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National Geographic lança curtas no YouTube para homenagear “legado” do Prémio Nobel da Paz

"Lost And Found": Kamal Hussein tenta ajudar crianças rohingya a reencontrarem-se com as suas famílias num campo de refugiados no Bangladesh DR Hana Khider diz que trabalha sem medo mas sabe que um passo errado pode resultar na sua morte DR A equipa que comanda é responsável por desmantelar armadilhas num território arrasado pela ocupação Daesh DR Makur Diet sentiu-se imbuído de uma "vida nova" quando voltou a andar e hoje ajuda pessoas sem membros a obter próteses DR


Série documental acompanha o trabalho de pessoas e associações envolvidas em diversas frentes humanitárias, desde a desativação de minas no Iraque à ajuda em campos de refugiados no Bangladesh.

Ficaram disponíveis esta quarta-feira, no canal de YouTube da National Geographic, quatro curtas-metragens do realizador britânico Orlando von Einsiedel que lançam olhares sobre “o legado de diferentes vencedores do Prémio Nobel da Paz”. Into The FireThe Lost ForestStill Human e An Unfinished Symphony juntam-se à anteriormente lançada Lost And Found — que teve a sua estreia no Festival de Telluride, nos Estados Unidos, em 2019 — nesta série documental de cinco partes que acompanha o trabalho de pessoas e associações envolvidas em diversas frentes humanitárias.

Em Into The Fire, quem guia os espectadores pelos desertos de Mossul, no Iraque, é Hana Khider, que trabalha com o Mines Advisory Group — associação que integra a Campanha Internacional para a Erradicação de Minas Terrestres, premiada com o Nobel da Paz em 1997 — e é a líder de uma equipa responsável por desmantelar armadilhas num território arrasado pela ocupação do Daesh.

Já The Lost Forest acompanha um grupo de cientistas que tentam chegar a uma floresta em Moçambique “cujo solo nunca foi pisado por um ser humano”, com o objetivo de “recolher informações” para estudar “as maneiras como as alterações climáticas estão a afetar o nosso planeta”.

Makur Diet, que perdeu uma perna entre tiroteios no Sudão e hoje faz próteses para pessoas sem membros, num centro clínico tutelado pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, é um dos protagonistas de Still Human. Por sua vez, An Unfinished Symphony conta com os depoimentos de Tsepo Pooe e Lize Schaap, dois músicos sul-africanos que cresceram em contextos socio-económicos completamente distintos e fazem parte da Miagi Orchestra, que tenta manter vivo o espírito de “liberdade pós-apartheid” nascido nesse país após a eleição de Nelson Mandela. Lost And Found, por último, revela a história de Kamal Hussein, que fugiu da Birmânia para o Bangladesh e, numa iniciativa com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, tenta ajudar crianças rohingya a reencontrarem-se com as suas famílias, “destruídas ou separadas por violência e limpeza étnica”.

Um futuro com esperança?

Orlando von Einsiedel, autor de obras como The White Helmets — documentário sobre as lutas e as dificuldades dos Capacetes Brancos, como são conhecidos os voluntários da Defesa Civil Síria —, conta ao PÚBLICO que esta coleção de curtas, filmadas entre 2018 e 2019, constituiu um “projeto de sonho”. “A ideia passou por encontrarmos e retratarmos pessoas que se inspiram em antigos vencedores do Prémio Nobel da Paz ou que, talvez inconscientemente, seguem os seus passos junto das comunidades nas quais se inserem. No fundo, pessoas que me fazem olhar para mim mesmo com vontade de ser melhor”, assinala.

“As notícias, sobretudo nestes tempos em que nos encontramos, conseguem ser horrivelmente deprimentes sem grande esforço”, continua o cineasta. “Com isso, é demasiado fácil tornarmo-nos indiferentes, distanciarmo-nos mentalmente daquilo que estamos a ver e ouvir como se estivéssemos a acionar um certo mecanismo de auto-proteção. Eu sempre tentei encontrar histórias que me lembrassem do quão maravilhosa a humanidade consegue ser ou que me ajudassem a olhar para o futuro com esperança.”

O realizador confessa, no entanto, que, por vezes, é “extraordinariamente difícil” alimentar essa esperança em cenários de “completa desolação e vulnerabilidade”. Einsiedel lembra-se, por exemplo, da sensação “avassaladora” com que se confrontou ao olhar para as imagens recolhidas pelo seu drone no campo de refugiados que surge em Lost and Found. “O aparelho consegue subir, no máximo, até 500 metros de altitude. A partir de certa altura, só via cabeças umas atrás das outras. É absolutamente aterrorizador, um espaço do tamanho de Pittsburgh repleto de sobreviventes que tiveram de fugir do país onde nasceram.”

Não menos assustadoras, acrescenta ainda, foram as filmagens de Into The Fire. Hana Khider sabe que qualquer dia pode ser o seu último enquanto tenta desativar as minas que o Daesh espalhou por Mossul. Tenta, ainda assim, trabalhar sem medo, apesar dos riscos que constantemente espreitam. “É profundamente perturbador pensar que um passo errado pode acabar com a vida de alguém”, salienta o cineasta. “A equipa da Hana não usa muito equipamento protetor porque, honestamente, não vale a pena. Ele não faria nada para as salvar se alguma coisa saísse ao lado. Tirando as fotografias do bombardeamento de Dresden, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, acho que nunca tinha visto um nível tão grande de destruição.”

Mas nesta série com o selo da National Geographic as imagens de “altruísmo, sacrifício e bondade” prevalecem. Destaca-se a “capacidade que temos de nos reinventar e reconstruir no meio da tragédia”. Makur, que só se apercebeu da importância que a sua perna tinha “no dia em que lhe foi amputada”, sentiu-se imbuído de “uma vida nova” quando, depois da operação, aprendeu a caminhar com a sua prótese, e o trabalho que faz com a Cruz Vermelha — que nos últimos 40 anos, lê-se no fim de Still Human, “já ajudou 800 mil pessoas a andar novamente” — traz-lhe um “brilho” que até então desconhecia. A Miagi Orchestra toca para celebrar a inclusão, por muito que a África do Sul continue minada por desigualdades. “Dentro do que está ao seu alcance, frequentemente com poucos meios e contra muitos fatores, estas pessoas incríveis conseguem criar um impacto tremendo”, reflete Orlando von Einsiedel. “Gostava que os espectadores vissem os filmes e pudessem sentir que são capazes do mesmo.”




por Daniel Dias in Público | 21 de maio de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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