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"Memórias de Abril" resgata e contextualiza os documentos que fizeram a Revolução

O livro “Memórias de Abril” conta a história da Revolução portuguesa através dos seus documentos fundadores, desde o Programa do MFA até à Constituição, agora reunidos e contextualizados num só volume, que chega às livrarias no dia 16.

Editado pela Tinta-da-China e escrito pelo economista José Maria Brandão de Brito, pela historiadora Maria Fernanda Rollo e pelo jurista Guilherme d’Oliveira Martins, este livro aborda o contexto que antecedeu a revolução do 25 de Abril e analisa os acontecimentos que se sucederam, tendo sempre por base os documentos produzidos na altura.

Desde o fundador Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) portuguesas até à Constituição da República aprovada em 02 de abril de 1976, a obra vai às origens, percorrendo comunicados, manifestos, telegramas, abaixo?assinados e muitos outros documentos, que mostram a sua contribuição, “muitas vezes decisiva”, para a revolução e para o tempo que se lhe seguiu.

O “Documento dos Nove”, o documento do COPCON, a Lei da Descolonização, a renúncia de Spínola e os discursos de Vasco Gonçalves no I Congresso da Intersindical, são alguns dos documentos constantes deste livro que, mais do que constituir-se como um simples arquivo ou roteiro, revela uma preocupação em discuti-los e contextualizá-los, como explica a própria editora.

O que torna a abordagem deste livro inédita é precisamente essa curadoria de documentação que vai de 1973 a 1976, organizando-a como fio condutor da história da Revolução dos Cravos, ou seja, junta material disperso e transforma-o num livro interpretado e cronológico.

Como explicam os próprios autores na introdução, “Memórias de Abril” nasce da intenção de assinalar os 50 anos do Revolução de 25 de Abril de 1974 através da recuperação e análise dos principais documentos produzidos antes e depois desse momento, tendo como fio condutor o Programa do MFA.

Os autores procuraram regressar às origens reunindo documentos “esquecidos pela poeira do tempo” e destacando o papel decisivo que tiveram na queda da ditadura do Estado Novo e na construção do período revolucionário.

A obra começa por abordar o contexto que antecede o 25 de Abril, nomeadamente o desgaste provocado pela guerra colonial e a forma “desajeitada” como o governo de Marcello Caetano tentou lidar com a situação, gerando um conflito entre oficiais milicianos e do quadro.

Aliás, o primeiro capítulo, intitulado “Origens”, identifica exatamente a guerra colonial como o elemento central que conduziu à revolução, na medida em que, ao longo do tempo, foi gerando um crescente mal-estar que acabou por funcionar como detonador do Movimento dos Capitães.

Embora esse movimento só tenha surgido no início da década de 1970, já desde finais os anos 1950/60 existiam sinais de inquietação no meio militar relativamente à questão colonial.

Essa reação corporativa evoluiu para uma consciência política de que a guerra estava perdida, originando, no final de 1973, um movimento com o objetivo claro de derrubar o regime.

Para tal, contribuíram também fatores internos como o descontentamento social, num país pobre, cada vez mais isolado internacionalmente e politicamente fragilizado, a convergência de setores da oposição antes dispersos, ações simbólicas de contestação - como a vigília da Capela do Rato (1972) e a publicação de “Portugal e o Futuro” por António de Spínola (1974) - greves, manifestações e o fortalecimento do movimento sindical clandestino.

Os autores prosseguem depois com a análise dos acontecimentos e documentos desde o 25 de Abril até à aprovação da Constituição, incluindo o processo de descolonização e o fracasso da tentativa de António de Spínola de controlar o poder e travar esse processo, culminando na sua demissão.

Paralelamente a este “processo mais ou menos convulso que se ia desenrolando”, houve uma tentativa de estabilizar a economia através do Programa de Política Económica e Social (PPES), que teve curta duração.

O livro atravessa o conflito entre setores moderados, saudosistas do antigo regime e forças revolucionárias, que se intensificou até à tentativa falhada de golpe de Spínola a 11 de março de 1975, que abriu caminho a uma fase de maior radicalização.

Medidas como nacionalizações, reforma agrária e convocação de eleições para a Assembleia Constituinte fizeram parte do processo revolucionário e, nesse contexto, surgiram vários documentos representativos das diferentes correntes políticas e militares, como o Plano de Ação Política e o Documento-Guia.

Os autores destacam, entre estes, o “Documento dos Nove”, promovido pela ala moderada do MFA, que defendia uma transição mais prudente para o socialismo e para uma democracia representativa.

Em oposição, setores mais radicais apresentaram propostas como o documento do COPCON, ligado a organizações da esquerda revolucionária, que defendia o poder popular.

Este período foi marcado por forte polarização, com discursos inflamados, como os de Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves, e uma crescente instabilidade que colocou o país próximo de uma guerra civil.

Após uma fase de tensão crescente, houve um novo momento decisivo, a 25 de novembro de 1975, com a vitória das forças moderadas, que permitiu iniciar um processo de estabilização, desacelerar o PREC e avançar na normalização política.

Este período culminou com as eleições que levaram à formação do I Governo Constitucional, no ano seguinte, liderado por Mário Soares, marcando o estabelecimento de um regime democrático estável.

Nas palavras da editora, “‘Memórias de Abril’ é um verdadeiro roteiro para retirar do esquecimento e valorizar os documentos que também fizeram o 25 de Abril, discuti?los, contextualizá?los, recordá?los como consequência e memória dos vibrantes anos em que a liberdade foi o caminho escolhido e acabou por triunfar”.


Fonte: Agência Lusa | 7 de abril de 2026

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