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Museu do Chiado inaugura quatro exposições e quer abrir-se além fronteiras

A inauguração de quatro exposições, uma delas dedicada a Maria Augusta Bordalo Pinheiro (1841-1915), abre, na quinta-feira, a programação deste ano do Museu do Chiado, numa perspetiva de diálogo histórico com a atualidade que marcará o projeto da nova direção.  

© Lusa

“Linhas Cruzadas” dá título a esta exposição que põe no seu centro a artista Maria Augusta Bordalo Pinheiro, irmã de Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro, “duas figuras centrais da cultura do século XIX e XX em Portugal”, sublinhou Filipa Oliveira, diretora do museu.

Nesta exposição, obras pouco conhecidas da artista serão apresentadas no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC-MC) em diálogo com trabalhos das artistas Ana Silva, Joana Vasconcelos e Sonia Gomes, até 2 de maio.

“Eu queria que este primeiro início de ciclo no museu criasse um cruzamento entre o modernismo e a contemporaneidade, fazendo um arco temporal daquilo que é a missão do Museu do Chiado: estudar, investigar, expor e trabalhar a arte contemporânea em Portugal desde 1850, até ao presente”, sublinhou a diretora, que assumiu o cargo há um ano, em março de 2025, no quadro dos concursos internacionais de dirigentes realizados pela Museus e Monumentos de Portugal (MMP).

Irmã de duas personalidades destacadas da cultura da época, em Portugal, Maria Augusta Bordalo Pinheiro “acabou por ser uma figura completamente apagada da História da Arte, e o objetivo foi recuperar a sua obra de artista, designer, pedagoga, que viria a recuperar a arte das rendas de bilros e a abrir uma oficina própria para produzir e ensinar os seus desenhos em Lisboa”.

A artista foi a primeira diretora da Escola de Desenho Industrial Rainha D. Maria Pia, em Peniche, entre 1887 e 1889, mais tarde renomeada como Escola Industrial de Rendeiras Josefa de Óbidos, e teve um papel fundamental na recuperação e divulgação desta arte tradicional e na profissionalização deste trabalho feminino.

“Nesta grande exposição quisemos colocar Maria Augusta Bordalo Pinheiro em diálogo com três artistas contemporâneas cujo legado influenciou, uma delas muito diretamente: Joana Vasconcelos”, salientou Filipa Oliveira, recordando que a artista portuguesa esteve a trabalhar na recuperação da Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha.

Ali, Joana Vasconcelos “encontrou um pote feito pelo Rafael e pela Maria Augusta Bordalo Pinheiro, e percebeu a dimensão do seu trabalho extraordinário, inspirando-se muito, não só na sua ética profissional, mas também na recuperação das artes ditas menores e cruzamento com as artes ditas maiores, nomeadamente das rendas com a cerâmica”, apontou a diretora do MNAC-MC.

Quanto à artista angolana Ana Silva, e à artista brasileira Sonia Gomes, também representadas na exposição, “trazem uma memória cultural onde a renda era um momento de afirmação de um saber e identidade muito marcada no Estado Novo, que recuperaram também para questionar essa identidade nacional e a sua construção”, acrescentou.

“Esta exposição é muito um manifesto daquilo que eu gostava que o museu fosse: investigação historiográfica séria sobre a História da arte em Portugal, mas através de uma leitura contemporânea, com elos e ligações à contemporaneidade”, disse Filipa Oliveira, sobre a visão que marcará as programações futuras do museu criado em 1911, após a divisão do antigo Museu Nacional de Belas-Artes.

Nas quatro novas exposições estarão também dois jovens artistas que pela primeira vez apresentam obras numa grande instituição museológica: Jaime Welsh, com "A Oferta", e Mariana Duarte Santos, com "Calafrio", e ainda a proposta coletiva e performativa dos alunos de mestrado de Curadoria do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra na exposição “Anti-Isto. Manifesto-Poema”, ainda traçada pela direção anterior, de Emília Ferreira.

Jaime Welsh apresentará um trabalho sobre memória histórica, de como os edifícios do Estado Novo continuam a transmitir uma ideologia de poder, focando-se em particular na Biblioteca Nacional de Portugal, na Reitoria da Universidade de Lisboa e no Banco Nacional Ultramarino.

“A arquitetura de Cristino da Silva e o design de interiores de Daciano da Costa são exemplos de um trabalho extraordinário, mas que contêm em si uma história de poder [do Estado Novo], de como é transmitido e imposto nos espaços que ainda hoje habitamos”, referiu Filipa Oliveira.

Na galeria de projetos é também inaugurada, na quinta-feira, uma exposição da artista Mariana Duarte Santos, cujo trabalho se desenvolve sobretudo em mural, e que irá transpor essa sua imagética para telas.

Além das exposições, o MNAC-MC irá assinalar a seguir a estas inaugurações, no dia 03 de março, a doação de um conjunto importante de cerca de 360 obras de arte moderna e contemporânea da coleção de Alberto Caetano e, no dia 7, deverá inaugurar a exposição de Adriana Molder que já esteve no museu no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco.

Para Filipa Oliveira, “é importante abrir a coleção do museu, fazê-la viajar em parceria com instituições nacionais e internacionais, para que seja partilhada com o público em geral, numa estratégia de abrir o museu à comunidade”.

Outra ideia forte do projeto da historiadora de arte e curadora é pensar “o que é um museu nacional, o seu papel e lugar, numa ideia de geografia porosa que mostra também um pensamento para além das fronteiras, tentacular, do que pode ser a história da arte portuguesa, ou de Portugal, e as influências fora do país”.

“O museu nacional tem de ir muito além do que é feito no seu território, mas esta ideia de uma história de arte de Portugal pode ser contada aqui, estendendo as fronteiras”, vincou a curadora, entre 2018 e 2025 programadora de Artes Visuais da Câmara Municipal de Almada, tendo a seu cargo a direção artística da Casa da Cerca, Galeria Municipal de Almada, Convento dos Capuchos e Solar dos Zagalos.

Ao mesmo tempo, o MNAC-MC irá desenvolver parcerias com escolas e outras instituições como museus e universidades, para “reforçar uma programação de atividades paralelas para vários públicos”, desde festivais, seminários e conferências.

“Tem sido uma relação muito difícil com a Faculdade de Belas Artes, aqui ao lado, mas o nosso objetivo é conseguir criar laços afetivos. É uma questão muito importante para mim”, comentou ainda a diretora.

Questionada sobre o ponto da situação do projeto das obras de remodelação e ampliação do Museu do Chiado – no valor de oito milhões de euros – que a MMP anunciou em novembro de 2024 não irem avançar por falta de financiamento, Filipa Oliveira disse que “continua caído”.

O projeto tinha sido anunciado em janeiro de 2023 pelo ministro da Cultura do Governo socialista Pedro Adão e Silva, com o objetivo de duplicar as áreas de reservas e expositivas do museu dotado de um acervo de quase 6.000 peças de arte, desde 1850 à atualidade.

“Estamos a tentar conjeturar esforços equipas e boas vontades para voltar a pôr esse projeto em cima da mesa, porque é essencial para o museu ter uma unificação, ganhar espaço e ter outra dignidade, já que está inserido numa área muito central da capital, ao lado do Teatro Nacional de São Carlos, do Teatro São Luiz, muito perto do Museu do Design e do Teatro Nacional D. Maria II”, sublinhou.

Filipa Oliveira salientou ainda o “apoio central e providencial” da Fundação Millennium BCP para desenvolver a programação e recuperação do espaço do Museu do Chiado, instalado no Convento de São Francisco, cujo acervo integra mais de 6.000 peças de arte, incluindo pintura, escultura, desenho, fotografia e vídeo.

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Fonte: LUSA | 24 de fevereiro de 2026

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