"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Notícias

Filme de Mário Barroso revisita um "amor louco"

Nas primeiras décadas do século XX, Maria Adelaide da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, foi protagonista de um escândalo que abalou a sociedade portuguesa: com Ordem Moral, o realizador Mário Barroso redescobre essa personagem fascinante.

Maria de Medeiros na personagem de Maria Adelaide Coelho da Cunha: uma sofisticada interpretação.


O novo filme de Mário Barroso, Ordem Moral, conta a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha (1869-1954), história que, como se costuma dizer, é do domínio público. No sentido mais literal: o seu "amor louco", vivido com um homem de uma classe "inferior" ao seu estatuto social, marcou as primeiras décadas do século XX português.

Ou como se diz na sinopse oficial: "A história que pretendemos contar é pública e conhecida: em 1918, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, abandona o luxo social, cultural e familiar em que vive para fugir com um insignificante chauffeur, 26 anos mais novo. As consequências desta sua decisão serão obviamente dolorosas e moralmente devastadoras."

História vibrante, sem dúvida, não só pelo sua energia genuinamente melodramática, mas também pelo facto de poder funcionar como fresco de uma sociedade portuguesa a viver as atribulações dos primeiros tempos do regime republicano e, depois, a pouco e pouco, como uma espécie de veneno tentador, a "estabilidade" da ditadura salazarista. 

Dito isto, importa começar por reconhecer que o filme aposta num golpe dramático, no mínimo, desconcertante. A saber: a sugestão de uma dimensão homossexual na personalidade de Manuel Claro (João Pedro Mamede), através da sua relação com Cícero (Albano Jerónimo), o ativista político que acaba por adquirir especial importância no trajeto do par em fuga.

O terreno é escorregadio. Por uma razão muito simples: vivemos dominados por um imaginário mediático (e social, por isso mesmo) em que a afirmação das "diferenças" é quase sempre tratada como elemento automático de reivindicação, ou mesmo de rebeldia, cuja discussão está, por definição, interdita. Dou um exemplo, a meu ver dos mais reveladores. Em 2018, o filme americano Ocean's 8 foi promovido como triunfante variação feminina, até mesmo feminista, de Ocean's 11 (2001), o policial de Steven Soderbergh, com George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon, sobre um golpe para roubar vários casinos de Las Vegas... Em boa verdade, tratava-se de uma comédia de disparatada mediocridade que conseguia a proeza pouco invejável de esbanjar o talento de atrizes como Cate Blanchett ou Sandra Bullock. Aliás, se alguém procurava a afirmação simbólica do carácter feminino de uma qualquer personagem, poderia, por exemplo, assumir um olhar sem preconceitos e observar atentamente o trabalho de Julia Roberts. Onde?... Em Ocean's 11.

Insisto: o terreno é escorregadio. Também porque ninguém pode retirar a Mário Barroso e ao argumentista Carlos Saboga o direito de tratarem como muito bem entenderem as suas personagens. E tanto mais quanto, no génerico final, somos alertados para o facto de se tratar de um filme "livremente" inspirado em factos reais. Dizem-me que podemos encontrar uma abordagem com algumas similitudes da personagem de Manuel Claro em Doidos e Amantes (2005), de Agustina Bessa Luís - não conhecendo esse romance, admito que sim; em todo o caso, não creio que o livro alguma vez tenha sido citado como elemento inspirador do filme.

Porquê esta digressão de factos e dúvidas? Para iluminar dois aspetos bizarros que, a meu ver, não deixam de ser curiosos elementos de reflexão. Primeiro, a possível ambivalência dos amores de Maria Adelaide e Manuel Claro (ou do trio por eles formado com a personagem de Cícero) poderia ser um dos trunfos mais originais, sugestivos e perturbantes na revisitação de uma história que, escusado será sublinhá-lo, se consolidou no imaginário romanesco como uma aventura masculino-feminino. Depois, porque o filme, contra si próprio, trata tal trunfo como um "incidente" rapidamente retirado da respetiva arquitetura dramática.

Talvez venha daí a escolha do grande plano de Maria de Medeiros em pose masculina, com um bigode (numa representação teatral quando Maria Adelaide está internada num hospital psiquiátrico), para o cartaz de Ordem Moral. Não é assunto deste texto, mas parece-me ser um claro erro de marketing, já que, em termos informativos, valoriza uma dimensão que o filme acaba por não ilustrar ou desenvolver. Seja como for, lembro uma verdade cristalina: nenhum filme é "melhor" ou "pior" por causa do seu cartaz.

Que resta, então? Um objeto de cinema que, ainda assim, nos envolve através de algumas personagens metodicamente tratadas de acordo com as regras clássicas do "retrato psicológico". O que é tanto mais interessante quanto esse é um modelo pouco considerado por tantos títulos portugueses que, em nome de um "experimentalismo" mais ou menos feliz, o excluem dos seus pressupostos.

O destaque vai, necessariamente, para a energia de Maria Adelaide. Evitando favorecer qualquer "equivalência" simbólica - por mais que isso custe a algumas formas contemporâneas de militância, uma mulher (ou um homem) do começo do século XX não se confunde com uma mulher (ou um homem) do nosso presente -, o filme apresenta-a a partir dos códigos de comportamento da sua classe e também dos "desvios" que vai protagonizando, a começar pelo seu gosto contagiante pelas encenações teatrais. As cenas de ensaio e representação de Soror Mariana, de Júlio Dantas, são, nesse aspeto, modelares, e tanto mais quanto o excelente trabalho de Maria de Medeiros - por certo dos mais complexos e sofisticados que, em anos recentes, vimos no cinema português - encontra, aí, uma especial via de afirmação: deparamos, assim, com uma mulher em ziguezague entre o artifício hipócrita da vida social e o artifício revelador do teatro.

O elenco é muito consistente, mesmo se João Pedro Mamede sofre os efeitos da indefinição (ou do já referido "inacabamento") da sua personagem. Albano Jerónimo é magnífico a compor um Cícero cujos impulsos anarquistas o fazem oscilar entre a crueza do militante e uma vulnerabilidade emocional quase infantil. E há ainda uma pequena galeria de secundários que, também eles, são tratados com muito mais cuidado do que, não poucas vezes, acontece em filmes portugueses que se querem dramaticamente "tradicionais".

Cito os exemplos de Dinarte Branco, compondo um Egas Moniz gelidamente cerebral na caracterização dos "males" femininos que vão determinar o diagnóstico de "loucura" de Maria Adelaide, e ainda Rui Morisson na figura de Júlio de Matos, outro dos médicos envolvidos, presença tão breve quanto intensa que nos faz sentir uma componente fulcral da odisseia de Maria Adelaide. A saber: a sinceridade "neutra" do poder instituído da palavra masculina.

Enfim, destaquemos a qualidade das imagens de Ordem Moral. Assinadas por quem? Pelo próprio realizador, Mário Barroso, também diretor de fotografia com muitos títulos marcantes na história do cinema português (lembro o caso surreal de Os Canibais, de Manoel de Oliveira, lançado em 1988). Recusando qualquer modelo retórico de "ilustração" televisiva - e contando com contribuições exemplares da decoração de Paula Szabo e do guarda-roupa de Lucha d'Orey -, a sua visão do mundo de Maria Adelaide arrisca uma difícil opção: a de preservar, tanto quanto possível, o valor e a sensualidade das fontes de luz natural.


por João Lopes, in Diário de Notícias | 10 de setembro de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Diário de Notícias

Visitas
54,079,092
>