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Óscares premiaram a América que está em "Batalha Atrás de Batalha"

Paul Thomas Anderson consagrou-se, depois de 14 nomeações. "Pecadores" foi o segundo mais premiado da noite.

"Batalha Atrás de Batalha" foi o grande vencedor dos Óscares de 2026 © Chris Torres/EPA

"Batalha Atrás de Batalha" confirmou o favoritismo imparável que adquiriu ao longo de toda a época de prémios, em que triunfou na maioria dos colégios de eleitores, e levou seis Óscares para casa - mais do que qualquer outra longa-metragem a concurso este ano - incluindo o tão cobiçado Melhor Filme, na 98.ª gala dos prémios da Academia de Cinema norte-americana, que se realizou este domingo, no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Três destas estatuetas foram entregues à mesma pessoa: Paul Thomas Anderson. A vontade de consagrar um dos nomes mais relevantes do Cinema norte-americano contemporâneo, depois de 14 nomeações, terá sido um fator importante.

Aliás, esta é uma tendência da Academia que se repete pelo terceiro ano consecutivo. "Oppenheimer" permitiu a consagração de Christopher Nolan, em 2024, e "Anora" fez o mesmo por Sean Baker, no ano passado. Ficaremos atentos para perceber se, em 2027, o colégio dos Óscares vai escolher premiar outro cineasta de provas dadas.

No entanto, desengane-se quem possa assumir que "Batalha Atrás de Batalha" é apenas um prémio de carreira.

Trata-se de (mais) uma grande obra de Paul Thomas Anderson, com uma ambição técnica só superada pela sua execução, um elenco ultra-carismático - que valeu a Cassandra Kulukundis o primeiro Óscar de Melhor Casting de sempre - e um argumento colorido de frases que ficam na memória (Melhor Argumento Adaptado foi, de resto, a categoria que rendeu a Paul Thomas Anderson o primeiro Óscar da noite e da carreira). Pelo meio, Sean Penn conseguiu o seu terceiro Óscar, vencendo em Melhor Ator Secundário por assumir o papel de um antagonista marcante.

"Batalha Atrás de Batalha" chega no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump. É um filme que aborda temas como a supremacia branca, abre com uma sequência em que revolucionários salvam imigrantes latino-americanos do exército norte-americano e o palco do ponto intermédio da narrativa é um confronto nas ruas de uma pequena localidade entre agentes da autoridade e manifestantes.

No entanto, o filme foi produzido antes de Donald Trump ter sido sequer eleito. A verdade é que "Batalha Atrás de Batalha" fala da América atual, porque na verdade está a falar da América de sempre. É um filme que tem tanto de atual, como intemporal, e esta dupla faceta, somada a um mérito artístico evidente, tornou o filme inevitável.

A multiculturalidade de "Pecadores" fez História

Quando Ryan Coogler decidiu largar as franquias da Marvel e de "Creed" para realizar um filme de terror sobre vampiros e blues estaria longe de imaginar que tal façanha recebesse o maior número de nomeações de sempre numa gala de Óscares.

O terror é, de resto, um dos géneros mais desdenhados pela Academia, mas desta vez a tendência quebrou-se. Amy Madigan venceu Melhor Atriz Secundária por uma interpretação exuberante de uma bruxa que rapta crianças em "Weapons". E "Frankenstein" pela mente de Guillermo Del Toro conquistou três Óscares, todos relacionados com departamentos de Arte: Design de Produção.

Já "Pecadores" chegou à cerimónia com 16 nomeações. Uma marca histórica que celebra a multiculturalidade que caracteriza os Estados Unidos da América - e cada vez mais a maioria do mundo globalizado - sem deixar de alertar para os perigos da assimilação e homogenização dessas mesmas diferenças. E se é certo que, estando presente em tantas categorias, perdeu a maioria delas, não se pode considerar "Pecadores" um derrotado, até porque foi o segundo filme mais premiado da noite e essas vitórias tiveram impacto.

Ryan Coogler não venceu Melhor Realizador - talvez esse prémio fique para outro ano -, mas leva para casa a estatueta de Melhor Argumento Original. É o segundo afro-americano a conseguir uma vitória nas categorias de escrita, depois de Jordan Peele e o seu "Foge!".

Michael B. Jordan também chegou a um novo ponto alto de uma carreira que já vai longa, conquistando o Óscar de Melhor Ator, por uma dupla prestação que, certamente, ficará na memória. Há poucos meses, o grande favorito era Timothée Chalamet em "Marty Supreme", mas as polémicas mediáticas atormentaram esta campanha e "Pecadores" ganhou ímpeto nas semanas decisivas.

Mas o nome que deixa a maior marca na História é de Autumn Durald Arkapaw. É a primeira vez que uma mulher venceu o Óscar de Melhor Fotografia. A própria assumiu o peso deste feito no seu discurso de vitória, quando pediu a todas as artistas femininas na sala para se levantarem, porque, sem elas, não tinha chegado aquele palco.

Quem já está bem habituado a ganhar é o compositor sueco Ludwig Goransson, que ganhou, pela terceira vez, o Óscar de Melhor Banda Sonora e consagra-se cada vez mais como o grande nome da década no que toca à música no Cinema.

Da Noruega ao K-Pop

Como um bom guião, o monólogo de abertura, em que Conan O'Brien assinalou que artistas de 31 países estavam nomeados para pelo menos um prémio, serviu de pronúncio para o que seriam as opções diversificadas da Academia, ao longo da noite.

O "Valor Sentimental" de Joachim Trier venceu em Melhor Filme Internacional, consagrando Joachim Trier como uma das vozes mais ricas do cinema nórdico e europeu. É a primeira vez que a Noruega conquista este Óscar.

O documentário "Mr Nobody Against Putin" também subiu a palco, assim como o seu cineasta russo, para receber uma estatueta e deixar uma mensagem de paz.

O canadiano "The Girl Who Cried Pearls" mereceu o Óscar de Melhor Curta-Metragem de Animação. E na Curta-Metragem de Imagem Real um filme norte-americano e um filme falado em francês empataram. "The Singers" e "Two People Exchanging Saliva" dividiram o prémio, num insólito que só aconteceu em mais outras seis ocasiões, em 98 anos de Óscares.

E, claro, o fenómeno "Guerreiras do K-Pop" protagonizou alguns dos momentos mais altos da noite, desde a interpretação ao vivo do single "Golden", que acabou por vencer Melhor Canção Original, ao discurso emotivo da realizadora Maggie Kang, quando foi a palco receber o prémio de Melhor Filme de Animação: "Desculpem ter demorado tanto tempo para nos verem num filme como este. Isto é para a Coreia e para todos os sul-coreanos", declarou.

Já a Disney continua a tendência negativa dos últimos anos e, apesar de levar "Zootrópolis 2" e "Elio" para a disputa, vai já em quatro anos seguidos a perder o Óscar de Melhor Animação.

Já o brasileiro "O Agente Secreto" não teve a mesma sorte de "Ainda Estou Aqui e acabou por ir para casa de mãos vazias, apesar das quatro nomeações.

Numa gala em que, por diversas vezes, lançaram-se farpas às novas tecnologias e formatos em que se produz e consome Cinema, a maior inovação veio mesmo na secção In Memoriam. Pela primeira vez, para lá da montagem geral que reúne algumas das figuras da indústria do Cinema que morreram no ano passado, houve espaço para tributos personalizados.

Billy Crystal reuniu em palco alguma estrelas dos clássicos de Rob Reiner, alegadamente assassinado em casa, junto com a mulher, pelo filho mais velho. Rachel McAdams destacou a carreira de Catherine O'Hara e Diane Keaton e a sequência terminou com Barbara Streisand a cantar o tema do filme "O Nosso Amor de Ontem", em honra de Robert Redford.

Ao todo, o In Memoriam durou cerca de 14 minutos, um dos mais longos da história dos Óscares.

Veja a lista completa dos vencedores:

  • Melhor Filme: "Batalha Atrás de Batalha"
  • Melhor Realização: Paul Thomas Anderson, "Batalha Atrás de Batalha
  • Melhor Ator: Michael B. Jordan, "Pecadores"
  • Melhor Atriz: Jessie Buckley, "Hamnet"
  • Melhor Ator Secundário: Sean Penn, "Batalha Atrás de Batalha"
  • Melhor Atriz Secundária: Amy Madigan, "Weapons"
  • Melhor Argumento Original: Ryan Coogler, "Pecadores"
  • Melhor Argumento Adaptado: Paul Thomas Anderson, "Batalha Atrás de Batalha"
  • Melhor Fotografia: Autumn Durald Arkapaw, "Pecadores"
  • Melhor Montagem: "Batalha Atrás de Batalha"
  • Melhor Design de Produção: "Frankenstein"
  • Melhor Guarda-Roupa: "Frankenstein"
  • Melhor Maquilhagem: "Frankenstein"
  • Melhor Som: "F1"
  • Melhor Banda Sonora: Ludwig Goransson, "Pecadores"
  • Melhor Canção Original: "Golden", "Guerreiras do K-Pop"
  • Melhores Efeitos Especiais: "Avatar: Fogo e Cinzas"
  • Melhor Curta-Metragem em Imagem Real: "The Singers" e "Two People Exchanging Saliva"
  • Melhor Documentário: "Mr. Nobody Against Putin"
  • Melhor Curta-Metragem Documental: "All the Empty Rooms"
  • Melhor Filme de Animação: "Guerreiras do K-Pop"
  • Melhor Curta-Metragem de Animação: "The Girl Who Cried Pearls"
  • Melhor Filme Internacional: "Valor Sentimental"
  • Melhor Casting: "Batalha Atrás de Batalha"

por João Malheiro in Renascença | 16 de março de 2026
Notícia no âmbito da parceira Centro Nacional de Cultura | Rádio Renascença
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