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Lídia Jorge: o prodígio na Literatura
A propósito da atribuição do Prémio Camões 2026 a Lídia Jorge, Guilherme d'Oliveira Martins revisita o percurso literário e cívico de uma das vozes maiores da literatura portuguesa contemporânea.
A atribuição do Prémio Camões de 2026 a Lídia Jorge corresponde a um reconhecimento justíssimo que abrange a língua e a literatura portuguesas como fenómeno global, no âmbito de um humanismo universalista. O romance Misericórdia constituiu, de facto, um acontecimento no mundo da língua portuguesa com repercussões para além das fronteiras dos nossos países. É um texto tocante, que retrata a condição humana de um modo singular. As circunstâncias que rodearam a sua feitura, a ocorrência da pandemia e a morte da mãe a escritora, tornaram este livro um caso especial revelador de todas as qualidades da grande escritora.
Lídia Jorge estreou-se em 1980 com o romance O Dia dos Prodígios, que o romancista Vergílio Ferreira considerou como sendo o anúncio de que a narrativa portuguesa contemporânea prometia ganhar um novo fôlego. Tive, aliás, o gosto de testemunhar pessoalmente, perante os dois, a genuína admiração do autor de Aparição pela então jovem escritora, ciente das qualidades culturais e humanas dos dois, conhecendo-se bem a grande exigência que caracterizava o mestre. Os livros da escritora são expressão de um tempo de transição de uma sociedade fechada, a braços com uma guerra em África, no sentido da construção da democracia, com gradual aproximação da modernidade europeia. Sente-se em O Dia dos Prodígios que algo está a mudar gradualmente, num ambiente mágico e numa realidade em que o dia a dia decorre, com se o vivêssemos naturalmente, sem poder ficar indiferentes. A criação imaginativa prosseguiu com O Cais das Merendas, Noticia da Cidade Silvestre ou A Costa dos Murmúrios que constituem exemplos dessa transição, muito evidente, no sentido da maturidade. Sente-se que a reflexão da escritora progride à medida que os acontecimentos andam. “Conservar uma memória do passado, e depois caminhar na direção do futuro (diz-nos Lídia em diálogo com Carlos Reis)). Isto é, eu queria criar uma espécie de cápsula do tempo, para que aquele mundo ficasse ali, testemunhado, de forma tão viva quanto possível”.
E assim encontramos, nos começos da narrativa, o retrato do sul de Portugal, o Algarve antigo, “pobre e belo, arcaico e esplêndido, e por isso pus as personagens a falar com o seu sotaque…” Depois do testemunho do campo, vem a presença da cidade e o fenómeno urbano. É a sociedade portuguesa que vai evoluindo. E para a escritora há uma grande autonomia no modo de escrever, com uma preocupação de seguir um caminho próprio, sob múltiplas influências. Sente-se “uma geração cujas marcas evidentes estão à vista”. Assim, para o leitor do Brasil, podemos perceber que há marcas que permitem superar a distância.
O Vale da Paixão, O Vento Assobiando nas Gruas, Os Memoráveis. A criatividade continua e nesta última obra podemos repensar, sob o poder da metáfora, a importância da Revolução portuguesa de Abril de 1974.Aqui está a complexidade da criação da democracia, sob o impulso de um movimento militar que devolve à sociedade civil as rédeas de um poder. Estuário e Misericórdia permitiram à escritora interpretar a nossa sociedade e projetar-se internacionalmente. É importante que a sociedade portuguesa se dê a conhecer. É a condição humana que presente, e o mundo vai evoluindo. Para permitir ao leitor compreender e compreender-se. Daí a definição de Lídia Jorge por si própria como “cronista do tempo que passa”. No entanto é muito mais que isso. As personagens dos romances entram e saem, de mansinho, mas destacam-se pelas características fortes. De facto, a constante da sua escrita encontra-se nas personagens comuns, que partilham connosco angústias e dilemas. Algumas pessoas dizem até que têm passado por Vila Maninhos (o cenário dos prodígios), e que conhecem o cenário inconfundível do primeiro romance. Mas não é verdade. A escritora, contudo, nunca as corrige, apesar desse lugar só existir mesmo nas páginas do livro. Mas acha bonito, pois a ficção é sempre mais rica do que a realidade.
Afinal, os romances partem sempre das casas, das suas varandas e janelas, como um dia disse Luciana Stegagno Picchio… Aí começa a alma das pessoas e dos lugares. Olhem-se os temas como a finitude e o isolamento, tão presentes em Misericórdia eem reflexões recentes de Lídia. É o mistério das vidas humanas que está sempre em causa. Lembre-se o diálogo alucinante com Agustina sobre Orson Welles, com surpreendentes pormenores íntimos, onde a imaginação substitui a realidade ou a perplexidade de Maria Aliete Galhoz por Lídia se lembrar de uma descoberta no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa que a “descobridora” esqueceu.
O meu diálogo com Lídia Jorge tem sido muito fecundo, pelo conjunto das questões que nos ocupam. Quando ouvi as suas palavras na sessão solene do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas sobre os claros e escuros da memória coletiva dos portugueses concordei com a oportunidade das mesmas, num momento em que é indispensável reencontrar as nossas raízes mais fundas de Finisterra, no lugar de encontro de um povo que permanentemente parte e regressa, que se encontra e que se perde. Afinal, essa é a verdadeira aventura dos Descobrimentos, à distância do tempo. E a palavra Descobrimentos merece ser aprofundada. Não se trata de uma atitude de superioridade, mas da genuína aventura de procura do outro e do diferente. Falo da ideia de Descobrimento e atribuo-lhe três sentidos: ir ao encontro do que desconhecemos, procurar quem somos, e desenvolver a dimensão universal da dignidade humana. No entanto, corremos o risco da incompreensão, sobretudo quando os ventos que sopram no mundo parecem contrários a tal atitude de abertura e compreensão.
Quem somos e donde vimos? A identidade de portugueses corresponde a um melting pot, a um cadinho onde várias influências se misturam. Sem qualquer ilusão ou visão idílica de um tempo inexistente, a mobilidade caracteriza-nos ainda que tantas vezes não nos demos conta disso. Lembramo-nos do episódio do rei D. Luís a perguntar da amurada do seu iate a uns homens do mar que encontrou: “- Sois portugueses?”. Mas a resposta foi surpreendente: “- Não meu Senhor, somos pescadores da Póvoa de Varzim.”. E pensando em grandes símbolos nacionais temos o Infante D. Pedro, das Sete Partidas, irmão de Henrique, o Navegador, que foi ao encontro da Europa e abriu horizontes novos. De facto, a nossa independência fez-se sempre com curiosidade e sentido crítico. A comunicação correspondeu a uma relação com a incerteza e a diferença, quando partimos ou chegamos a casa, ou quando recebemos quem vem de novo. E o universo que nos caracteriza corresponde a como nos definimos, a como recebemos os outros, a como vamos sendo, ao longo da História, imperfeitos e impuros, resultado de encontros múltiplos. Afinal, a nossa língua nasceu fora do território português, na Galiza, e hoje enriquece-se pelas suas raízes e pela sua metamorfose permanente, criada de Norte para Sul e de Sul para Norte na Península Ibérica, projetada universalmente através dos crioulos múltiplos, que no Atlântico criou Cabo Verde, e no Índico originou o papiar cristão… Portugal tem as fronteiras mais antigas, o Estado precedeu a Nação e constituímos uma espécie de Nau de Ícaro, que não nos autoriza a considerar-nos melhores ou piores que os outros. Somos nós como um povo plural, com uma vontade a unir-nos, que se impõe do modo natural. É essa diversidade, é esse sentido crítico, é esse respeito que nos reúne, escolhendo uma epopeia poética, “Os Lusíadas”, como nosso Livro e um poeta como nosso símbolo.
Como Lídia Jorge lembrou em Contrato Sentimental (2009), desde o século XVI avolumou-se a ideia messiânica do viajante salvador. “Para nos salvar de apuros, sempre vinha a caminho o nosso Godot antes de o ser, aquele que abalava de longe, embrulhado num manto de transcendência para nos dar de mão beijada o que não éramos capazes de encontrar por nós próprios”. E com esse mito às costas, fomos recebidos pela Europa Comunitária, que acabou por ser o nosso D. Sebastião desencarnado. Obrigações, normas, regulamentos, relatórios e datas toraram-se a nossa bussola. Daí sermos convidados, com essas exigências, a sermos nós próprios, “confrontados com as nossas esperanças e incapacidades, gerindo-nos como um povo autónomo, embora não sozinho». E Lídia lembra-nos que quando entramos em dificuldades, “agitamo-nos perante os olhos de todos». O certo, porém, “é que agora não nos escapamos mais de nós mesmos». A mitologia da transferência de responsabilidade «para o passado, para o lado, para o futuro, para o invasor, o traidor, esse subterfúgio acabou”. Se há uma causa, ela existe entre nós. É um “banho de realidade” que não podemos ignorar, o que obriga a “um novo traçado para o nosso destino”. Assim, ouvimos o historiador Alexandre Herculano a dizer “Somos porque queremos, seremos enquanto quisermos”, definindo um caminho futuro de autonomia e responsabilidade. Não é mais possível um tempo de indiferença ou de ilusão. Há uma parceria que nos obriga á ação, com instituições mediadoras, participantes e representativas. Não de novo orgulhosamente sós, nem usando um messianismo fantasioso. Devemos agir com o que temos, usando o sentido crítico capaz de construir.
Lídia Jorge representa-nos, assim, através da reflexão e da literatura, ligando memória e fantasia, lembrança e sonho, recordando a presença dos grandes Navios da Terra que caracterizam este belo barrocal algarvio, entre o Mar e a Mata mediterrânica. E ouvimos a escritora em “Alfarrobeira no Caminho”: «Cheios de tempo, o Oceano combinou comigo que eu iria estender os meus braços na direção dos seus navios, e ele avançaria terra acima até chegar aos meus troncos».
Em boa hora foi atribuído o Prémio Camões, depois do Prémio Pessoa, a Lídia Jorge. Mas há uma leitura por fazer da sua obra multifacetada. Se houve quem se surpreendesse com a exigência permanente em compreender a dignidade humana nas suas consequências mais profundas, entendendo a relação com os outros e com as diferenças como natural consequência da humanidade, o certo é que há um contrato sentimental que continua a animar a escritora, na certeza da força das raízes fecundas e perenes de um imenso Portugal.
Guilherme d’Oliveira Martins

