"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

30 Boas Razões para Portugal

30 Boas Razões para Portugal

Iniciaremos a 1 de agosto o folhetim de Verão que intitulámos “30 Boas Razões para Portugal”. Mas, ao delinear a escrita, verificámos que há muito mais do que 30 boas razões para uma Lusitana Paixão.


Contudo, porque os dias com que vamos contar são 30, mais coisa menos coisa, vamos fazer uma ginástica especial, para encontrarmos trinta motivos fundamentais que signifiquem boas razões… E o leitor dileto perguntará se só vemos boas razões. Não. Mas o motivo fundamental deste folhetim são as razões que nos levam a ter saudades de Portugal quando estamos longe, e a procurarmos o que nos liga a uma identidade tão especial, que morre e estiola quando se fecha e que tem tanto a ver com a abertura e o cosmopolitismo. E a língua que falamos expandiu-se mundo afora. De facto, temos mil defeitos, cultivamos o escárnio e o maldizer, temos a tendência para a boa anedota e o picaresco, mas temos características que conhecer, para podermos ser melhores. Eduardo Lourenço, num tom sério, fala de “maravilhosa imperfeição”, António Tabucchi elegeu, um dia, para escândalo de alguns, Maria Parda como símbolo bem português, e ainda Mestre Gil dá-nos em Todo o Mundo e Ninguém no Auto da Lusitânia, o retrato bem português do nosso carácter complexo (Almada desenhou-os como gémeos), Diogo do Couto, no “Soldado Prático”, lembrou o mau administrador lusitano como aquele que na ânsia de pôr a impressão digital na história, nada constrói, e Rafael Bordalo Pinheiro tornou-nos Zé Povinho e Maria Paciência. Todos têm razão. A imperfeição é uma marca de responsabilidade. E este sentido crítico é fundamental, até porque, muitos se admiram quando os nossos compatriotas dão cartas nas suas andanças pelo mundo. Fizemos coisas extraordinárias, não em nome do improviso, mas com base no trabalho e na persistência. Somos um país de nove séculos porque persistimos e não pelo que desistimos. Mas não somos um povo eleito, apesar de termos razões para nos gostarmos. Não somos nem melhores nem piores que outros. Temos muito para fazer, para construir. Veja-se, quando encontramos, em toda a parte, um português, viajante do mundo. E percebemos logo que tem a ver connosco, mesmo que seja muito diferente de nós. Alexandre O’Neill bem disse que somos tanto melhores se não nos levarmos a sério. Mas somos remorso de todos nós. Os nossos melhores exemplos têm a ver com essa capacidade de ser exigentes e críticos. Almada Negreiros nos painéis da Rocha do Conde de Óbidos descreveu-nos magistralmente, na elegância das varinas, na criatividade dos saltimbancos e no humor dos Robertos. Será possível entendermo-nos sem colocar lado a lado os painéis de Nuno Gonçalves e os de Almada Negreiros? D. Fuas Roupinho completa o Infante D. Henrique, a “Nau Catrineta” prepara-nos para não sermos traídos pela falsa glória das promessas demoníacas. Fernão Mendes Pinto da “Peregrinação” é a personificação do português do mundo andarilho, enquanto o nosso vizinho D. Quixote vive o drama de querer deixar de ser um mito, para ser apenas Alonso Quijano, que Sancho recusa. De facto, somos contraditórios por definição. Alternamos entre julgarmo-nos melhores e ser piores, entre ser “heróis do mar” e herdeiros do milagre de Ourique e cair nas ruas da amargura. Jorge Dias fala-nos do Português como misto de sonhador e de homem da ação, combinação de muitos elementos. E encontra quatro pilares no génio criador português: 
Os Lusíadas, os Jerónimos, o políptico de Nuno Gonçalves e os Tentos na criação musical de Manuel Coelho… Outras referências poderiam ser feitas, nos diversos domínios. Importa, porém, entender “um povo paradoxal e difícil de governar. Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos, conforme a égide do momento”.   
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