, o acolhimento, o espanto, o regresso, a gravidade e a graça, a crença, a sabedoria, o desejo, a compaixão, a perfeita alegria, a solidão, a inutilidade, a surpresa, a santidade, a ressurreição, o milagre, a repetição, a ternura, a oração, o silêncio, a lentidão, a perseverança, a palavra, a comunicação, o desassossego, a saudade, a morte e a vida – são alguns dos temas, colhidos num rápido folheio, que permitem a José Tolentino Mendonça ir-nos falando da complexa relação com Deus. E se falamos de perguntas e respostas devemos ouvir Plutarco a dizer que é necessário habituarmo-nos a fazer uma paragem e a criar um intervalo entre a pergunta e a resposta. No fundo, o fundamental é mesmo a pergunta. Nela se coloca o desafio e o problema. E é na pergunta que está a natureza mesma da oração – não vista como uma troca pessoal ou mercantil, mas como um verdadeiro diálogo. Trata-se de procurar ouvir quem está do outro lado… E se se fala de oração, importa preservar o recato. Os Evangelhos recomendam que entremos no quarto e fechemos a porta. É a decisão e a disponibilidade para o radical encontro consigo. E de que falam as casas? Do silêncio e da palavra, do incumprido e do adiado. E ouvimos Ruy Belo: «Oh, as casas as casas as casas»… Dir-se-ia que neste livro estamos diante de uma espécie de breviário dos tempos modernos, para leitores algo apressados. No entanto, há um apelo constante à reflexão ponderada e a um tempo de espera. Se os textos não ultrapassam uma página, a verdade é que devem ser lidos em ritmo lento. A cada passo o poeta pede-nos para não nos ficarmos pelas simplificações. E a citação de Adorno, traz-nos um elogio do espanto – como longo e inocente olhar sobre o objeto. E esse espanto obriga-nos a uma constante revisão do que sabemos de nós próprios e do mundo. A atenção ao que nos rodeia obriga a um olhar longo e disponível. A fé ensina-nos a arriscar, como nos diz Françoise Dolto, devendo recordar-se a parábola do administrador infiel – que apesar de desonesto, tem a virtude de antecipar as consequências de algo que sabe que vai acontecer. Devemos estar de sobreaviso. Já G. K. Chesterton, sobre a afirmação do evangelho de S. Mateus «se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo», vem dizer-nos que esta frase poderia estar gravada na entrada de um clube de alpinistas ou de uma associação de socorros a náufragos. A vida tem muito de escalamento, de subida, e também de ações de salvamento. Já quase nos esquecemos de que outrora nas aldeias na quinta-feira de Ascensão, além de se arranjarem as espigas, subia-se a um monte, em nome da simbologia da celebração.

O PARADOXO DA VIDA…

Quem quiser salvar a vida, tem de estar disposto a perdê-la. E o paradoxo torna-se uma marca da interrogação correspondente às grandes perguntas. Lembramo-nos dos ecos difíceis da frase de Tertuliano - «Creio ainda que seja absurdo» («Credo quia absurdum»). Longe das certezas, estamos num domínio, como a fé, em que a racionalidade e a dúvida estarão sempre presentes. E como interpretar o salmo citado por Cristo no Calvário - «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». François Mauriac perguntou, contudo: «Meu Deus, meu Deus, por que não me abandonaste?». O paradoxo leva-nos a olhar com outros olhos o mundo. Entre a natural multiplicidade de temas e preocupações vem à liça o poema de Sophia de Mello Breyner: «A civilização em que estamos é tão errada / Nela o pensamento se desligou da mão / Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco e gabava-se também / de saber conduzir num campo a direito o sulco do arado». E vem ainda à memória a distinção de Zygmunt Bauman entre o caçador, no uso da força, e o jardineiro, no uso da sabedoria – ou ainda a distinção fechada entre o «nós» e os «outros», que nos obriga superar a fronteira do egoísmo. A quantos sinais preocupantes desse isolamento e do medo dos outros assistimos nos dias de hoje. Merleau-Ponty recorda-nos que a solidão e a comunicação não devem ser vistas como dois termos de uma alternativa, mas como duas faces de um mesmo fenómeno… E Edgar Morin lembra que, como toda a gente, tem horror total às esperas, nos correios ou nos consultórios, e não suporta as filas burocráticas a que nos obrigam. Contudo, não cessa de esperar o inesperado… Devemos preparar-nos para a incerteza. Onde existe o humano existe a viagem… Este breviário traz-nos, assim, um permanente vai-e-vem de temas e problemas, de respostas e de perguntas. A fé é um verdadeiro livro do desassossego – e o certo é que, como no livro de Job, todos estamos representados, crentes e não crentes, convertidos e inquietos, locatários e peregrinos, e ninguém fica incólume às dúvidas e angústias. Bernanos recusava o odor a naftalina quando se deveria privilegiar o cheiro do rebanho… Há momentos que a sujidade do templo é sinal de vida. Quem não se dispuser a pôr os pés na lama não compreende a sua responsabilidade humana. Afinal, a dificuldade de crer não descaracteriza a fé – como sempre disse Simone Weil. E que é a perfeita alegria. Nas «Fioretti» de S. Francisco de Assis, lemos o diálogo de frei Leão com o próprio santo: «Imagina que pernoitamos (…) em completo desabrigo, fustigados pela dura neve, devorados pela negra fome, mas sofrendo tudo isso sem nos perturbarmos, sem murmurar contra o porteiro, antes pensando humildemente que aquele irmão nos conhece de verdade e que Deus o fez falar contra nós. Se suportares isso com bom amor, ficarás a saber o que é a perfeita alegria»… A felicidade não tem, pois, a ver com o contentamento imediato – mas com algo de muito mais fundo… Não estamos sós. E na relação com os outros, devemos relembrar a comovente invocação por Montaigne do seu grande amigo La Boétie: «Porque era ele, porque era eu»… De facto, há uma complementaridade incindível que nos liga, eu e o outro, nós e os outros… O pequeno caminho e as grandes perguntas correspondem à ilustração do mundo da vida. Ou será um grande caminho para grandes e pequenas perguntas? Importa lançarmo-nos ao caminho – lembrando António Machado («el caminho se hace al andar»). E Thomas Merton lembra que «o caminho da quietude não chega a ser sequer um caminho, e quem o segue não encontra coisa nenhuma»…  

Guilherme d'Oliveira Martins

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