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Morreu João Cutileiro, um dos maiores escultores contemporâneos portugueses

Com a morte de João Cutileiro, uma das grandes referências da Arte e da Cultura em Portugal na contemporaneidade, todos perdemos não só um grande Escultor, mas também um artista completo que soube sempre assumir-se como  um inovador e como alguém que fez da criação artística um motivo de reflexão e de emancipação.

O Centro Nacional de Cultura homenageia a sua memória e envia sentidas condolências a sua família e amigos.

João Cutileiro na exposição que fez em Marvão (2015). Foto: Facebook/João Cutileiro


Tinha 83 anos e as suas obras estão espalhadas por todo o país.


João Cutileiro morreu no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, com complicações provocadas por um enfisema pulmonar. O escultor era irmão do embaixador José Cutileiro, falecido em maio do ano passado.

Évora foi onde escolheu para trabalhar e viver. Em 2016, cedeu todo o seu espólio à cidade “para poupar os meus filhos de ficarem com isto, palavra de honra”, confessava aos jornalistas.

“Fui amigo de José Almada Negreiros (filho) e o desgraçado nunca se levantou da morte do pai e isso é um horror. Ele recebeu um espólio e eu não quero que os meus filhos recebam o meu espólio senão não fazem mais nada com ele, mas não queria dizer isto em frente ao Dr. João Soares”, explicou anda João Cutileiro, a rir.

Nasceu, assim, a casa/atelier do artista que trabalhou o mármore, donde fez nascer figuras, paisagens e monumentos – alguns polémicos – por todo o país.

João Cutileiro é, por exemplo, autor do Monumento ao 25 de Abril, instalado no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Concebida a partir do pedestal destinado à estátua equestre do Santo Condestável, a escultura é feita de fragmentos de pedra, por vezes em bruto, com um núcleo que se desdobra por outros pedaços de pedra, que se dispersam pelo espelho de água.


Monumento ao 25 de Abril, no Parque Eduardo VII. Foto: DR


Em 1970, o escultor executa, em Lagos, a sua obra mais polémica: “D. Sebastião”, uma escultura para assinalar, em 1973, o IV Centenário do alvará da elevação de Lagos a cidade.
Mais tarde, para a Expo98, Cutileiro contribuiu com algumas figuras que podem ser vistas num lago perto do Meo Arena, do lado do rio Tejo.



Estátua D. Sebastião, em Lagos. Foto: DR

Em 2016, quando o escultor tinha 77 anos, as famílias dos seis estudantes que perderam a vida no Meco pediram-lhe que criasse um memorial.

"Senti uma pena louca dos pais e dos jovens que ali morreram", afirmou na altura, acrescentando que nunca lhe tinham feito um pedido semelhante. Aceitou “de imediato”, fez o projeto e apresentou o orçamento às famílias, que aceitaram.

Durante a sua carreira, João Cutileiro frequentou, entre 1946 e 1950, os ateliês de António Pedro, Jorge Barradas e António Duarte, tendo feito a sua primeira exposição individual ("Tentativas Plásticas") em 1951, com 14 anos, em Reguengos de Monsaraz, onde apresentou esculturas, pinturas, aguarelas e cerâmicas.

Foi condecorado com a Ordem de Sant'Iago da Espada, Grau de Oficial, em agosto de 1983, e recebeu o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora e pela Universidade Nova de Lisboa, este último, concedido em 2017.

Em 2018, João Cutileiro recebeu a medalha de mérito cultural, atribuída pelo Governo, numa cerimónia no Museu de Évora que serviu igualmente para formalizar a doação do espólio do escultor ao Estado português.


Parque das Nações. Foto: DR 



por Marta Grosso in Renascença | 5 de janeiro de 2021
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Rádio Renascença


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