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"o enforcado de cabeça para baixo – e outros contos moribundos"
Terceiro livro publicado de Diogo Marnoto Ferreira, sempre em edição de autor. Trata-se de uma compilação de 12 contos.
«Entre ser um escritor maldito e um homem maldito, prefiro o primeiro.»
Diogo Marnoto Ferreira
Diogo Marnoto Ferreira publica o seu terceiro livro “o enforcado de cabeça para baixo – e outros contos moribundos”, uma compilação de doze textos que têm a morte como assunto fulcral.
Ao longo desses contos, Diogo Marnoto Ferreira pega nessa coisa chamada morte – «que é o objetivo da vida, que fascina uns e apavora outros», diz o autor – e dá-lhe, nas suas narrativas, contornos cómicos, trágicos, dramáticos, oníricos ou surreais.
Sobre a escolha do título, o autor revela que «“o enforcado de cabeça para baixo” é um dos contos que nunca partilhei com o público, apenas com um pequeno grupo de pessoas de confiança que me lê antes de todo o resto.» Continua: «Acho que é um título sugestivo, que evoca paradoxalidade e comicidade. É, aliás, um dos contos cómicos, com um fundo sério, deste conjunto. Não quero abrir muito o jogo, mas é sobre alguém que anda saturado com a sua existência e coloca-se numa situação que o faz pensar na vida de uma forma mundana e humana, roçando até o ridículo. Daí para a frente, salvo uma ou outra exceção, estes contos que aqui reúno são, na minha perspetiva, uma descida ao mais sombrio que a minha mente conseguiu engendrar no momento em que os escrevi. Como referi nas apresentações dos meus dois livros anteriores, explorar o sofrimento é o que mais gosto na arte de escrever. Portanto, agora, é o que faço novamente.»
Na contracapa do livro lê-se que Diogo Marnoto Ferreira conversa todos os dias com a morte e é nela que se inspira. «Penso nisso todos os dias, sim», confessa. «Adoro viver, quero muito viver, mas penso na morte todos os dias. Por um lado é banal, porque acontece diariamente e é assim a vida, por outro é surpreendente, porque pode acontecer das mais variadas maneiras. Numa história, especialmente se for eu a escrevê-la, fascina-me o processo que determinada personagem percorre ao enfrentar a morte. Não é por acaso que “O Lobo das Estepes”, de Hermann Hesse, é um dos meus livros favoritos. Ponho-me mesmo no lugar dessas personagens que crio. Umas vezes comovo-me, outras vezes termino triunfante. Mas, e é muito importante, desligo quando coloco o último ponto final. Muito do que escrevo é obviamente um espelho de mim próprio, por causa de uma emoção ou episódio de vida concreto que me levou a escrever aquilo naquele momento, mas não carrego o peso do que crio no meu quotidiano. Entre ser um escritor maldito e um homem maldito, prefiro o primeiro.»
Ávido consumidor de música, filmes e livros, Diogo Marnoto Ferreira assume a máxima intemporal de que o ser humano não é uma ilha. «Compro muitos vinis e sento-me a ler as letras enquanto o disco roda. Black metal e gothic darkwave é o que mais consumo. Por mais estranho que possa parecer para quem está fora desse meio, estes dois obscuros géneros musicais têm uma faceta muito filosófica e rica em histórias.
Um simples verso, com meia dúzia de palavras, abre-me, muitas vezes, novos caminhos criativos que vão para além do conceito que se encerra nas estrofes que o letrista ali se propôs a escrever, e a partir daí consigo criar o meu universo paralelo. O mesmo se aplica aos filmes: por vezes, uma cena específica faz-me pensar que se podia ir por outro caminho, para uma nova história. Gosto muito desse exercício, que é apenas um pormenor em relação às minhas fontes de inspiração e influências, como coisas que vi e ouvi por aí ou que simplesmente invento. E ler muito. Aprendo imenso com outros escritores, de modo a enriquecer vocabulário e apurar a minha maneira de escrever. Cada escritor tem as suas idiossincrasias, que o faz diferente dos outros, e gosto de pensar que, com fãs ou detratores, também eu tenho as minhas.»
No fim, o autor ilhavense deseja, acima de tudo, que este novo livro «seja um bom momento de leitura», concluindo: «Quem me lê, que ria ou que chore, consoante a temática de determinado texto, que acabe de ler e fique a pensar no que leu, que se permita, enfim, fazer as suas interpretações do que não é assim tão óbvio. E isso é muito bonito.»
A compilação “o enforcado de cabeça para baixo – e outros contos moribundos” é uma edição de autor limitada a 100 exemplares. Conta com prefácio do dramaturgo David Calão (@davcalao), e a ilustração na capa é da autoria de Viviana Coelho (@echoechoillustrations).
À venda na redação do jornal O Ilhavense ou via Instagram do autor (@averno_immundo) a partir de 1 de julho. Reservas abertas.
Contos no livro:
o enforcado de cabeça para baixo
ajuda-me a desaparecer
não sei se consigo voltar para casa
as ondas que teimam em trazer-me de volta
a minha rua é uma (triste) alegria
o evangelho da infância segundo um ateu
o parto do fim do mundo
génesis 1:1-31
cada vez mais fundo, este é o meu inferno
o pesadelo do ser e o eterno inverno da razão
inocêncio - à espera da morte ou da revolução
strepitus mundi
Excertos
«O sr. Albano passou mais uma noite sem pregar olho e, através da janela que não tapou com o cortinado, assistiu ao nascer do Sol. De lado, em posição fetal, ali ficou deitado mais umas horas. Faltavam cinco minutos para as nove da manhã, ou seja, cinco minutos para pegar ao trabalho, e na cama se mantinha. Do escritório já nem se dignavam a ligar-lhe quando estava atrasado. Sabia que mais tarde ou mais cedo seria despedido, «se não me matar primeiro», dizia para si mesmo.» in “o enforcado de cabeça para baixo”
«Aqui estou, nu e inadequado, um recipiente de carne destinado a apodrecer como tantos antes de mim e como tantos que ainda estão por vir, para tomar o lugar que hei-de deixar vago. Mas antes, onde quer que estejas, deixa-me oferecer-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer algo com isso. Que a terra não me consuma já sem antes ouvires esta súplica. Fui orgulhoso, invejoso, egoísta e vil, e banqueteei-me de tudo com mordaz ganância. Mesmo assim, ofereço-te o meu amor, se é que ainda podemos fazer alguma coisa com isso, onde quer que estejas.» in “cada vez mais fundo, este é o meu inferno”
«É um horror cerebral pensarmos que não nos lembramos de nada antes de nascermos – nem mesmo dos primeiros anos em que já respirávamos e chorávamos por leite materno enquanto as primeiras cores, agora esquecidas, nos invadem os olhos – e temermos para onde poderemos ir quando cessarmos a nossa existência física. Pois que não tenhamos receio – será igual depois ao que foi antes: oco, vazio, inerte, indolor, nada.» in “o pesadelo do ser e o eterno inverno da razão”
«Habituamo-nos a que o barulho do mundo ribombe quando tudo rui, quando ficamos debaixo dos escombros, quando não há saída e quando as lágrimas são o único sustento. A derrota pode ser romântica, mas nunca gloriosa – e não nos contentemos com isso. Baixar os braços e os ombros, caminhar a olhar para o chão e empalidecer a cada afronta, tudo isso abafa o verdadeiro barulho do mundo.» in “strepitus mundi”
Tamanho A5
100 páginas
Acabamento de capa em brilho
100 exemplares
Edição de autor
Nota biográfica
Diogo Manuel Marnoto Ferreira nasceu a 20 de outubro de 1987 e é natural de Ílhavo.
Depois de trabalhar na área das telecomunicações, de 2008 a 2020, como técnico de qualidade de equipamentos de rede e aplicações web e móveis, surgiu a oportunidade de se dedicar a tempo inteiro ao jornalismo musical com a implementação, em Portugal, da revista britânica Metal Hammer enquanto meio de comunicação online. A pandemia, que se viveu na altura, levou a melhor e o projeto teve de ser terminado, durando de 2019 a 2021. Antes disso, cofundou a Ultraje Magazine, revista física dedicada a todos os espetros do heavy metal, publicada de dois em dois meses entre 2015 e 2019.
À data, trabalha desde janeiro de 2022 no jornal O Ilhavense como administrativo, onde também colabora com textos de opinião e crónicas.
Em 2023 publicou o primeiro conto “esta casa é para vender”. Em 2024 surgiu com “O Curandeiro da Morte”.
Enquanto autor, Diogo Marnoto Ferreira insere-se na categoria do conto de terror e do fantástico, sempre com uma inclinação à vontade de pensar a vida (e a morte) e à crítica social.
Publicações anteriores:
“esta casa é para vender” (2023)
“O Curandeiro da Morte” (2024)
(os títulos que aparecem com letras minúsculas são um propósito do autor, não alterar)

