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Ex-Campo do Tarrafal é o primeiro de oito candidatos de Cabo Verde à UNESCO

Situado na localidade de Chão Bom, o antigo Campo de Concentração do Tarrafal foi construído em 1936 e recebeu os primeiros 152 presos políticos em 29 de Outubro do mesmo ano, tendo funcionado até 1956. Reabriu em 1962, destinado a encarcerar os anticolonialistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

O antigo Campo de Concentração do Tarrafal foi classificado Património Cultural Nacional de Cabo Verde em 2004_Lusa/Fernando de Pina

A candidatura do ex-Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidade será a primeira de oito locais que Cabo Verde já identificou com potencial para classificação pela UNESCO, segundo o Governo cabo-verdiano.

De acordo com a informação transmitida pelo Ministério da Cultura durante o seminário de dois dias para divulgação da Lista Indicativa nacional na UNESCO, que decorreu na Praia, Cabo Verde identificou um “conjunto de bens que podem ser trabalhados e classificados como Património da Humanidade”.

Assim, na Lista Indicativa de Cabo Verde para a UNESCO constam o Parque Natural de Cova, Paul e Ribeira da Torre (ilha de Santo Antão), o Complexo de Áreas Protegidas de Santa Luzia e Ilhéus Branco e Raso, as Salinas de Pedra de Lume (Sal), os centros históricos da Praia (Santiago), de São Filipe (Fogo) e de Nova Sintra (Brava), o Parque Natural da Chã das Caldeiras (Fogo) e o ex-Campo de Concentração do Tarrafal (Santiago).

“Neste momento, o país já colocou em marcha o processo para a elevação do Campo de Concentração de Tarrafal de Santiago para a sua classificação junto da UNESCO, num trabalho conjunto que reúne além de técnicos nacionais, uma cooperação já rubricada com Portugal”, explicou o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde.

Na abertura do seminário, o ministro da Cultura e presidente da Comissão Nacional para a UNESCO (CNU) de Cabo Verde, Abraão Vicente, explicou que os bens já identificados “podem ser trabalhados e classificados como Património da Humanidade” no futuro.

“Temos bens classificados como patrimónios nacionais de Santo Antão à Brava. Agora, vamos fazer um trabalho árduo de capacitação dos nossos técnicos e de conclusão dos dossiers que é a parte em que Cabo Verde tem ainda alguma dificuldade”, reconheceu o governante.

Cabo Verde e Portugal assinaram em 6 de julho último um protocolo para proteção e conservação do património cultural, com destaque para o antigo Campo de Concentração do Tarrafal, visando a candidatura à UNESCO.

O memorando de entendimento foi assinado pelos ministros da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, e da Cultura de Portugal, Graça Fonseca, no âmbito de uma visita oficial que a governante portuguesa efetuou ao arquipélago, e aconteceu no ex-Campo de Concentração do Tarrafal, no norte da ilha de Santiago.

Com o documento, os dois países pretendem cooperar na proteção, conservação, salvaguarda e divulgação do património cultural, através de formação, capacitação técnica, partilha de conteúdos científicos, publicações, investigação, intercâmbio profissional, atividades científicas conjuntas.

Será também promovida a mobilidade de técnicos, preparação de exposições, nomeadamente nos domínios do património material (móvel e imóvel), do património imaterial e dos museus, com especial destaque para o Museu da Resistência do Campo do Tarrafal e para o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade.

A ministra da Cultura portuguesa, Graça Fonseca, acrescentou que o protocolo vai ajudar na elaboração da candidatura do antigo campo de concentração do Tarrafal a património material da Humanidade, feita em colaboração com o trabalho que o Governo português está a realizar na Fortaleza de Peniche.

“São dois locais que têm uma história que contar, estamos a partilhar o trabalho, iniciamos em Portugal com todo o processo de musealização da Fortaleza de Peniche, agora Museu Nacional da Resistência, e é exatamente com esse objetivo, cooperação técnica nas diferentes áreas”, afirmou a ministra.

A cooperação técnica será entre a Direção Geral do Património de Portugal e o Instituto do Património Cultural (IPC) de Cabo Verde, explicou ainda a ministra, considerando que os dois países mostraram que não esquecem o passado e estão a construir o futuro.

Por sua vez, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, disse que, depois da reabilitação concluída há quatro meses, o país dá início a uma nova etapa de preservação e valorização da memória coletiva e “nunca esteve tão perto” da entrega da candidatura do antigo campo de concentração do Tarrafal a património da Humanidade. O ministro afirmou que o país pretende entregar a candidatura na próxima data disponibilizada pela UNESCO, esperando que seja no próximo ano.

Situado na localidade de Chão Bom, o antigo Campo de Concentração do Tarrafal foi construído no ano de 1936 e recebeu os primeiros 152 presos políticos em 29 de outubro do mesmo ano, tendo funcionado até 1956. Reabriu em 1962, com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom, destinado a encarcerar os anticolonialistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Após a sua desativação, o complexo funcionou como centro de instrução militar e desde 2000 alberga o Museu da Resistência. O espaço foi classificado Património Cultural Nacional em 2004 e integra a lista indicativa de Cabo Verde a património da UNESCO. Ao todo, foram presas neste “campo da morte lenta” mais de 500 pessoas: 340 antifascistas e 230 anticolonialistas.


por Lusa e Público | 16 de julho de 2021
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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