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A Vida dos Livros

"MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa – Os Anos de Ouro da Arquitetura Religiosa em Portugal no Século XX"

A obra de João Alves da Cunha (Universidade Católica Editora, 2015), põe-nos perante um movimento que contribuiu decisivamente para a necessidade de pôr a Arte Religiosa ao ritmo do nosso tempo. Publicamos esta nota em homenagem ao Arquiteto João de Almeida (1927-2020), que nos deixou há dias.


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins
de 29 de junho a 5 de julho de 2020 

UM MOVIMENTO NECESSÁRIO
O arquiteto João de Almeida afirma, no prefácio do livro, que na sua génese a iniciativa foi designada propositadamente como movimento, em nome de uma dinâmica que era necessário pôr em prática. “O Movimento surgiu na sequência duma exposição organizada por um grupo de jovens arquitetos, artistas e estudantes, muitos destes ligados à Juventude Universitária Católica. Teve lugar em Lisboa em 1953, na Igreja de S. Nicolau, e seguidamente no Porto. Foi uma exposição didática e documental, fotográfica, em que mostrávamos o que era então a prática da arte e da arquitetura sacra na Europa Central em contraste com o que por cá se fazia”. Se o Cardeal Cerejeira tinha apoiado conceção e a realização da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (1938), do arquiteto Pardal Monteiro, com a participação de artistas modernos como Almada Negreiros, o certo é que houve depois um claro retrocesso nessa tendência que os jovens puseram em causa. Ainda segundo o aludido prefácio: “Para a realização da exposição (de 1953) contribuiu em larga medida o material” recolhido por João de Almeida “na Alemanha, em França e sobretudo na Suíça, onde durante mais de dois anos estagiara com Hermann Baur, consagrado profissional na área da arquitetura sacra”. O jovem arquiteto, que tinha formação teológica, viveu em Trier, onde estabeleceu contacto com o Instituto Litúrgico Alemão, então “na vanguarda da renovação das práticas rituais do catolicismo”. Por outro lado, conheceu bem a experiência dos padres dominicanos que dirigiam em Paris a prestigiada revista L’Art Sacré, “na vanguarda e na defesa intransigente duma modernidade sem cedências a estéticas passadistas”. A essa tendência deveu-se o projeto da célebre Igreja de Ronchamp de Le Corbusier e a encomenda da fachada da Igreja de Assy de Fernand Léger. Os autores da Exposição, com apoio da Igreja oficial, em especial do assistente da JUC, Padre Dr. António dos Reis Rodrigues, constituíram em 1952 o MRAR, Movimento de Renovação da Arte Religiosa, desdeo início dirigido por Nuno Teotónio Pereira e “agregando numerosos membrose simpatizantes de diverso âmbito profissional: arquitetos, artistas, teólogos,museólogos, escritores (Vitorino Nemésio, inesquecível…)”.

A IDEIA DE RENOVAÇÃO
Para os fundadores, a designaçãode «movimento» exprimia o desígnio de “preparar eestruturar a mudança, criando as bases para uma renovação coerente e bemfundamentada da arquitetura e da arte sacras”. O método usado era o de uma criatividade partilhada, refletida e discutida, “sem que a criatividade e as características de cada um fosse prejudicada. (…) Se alguma coisa distinguiu o MRAR ao longo da sua existência, foi a recusa de vedetismos e a partilha das ideias e das soluções”. E assim o movimento deixou como herança o Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, desde o início dirigido por Diogo Lino Pimentel. Constituíram o MRAR arquitetos recém-licenciados pela Escola de Belas Artes de Lisboa, mas também artistas plásticos e historiadores como Nuno Portas, Erich Corsépius, Luíz Cunha, António Freitas Leal, Manuel Cargaleiro, José Escada, Flórido de Vasconcelos, Madalena Cabral e Maria José de Mendonça, além dos referidos João de Almeida, Nuno Teotónio Pereira e Diogo Lino Pimentel. Outras exposições se seguiram, como as de Arte Sacra Moderna, ou de Paramentaria Moderna. Também foi criado um Boletim, publicado entre 1957 e 1967, e no estrangeiro houve repercussões do movimento português. Em 1964, a Fundação Calouste Gulbenkian, organizou a exposição “Novas Igrejas na Alemanha”, na Sociedade Nacional de Belas Artes, que tornou possível ao público português contactar com algumas das obras de referência que mais diretamente influenciaram e inspiraram as novas igrejas propostas pelos membros do MRAR. Infelizmente, a obra feita ficou aquém do que se esperaria quer por resistências culturais, quer por dificuldades económicas.

BELOS EXEMPLOS
Podemos referir os belos exemplos da Igreja de Santo António de Moscavide (1956, por João de Almeida e António Freitas Leal, com obras de Lagoa Henriques, José Escada e Manuel Cargaleiro), da Igreja Paroquial de Águas (1957, por Nuno Teotónio Pereira, com intervenção de Frederico George e obras de António Lino, António Luís Paiva e Euclides Vaz), da capela do Picote (1958, por Manuel Nunes de Almeida, com escultura de Barata Feyo) e da Igreja da Sagrada Família de Paço d’Arcos (1969, por João de Almeida). A obra maior do MRAR é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa (1970, por Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas), fruto de um concurso e debate público com resultados claramente positivos. O Concílio Vaticano II veio confirmar os objetivos e a dinâmica do MRAR, mas o impacto renovador do movimento foi-se reduzindo. No dizer de João Alves da Cunha: “Num tempo de forte secularização, o MRAR afirmou em Portugal um programa artístico, pastoral e circunstancialmente político que se constituiu como o melhor exemplo de intervenção religiosa e cultural de uma elite que operou uma efetiva renovação dos edifícios religiosos, bem como uma valorização das dimensões sociológica e antropológica dos espaços litúrgicos”. Infelizmente, o debate, o compromisso estético e teológico, bem como o método de diálogo e de partilha na arte e arquitetura religiosas preconizado pelo MRAR ao longo de cerca de duas décadas não tem tido continuidade nas novas gerações. Diogo Lino Pimentel tem razão ao dizer que “neste nosso tempo (passados mais de 50 anos) o ambiente tornou-se indigente, por um lado, e luxuosamente corrosivo, por outro. No meio persiste alguma anemia e tanto basta para justificar o insistente apelo do Papa Bento XVI em Lisboa ao convocar um encontro com a cultura e os artistas. (…) A cultura da ostentação e do espetacular não é certamente compatível com a igreja pobre e servidora..”.

Guilherme d'Oliveira Martins
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