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Rita Lello põe em cena "Verdadeiro Oeste", que define como obra-prima de Sam Shepard

A rivalidade e a inversão de papéis entre dois irmãos antagonistas fazem a essência de “Verdadeiro Oeste”, peça de Sam Shepard, encenada por Rita Lello, que se estreia na próxima quinta-feira, na Sala Estúdio do Teatro da Trindade, em Lisboa.

Esta é a terceira incursão de Rita Lello no universo dramatúrgico do escritor norte-americano, depois de em 2019 ter posto em palco “Uma réstia de temor – Variação sobre Édipo”, quase dez anos depois de ter encenado “Angel city”, ambas no Teatro Cinearte, sede de A Barraca, em Lisboa.

Em declarações, Rita Lello explicou que regressou agora ao universo de Shepard por ser um autor de que gosta muito e por sempre ter querido encenar “Verdadeiro Oeste”, que considera "uma espécie de obra-prima".

Para Rita Lello, "Verdadeiro Oeste" é, no mínimo, “uma das peças mais importantes” do autor de ”Criança enterrada”, distinguida em 1979 com o Prémio Pulitzer.

"Verdadeiro Oeste" traz para palco “dois assuntos” que Rita Lello considera muito importantes na obra do autor: “A problemática da família, a chamada doença da família, um tema tratado em muitas das suas peças e que designa como a doença da família americana - que já não é apenas americana, já é ocidental - e criatividade artística 'versus' as obrigações impostas pela indústria do entretenimento”.

Dois temas que, segundo Rita Lello, Sam Shepard consegue fazer confluir com mestria, "no enredo e no conflito” de “Verdadeiro Oeste”.

Numa espécie de "'western indoor' cheio de humor e mordacidade, Shepard esconde o traço autobiográfico, desdobrando-se em dois irmãos antagonistas", embora um não sobreviva sem o outro, "pois são as duas faces da mesma moeda", como descreve a sinopse da obra.

"Sobreviventes desesperados numa sociedade agreste, cada um persegue como pode o Sonho Americano: Austin, resignado e subserviente, verga-se às normas da indústria voraz de Hollywood; Lee vive a ideia de uma liberdade sem lei, alimentada por ilegalidade e violência, herdeira do 'Destino Manifesto' dos pioneiros na conquista hegemónica do Oeste".

Num universo familiar inóspito, recorrente na dramaturgia de Shepard, a obra "domina a ausência", ainda segundo a sinopse: "A ausência física do pai e a ausência emocional da mãe. E numa sociedade guiada por um sistema liberal em que prevalece a lei do mais forte, forma-se a tempestade perfeita para a violência que, a galope, avança, destruindo o que resta do mundo destes irmãos num combate singular".

Escrita em 1980, “Verdadeiro Oeste” é uma comédia negra, com a ação a decorrer na casa da mãe dos irmãos Austin e Lee, nos subúrbios de Los Angeles.

Austin (André Nunes), empenhado na escrita de um argumento para um filme de Hollywood, é perturbado pela chegada do irmão mais velho, Lee (Martim Pedroso), que regressa após três meses no deserto.

A conveniência forçada entre os dois irmãos na casa da mãe acaba por se transformar num duelo psicológico onde se questiona o “sonho americano”, num texto pautado por humor negro e “ironia refinada”, tão característicos de Shepard, observou a encenadora.

Para Rita Lello, Sam Shepard, “de alguma maneira acaba por se dividir nestes dois irmãos em conflito”.

“Enquanto Austin, de alguma maneira, representa a parte mais domesticada, digamos, do Sam Shepard, a parte que tem prazos a cumprir e os cumpre e que, de alguma maneira, compactua com essas normas da indústria ou tenta compactuar com essas normas que a indústria impõe e que são também normas temáticas”, do outro lado está Lee, “o 'bad boy', o quase semi-marginal“, lado em que “Shepard também tinha um pezinho”, além do grande fascínio que sempre demonstrou por essas personagens “perdidas e despojadas de privilégios".

Sobre o enquadramento destas personagens na sociedade atual e, sobretudo na europeia, Rita Lello mostra-se convicta de que “representam duas fações do nosso destino”, quase "desde quando nascemos".

“O nosso caminho, e para o qual temos de contribuir, mas que na verdade não escolhemos, porque também vai depender do sítio onde nascemos”, argumentou.

Um caminho que, para a encenadora, “ou vai para um lado, e somos pessoas que cumprem as regras que a sociedade nos impõe, ou vai para outro, e acaba-se por ser empurrado para uma zona de marginalidade”.

Ainda que às vezes, as regras que a sociedade nos impõe “sejam excessivas ou de alguma maneira castradoras da nossa liberdade”, e não nos sejam impostas sequer para “nosso benefício, mas para o benefício de uma indústria maior, seja ela qual for, e de um capital maior”; impostas “pela economia de mercado e pelo liberalismo, mais do que pelas nossas próprias necessidades”.

Se o Estado “fosse um bocado mais cuidador, como deve ser”, talvez a situação que aqueles dois irmãos vivem, e que pode acontecer noutros casos, “talvez fosse diferente”, frisou.

Rita Lello exemplifica com o caso de Austin como “o preocupado com todas as coisas, afogado em todas as necessidades que o mundo capitalista/liberalista nos impõe”, enquanto do lado oposto está o “desprivilegiado que, seja por que razão for (..), acabou empurrado para uma zona de marginalidade”.

Considerado um dos grandes nomes da dramaturgia norte-americana contemporânea, Sam Shepard (1943–2017) foi ator, dramaturgo, argumentista e realizador. Escreveu mais de 40 peças de teatro, 11 das quais galardoadas com prémios Obie, que distinguem a melhor produção teatral independente norte-americana.

Entre as muitas distinções, Shepard recebeu a Medalha de Ouro para Teatro da Academia Americana de Artes.

Como ator, participou em mais de 60 filmes, como "Flores de Aço" e "Diário de Uma Morte Anunciada", tendo sido nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário em “Os Eleitos” (1983). Foi ainda autor do argumento do filme “Paris, Texas”, de Wim Wenders, Palma de Ouro de Cannes.

Com encenação e tradução de Rita Lello, que também assina a cenografia, “Verdadeiro Oeste” tem interpretações de André Nunes, Heitor Lourenço, Martim Pedroso e Valerie Braddell.

No desenho de luz está Ricardo Campos, na sonoplastia, Carlos Morgado e, nos figurinos, João Telmo.

“Verdadeiro Oeste”, que se estreia no dia 23, quinta-feira, vai ter récitas de quarta-feira a domingo, às 19:00, e fica em cena até 07 de junho, na sala Estúdio do Trindade, em Lisboa.

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Fonte: LUSA | 19 de abril de 2026

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