Música
Xjazz anima Aldeias do Xisto
As Aldeias do Xisto vão encher-se de música jazz entre 20 de julho e 15 de setembro. Quatro concertos e uma residência artística convidam músicos de renome nacional e internacional a inspirarem-se no espírito dos lugares, dando asas à criatividade.
20 Jul a 15 Set 2019
William Parker, Hamid Drake, Luís Vicente, John Dikeman, Joana Espadinha, João Firmino, Maria Vilanueva, Vânia Couto, Yoshida Carvalho, Lucas de Centi e Luís Antero são os nomes que fazem parte do cartaz deste ano. Para quem gosta de jazz as Aldeias do Xisto proporcionam o ambiente perfeito para estas melodias.
Desde 2012, a ADXTUR– Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto e o JACC - Jazz ao Centro Clube, têm vindo a renovar o convite a artistas nacionais e estrangeiros para um período de imersão na realidade das aldeias, através de residências artísticas e concertos, cruzando identidade cultural, paisagens e as artes sonoras.
Se o espírito cosmopolita e de abertura das Aldeias ao Mundo continuam a ser uma característica fundamental, estando bem patente na abertura da temporada de 2019 com o concerto que junta os norte-americanos William Parker, Hamid Drake e John Dikeman (este último baseado em Amesterdão) e o trompetista português Luís Vicente, a corrente temporada abraça uma forte e assumida dimensão local, quer através do início das experimentações artísticas em torno do projeto Xisto Sonoro – Paisagens Sonoras das Aldeias do Xisto, do paisagista sonoro Luís Antero, quer pela residência artística de criação e gravação protagonizada por Vânia Couto e Maria Villanueva.
A oitava temporada destes Encontros nas Aldeias do Xisto reafirma a intenção de apresentar um programa artístico verdadeiramente enraizado no contexto e cultura dos lugares, beneficiando do seu contexto social e ambiental para momentos únicos de criação, fruição e partilha. A este propósito, vale a pena recordar que, ao longo dos últimos anos, as Aldeias do Xisto receberam perto de 40 concertos e 6 residências artísticas.
No âmbito das residências artísticas foram editados três discos: “Guitolão”, de Carlos Barretto e António Eustáquio (gravado na Aldeia do Xisto da Cerdeira, Lousã), “Xisto” do quinteto com Marcelo dos Reis, Angélica Salvi, Nuno Torres, Miguel Carvalhais e João Pais Filipe (gravado na Aldeia do Xisto da Cerdeira, Lousã) e o disco homónimo dos Slow is Possible (gravado na Aldeia do Xisto de Fajão, Pampilhosa da Serra). No prelo está o trabalho discográfico a solo (percussão e eletrónica) de Pedro Melo Alves, gravado em 2018, na Aldeia das Dez (Oliveira do Hospital).
O Xjazz continua, assim, a explorar a abertura deste território a contextos de criação e fruição artísticas, contribuindo para reforçar os atributos e valores das Aldeias do Xisto enquanto marca acolhedora da experimentação, da inovação e ponto de interseção daquilo que une os homens a si mesmos, aos lugares, à arte e à natureza.
PROGRAMA
WILLIAM PARKER / HAMID DRAKE / JOHN DIKEMAN / LUÍS VICENTE (EUA/Portugal)
Local: Fajão (Pampilhosa da Serra)
Data: 20 de julho
William Parker contrabaixo
Hamid Drake percussão
Luís Vicente trompete
John Dikeman saxofone
Duas gerações de músicos com percursos muito distintos encontram-se pela primeira vez*, no contexto dos Encontros de Jazz nas Aldeias do Xisto. William Parker é uma figura incontornável da história do jazz. Exímio intérprete, improvisador e compositor, toca contrabaixo, instrumentos de sopro de palheta dupla, tuba, donso ngoni e gembri. Nasceu em 1952, no Bronx, em Nova Iorque. Nessa mesma cidade, teve a oportunidade de estudou com os grandes mestres Richard Davis, Milt Hinton, Wilber Ware e Jimmy Garrison. Entrou na cena musical em 1971, em plena "loft scene", tocando lado a lado com músicos que então relançavam as bases do avant-jazz. Paralelamente, acompanhava músicos defensores da tradição jazzística como Walter Bishop, Sr. e Maxine Sullivan.
A partir de 1980 e até 1991, fez parte da Cecil Taylor Unit. Por esses anos, desenvolveu uma forte relação com a música improvisada de raíz europeia, tocando com músicos como Peter Kowald, Peter Brotzmann, Han Bennink, Tony Oxley, Derek Bailey, Louis Sclavis e Louis Moholo.
Em 1994 começou o seu trajeto enquanto autor, liderando ensembles como In Order To Survive e The Little Huey Creative Music Orchestra. Mais próximo de nós, encontramos múltiplos exemplos da amplitude do seu trabalho, em variados formatos, desde o solo à big band, preconizando sempre música desafiante que, não obstante, se deve “ligar” às pessoas.
Hamid Drake é três anos mais novo que Parker. Nascido no Sul dos Estados Unidos da América, foi em Evanston (Estado de Illinois) que cresceu para a música, sob a influência do saxofonista Fred Anderson, com quem viria a tocar durante largas décadas. Drake cultivou também parcerias duradouras com músicos como Don Cherry, Herbie Hancock, Archie Shepp, David Murray, Peter Brotzmann e William Parker (com quem gravou mais de vinte discos, em variadíssimos contextos). A sua pesquisa levou-o a estudar a música não ocidental, prestando especial atenção à música clássica indiana (tabla), à música africana e caribenha.
O saxofonista norte-americano John Dikeman é natural do Nebraska e cresceu na pequena Kemmerer, no Wyoming. Rumou depois para Nova Iorque e Filadélfia. Quando passou o Atlântico, não foi para uma metrópole europeia, mas sim para o Egipto, onde viveu 3 anos e se fez ouvir com toda a gente, desde a Orquestra Sinfónica do Cairo à estrela pop Mohamed Mounir. Viveu a última década em Amesterdão e é hoje parte integrante da cena musical da cidade. É ele o elo de ligação no grupo, dado que é parceiro frequente de Luís Vicente, mantendo também um trio com William Parker e Hamid Drake.
Luís Vicente editou o seu primeiro trabalho discográfico na JACC Records (o selo do Jazz ao Centro Clube) em 2012, tendo estado presente na primeira edição do Xjazz com esse trabalho (encerrando a temporada de 2012, na Casa da Obra, na Aldeia das Dez). De lá para cá construiu uma carreira sólida, com várias ligações internacionais. Nos últimos 12 meses, editou cinco discos com músicos de diferentes proveniências e passou largos períodos na estrada, atuando em variados países europeus.
Neste primeiro encontro, e desconhecendo-se ainda as coordenadas da música que ouviremos, uma coisa é certa: os quatro partilham não só um vocabulário comum, como também acreditam que a música “se faz no momento”, compondo a partitura em tempo real.
MARIA VILLANUEVA & VÂNIA COUTO “SIU KIU”, com Yoshida Carvalho e Lucas de Centi
Residência artística de criação/gravação + Concerto
Local: Barroca (Fundão)
Data: 23 de julho a 6 de agosto*
Maria Villanueva voz e guitarra
Vânia Couto voz e guitarra
Yoshida Carvalho baixo elétrico
Lucas de Centi vibrafone
*Apresentação pública a 4 de agosto
A criação artística e o envolvimento comunitário, assentes na imersão no território, estarão presentes na residência artística do projeto Siu Kiu,de Maria Villanueva e Vânia Couto. Maria e Vânia vão efetuar recolhas na Galiza e no Pinhal Interior e trabalharão também novos temas que gravarão nas Aldeias do Xisto, tendo como convidados especiais o baixista Yoshida Carvalho e o vibrafonista Lucas de Centi.
Cantora e instrumentista, Vânia Couto faz um trabalho ligado à world music e à Música Tradicional Portuguesa, pertencendo a projetos distintos, como Pensão Flor, Macadame, Branta, Tabacaria, e Mil Folhas (com César Prata). Apesar de alguma influência no Jazz, é na MPP que ela encontra a sua casa, tendo pertencido também ao GEFAC e a projetos de intvervenção artísica e cultural com Casa Da Música, Clara Andermatt e Madalena Vitorino.
Por sua vez, Maria Villanueva formou-se em Guitarra Clássica no Conservatório Superior de Música de Vigo. Depois da licenciatura (em Santiago de Compostela), rumou para a Suíça, onde concluiu o seu Mestrado em Performance Musical na Hochschule der Künste Bern. Colabora em diferentes projetos como o “Coro da Rá”, o “Dúo 2028”, o “Dúo Font/Villanueva”. De 2016 a 2019 residiu em Lisboa, onde estudou na Escola Superior de Música, na vertente de Jazz.
Mesmo antes do período de residência artística (que se inicia a 23 de julho), Vânia e Maria irão recolher reportório tradicional que servirá de base ao trabalho que irão gravar na Barroca.
As recolhas de músicas tradicionais galegas terão lugar perto da fronteira com Portugal, em Ponteareas e Mondariz. Serão guiadas por Ilda Amoedo, gestora do Centro de Recuperación da Cultura Popular de Ponteareas, com sede no Castelo de Vila Sobroso.
As recolhas de músicas tradicionais portuguesas estarão centradas terão no território das Aldeias do Xisto, onde têm especial relevância o trabalho de Leonor Narciso e das Adufeiras do Paúl.
JOÃO FIRMINO E JOANA ESPADINHA
Local: Gondramaz (Miranda do Corvo)
Data: 24 de agosto
João Firmino guitarra e voz
Joana Espadinha voz
Os seus caminhos cruzaram-se há muito e a sua cumplicidade tem vindo a ser forjada em projetos partilhados há mais de uma década. Primeiro na área do Jazz e, hoje em dia, movendo-se livremente por territórios da música pop, os nomes de João Firmino e Joana Espadinha tornaram-se reconhecidos do grande público. Neste concerto, na Aldeia de Gondramaz, aceitaram o nosso desafio para atuar em duo, realçando o seu trabalho instrumental e vocal de excelência.
João Firmino começou a estudar guitarra no Conservatório de Coimbra. Em 2004, ingressou na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal e, em 2010, termina o Conservatório de Amsterdão. É nessa altura que regressa a Portugal, lançando “A Bolha”, o seu primeiro álbum, no ano seguinte. Em 2012, funda, com o saxofonista Desidério Lázaro, a editora online independente Sintoma Records, através da qual lança, já em 2013, o segundo álbum, “A casa da Árvore”. Pelo caminho, tem abraçado diversas colaborações, sendo que merece destaque o projeto que encabeça, intitulado Cassete Pirata (onde também encontramos Joana Espadinha).
Joana Espadinha trilhou um percurso muito similar ao de Firmino, tendo igualmente passado pela Escola do Hot Clube de Portugal, rumando posteriormente para o Conservatório de Amsterdão onde se licenciou em Jazz. Em 2014, lançou o seu primeiro disco, “Avesso”. Nesta sua estreia, e embora o jazz tenha um papel central, sentimos já a presença de outras sonoridades, prefigurando o caminho que se viria a consubstanciar, quatro anos mais tarde, com o disco "O Material Tem Sempre Razão". Este disco teve uma receção entusiástica e, a par da sua participação em bandas como os "Cassete Pirata" e "The Happy Mess" tornaram a sua voz uma das mais distintivas da nova cena musical portuguesa.
XISTO SONORO, COM LUÍS ANTERO & CONVIDADOS
Local: Cerdeira (Lousã), inserido nos Elementos à Solta
Data: 15 de setembro
O paisagista sonoro Luís Antero desenvolve, desde 2008, um trabalho de recolha e documentação do património imaterial sonoro das zonas da Beira Serra e Serra da Estrela, com base em gravações sonoras de campo e que pode ser acompanhado online*. Foi artista convidado e um dos responsáveis pelas gravações do projeto Sons do Arco Ribeirinho Sul, na cidade do Barreiro, sendo igualmente responsável pelo Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra, do arquivo Sons da Montanha: Arquivo Sonoro de São Martinho de Anta (a partir de Miguel Torga), entre outros.
Luís Antero começou a “gravar” as Aldeias do Xisto em 2009, sendo que as paisagens sonoras que deram origem ao trabalho Xisto Sonoro foram organizadas em 2013. Para Antero “[A]s aldeias que compõem a Rede das Aldeias do Xisto são um prodígio, um tesouro feito descoberta. (…) Percorreram-se as aldeias em busca das suas sonoridades características, dos seus marcos sonoros, dos sons que as definem e as distinguem de outras aldeias no contexto rural do Portugal contemporâneo. Por outro lado, através destas paisagens sonoras, podemos também perceber o que estas aldeias têm em comum com outras situadas no mesmo território.”.
Com este concerto especial, integrado nos Elementos à Solta,inicia-se a exploração artística do arquivo contido em Xisto Sonoro – Paisagens Sonoras da Rede das Aldeias do Xisto e que esperamos poder alargar a próximas temporadas, convidando artistas portugueses e estrangeiros para trabalharam sobre as gravações das paisagens sonoras já efetuadas, mas também a juntarem novas gravações e a tornarem essas mesmas paisagens passíveis de apreciação, fazendo uso de instalações, performances e concertos.
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A Rede das Aldeias do Xisto é um projeto de desenvolvimento sustentável, de âmbito regional, liderado pela ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, em parceria com 20 municípios da Região Centro e com mais de 100 operadores privados, com o apoio do Centro 2020. A ADXTUR congrega, assim, as vontades públicas e privadas de uma região, que se reveem na gestão partilhada de uma marca, na promoção conjunta de um território, na criação de riqueza através da oferta de serviços turísticos e, finalmente, na preservação da cultura e do património do mundo rural beirão.

