"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Pedras no meio do caminho

III. Um outro fantasma

Ainda não se apagara da memória esse estranho e inesperado pesadelo do regresso ao mundo dos vivos de Carlos Fradique Mendes, sob a forma mais ignóbil das suas origens mais recônditas da Estrada de Sintra, e já renascia uma outra experiência igualmente perturbadora e não menos inexplicável.


Como qualquer cidade que se preze, Lisboa está cheia de espectros que se escondem nos lugares mais inusitados e que nos espreitam onde menos se possa esperar. O Chiado e as portas de Santa Catarina eram o lugar de preferência de Fradique, mas no caso que vou contar é a Baixa pombalina que está em causa. Falo-vos de Justino Antunes, o mesmo que foi imortalizado por Gervásio Lobato. Ele ainda persiste, como alma penada, lembrando que, ao chegar a Lisboa, vindo dos Algarves se alojou com a sua família, a mulher, Angélica, a irmã, Josefina, o sobrinho, Arnestozinho e uma criada velha e antiga, a Alexandrina, na rua dos Fanqueiros, num quarto andar, do lado dos pares, portas fronteiras com o celebrado conselheiro Torres, que tinha muitas filhas, muito divertidas, que se deram muito com Angélica e D. Josefina. Nesta história, tudo se passava entre essa zona urbana e mercantil dos Fanqueiros e as ruínas do Carmo, onde Justino tinha a posição honrosa de sócio da Associação dos Arqueólogos e Arquitetos, na classe dos Arquitetos, o que o enchia de orgulho. Justino Antunes veio parar a Lisboa, desejando ter um filho, que foi tardando, mas que finalmente chegou, para ocupar um lugar numa Secretaria de Estado. “Seu sogro era muito influente na política, e tinha sobre as ciências sociais e administrativas uma opinião sua, particularíssima, que dizia ‘bem alto para que todos ouvissem’, em todas as solenidades públicas. Essa opinião entranhada era que ‘o sr. Fontes é o Bismarck português’. O sr. Antunes, desposando a filha do administrador do concelho, desposou também o seu ponto de vista político. Ora com esta opinião vai-se longe em Portugal, muito mais longe do que do Algarve a Lisboa. O sr. Antunes veio até Lisboa. Seu sogro fez por lá sandice grossa, e, para não se verem obrigados a demiti-lo, fizeram-no chefe duma repartição. A filha não quis mais tempo viver naquele inculto concelho, onde a eloquência de seu pai não tinha florido. Antunes viu-se embaraçado, tinha de um lado a política de seu sogro, do outro os figos de seu pai. Decidiu-se pela política de seu sogro, que o fazia segundo oficial das obras públicas, comércio e indústria, e abandonou os figos da sua infância”. Este é o quadro que define a vida da fantasmática figura que hoje nos ocupa e que igualmente deambula pela cidade com toda uma história que começa numas pedras de origem moura que em tempos descobriu numa leira de terra de seu pai e que lhe serviu de entrada para a Associação do Museu do Carmo, ainda que tenha preferido declara-se arquiteto em lugar de ficar-se como buscador de pedras antigas. E o que aconteceu? Numa véspera do dia em que se celebrava a “Aurora da Liberdade”, o 24 de julho, anos passados relativamente ao tempo em que decorria a ação descrita por Gervásio Lobato, algo ocorreu que causou grande alarido na pacata capital. Um guarda do Museu do Carmo, ao passar revista no fim do dia, às vetustas peças arqueológicas, para verificar se tudo estava bem e sem novidades, ouviu vozes de uma estranha ordem de comando. Ficou confuso e perturbado. Procurou tudo. Os sons eram difusos e estranhos, a voz era grave e sonora, provindo da zona medieval. Então foi dado o alerta. A verdade é que nenhuma das peças arqueológicas desaparecera, mas havia um mistério sério a resolver, que no episódio de hoje fica em suspenso…
Agostinho de Morais
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