"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

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"Fazer de Estátua"

Uma história inédita do grande escritor alemão, descoberta por Hilke Ohsoling, colaboradora de longa data do autor que em 1999 recebeu o Prémio Nobel da Literatura.

Quando um dia perguntaram a Umberto Eco que figura histórica feminina, do mundo da arte, ele escolheria, se pudesse, para jantar com ele, o escritor respondeu: Uta de Naumburgo. O mesmo se passa com o narrador desta história. No final da década de 1980, encontrando-se em viagem pela República Democrática Alemã, onde apresentava a sua obra mais recente, o narrador depara, na catedral de Naumburgo, com a mulher mais bela da Idade Média, uma das doze estátuas que representam os fundadores daquela igreja. E como tudo é possível numa folha de papel, convida todos os modelos para um almoço no seu jardim – todas as personagens que um dia haviam inspirado o mestre artesão do século XIII a criar aquelas esculturas tão próximas dos originais.

Pois bem, é durante esse repasto que o narrador se deixa encantar pela filha de certo ourives, precisamente a rapariga que servira de modelo à figura de Uta. A mesma jovem que, num ousado salto cronológico, ganha agora vida, no momento presente, fazendo de estátua nas praças de Colónia, Milão ou Frankfurt. O narrador fica tão obcecado pela jovem que a procura por toda a parte, satisfazendo-lhe até, por fim, um pedido com desfecho fatídico.

Concebida inicialmente para integrar um dos capítulos de Descascando a Cebola, esta narrativa foi descoberta há pouco tempo por Hilke Ohsoling, colaboradora de longa data de Günter Grass. O texto encontrava-se entre os materiais arquivados, não numa gaveta qualquer, esquecida e empoeirada.

Já havia, porém, indícios da existência de Fazer de Estátua, referências encontradas em manuscritos do arquivo, em projetos de trabalho ou litografias, num conjunto de esculturas presente na oficina de trabalho de Grass.

Uma narrativa de grande subtileza, até agora desconhecida do público-leitor.

«O que hoje resta são escombros duros de betão, transformados em peças de museu. Quando o muro estava, porém, ainda de pé, fazendo como que parte da paisagem e lançando a sua sombra sobre os dois lados, quando as duas potências continuavam em estado de alerta, prontas a tocar a rebate, ainda que já só em surdina, eis que recebo por correio um convite, a que não dei, a princípio, grande importância.

Nomes de cidades antigas e sombrias – Magdeburgo, Halle, nas margens do rio Saale, Jena e Erfurt – anunciavam uma viagem a um passado longínquo.

Os requerimentos tinham dado entrada, havia que ter paciência. Enquanto aguardávamos autorização para passar a fronteira e entrar no seleto Estado operário-camponês, comecei timidamente a folhear as minhas memórias medievais, imaginando comensais distintos e variados, bem como pratos de carne bem apimentados e toda a espécie de alimentos em salmoura, acompanhados de papas de trigo-sarraceno e milho-miúdo adoçadas com mel. Quando, após as demoras do costume, os documentos devidamente carimbados chegaram às nossas mãos – a entrada fora-nos negada duas vezes –, já todo o itinerário estava delineado e as várias etapas estudadas. Fixámos duas breves paragens no nosso caminho, destinadas a visitar, de passagem, Quedlimburgo e Naumburgo, cidades cuja história estava enterrada nos livros de escola da minha juventude.» 

Günter Grass nasceu em Danzig (atual Gdansk, Polónia), a 16 de outubro de 1927, e morreu em Lübeck, Alemanha, a 13 de abril de 2015.

Escritor, poeta, dramaturgo, ensaísta, escultor e artista gráfico, recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1999, tornando-se um dos mais relevantes autores alemães contemporâneos.

Em 1959, o seu romance O Tambor de Lata dá-lhe notoriedade internacional, ao mesmo tempo que desencadeia nos meios alemães um aceso debate sobre a guerra e a herança nazi.

Foi adaptado ao cinema pelo realizador Volker Schlöndorff, vencendo o Óscar de melhor filme estrangeiro de 1979.

Grass, com uma escrita sensual e plena de humor, por vezes apelando à fantasia e ao delírio surrealista, é ainda autor de outros títulos marcantes como A RatazanaO Gato e o RatoEscrever Depois de AuschwitzA Passo de CaranguejoEm Viagem de Uma Alemanha à OutraO Meu SéculoDescascando a CebolaA CaixaO Pregado e Sobre a Finitude.

O manuscrito Fazer de Estátua foi encontrado recentemente no espólio do autor.

Literatura Traduzida
96 páginas
18,00 Euros
ISBN: 978-972-20-8761-2
1.ª Edição: Abril 2026
Dom Quixote | Leya

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