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Exposições

Alexandre Conefrey, It's not a landscape | It's a battlefield

Percorrendo as centenas de trabalhos (onde a pintura e o desenho frequentemente se sobrepõem) que Alexandre Conefrey produz percebemo-lo como personagem compulsiva.

17 Set a6 Nov

Galeria 111
R. Dr. João Soares 5B, 1600-060 Lisboa
Preço
Entrada livre

E um criador compulsivo poderá ser, afinal, um jogador compulsivo se considerarmos, como me parece correcto, a sua obra como um permanente jogo — sucessivos jogos aparentemente diversos, jogados em tabuleiros diversos mas constituindo séries estruturadas por lógicas internas e unificadas por regras comuns. (João Pinharanda, in A Pintura como Jogo e como Campo de Batalha, 2021)

A noite avança sobre a cidade e o estirador cobre-se de terrenos verdes, paisagens de proximidade, extremamente vivas nos seus coloridos mas onde nenhum elemento humano progride ou jaz. Um corpo apenas está vivo e presente; mas está fora de cena - é o corpo do artista compondo vigorosas imagens para um teatro de fantasmas onde nós, espectadores tardios do processo secreto da criação, nos vamos encontrar com a terrível beleza do Vazio.

Percorrendo as centenas de trabalhos (onde a pintura e o desenho frequentemente se sobrepõem) que Alexandre Conefrey produz percebemo-lo como personagem compulsiva. E um criador compulsivo poderá ser, afinal, um jogador compulsivo se considerarmos, como me parece correcto, a sua obra como um permanente jogo — sucessivos jogos aparentemente diversos, jogados em tabuleiros diversos mas constituindo séries estruturadas por lógicas internas e unificadas por regras comuns.

Há uma estranheza inicial na nossa observação e é provocada por aquela dispersão aparente de temas e modos de fazer (“estilos”); depois, há o reconhecimento das referidas lógicas de unificação que justificam e defendem o que podemos afirmar como sendo as marcas de uma autoria irredutível.

Essas marcas são exactamente as que as batalhas deixam sobre os campos onde se desenrolam. Não (apenas) porque uma parte significativa da obra de Alexandre Conefrey, desde as suas primeiras aparições públicas, tem, como tema imediato, a guerra; mas porque o seu processo de realização se configura como metáfora de um jogo de estratégia militar: com momentos de progressão rápida do gesto e outros de suspensão inesperada dos movimentos, com operações de camuflagem e disfarce, com episódios de ataques surpresa, de dispersão de esforços, de criação de vazios ou de súbita reunião de forças no terreno (na superfície) da representação.

Tudo isto, que se passa de série para série (o que poderia ainda ser considerado razoável) também se passa repetidamente no interior de cada série, provocando então o referido efeito de uma estranheza maior: objectos ou soluções que se repetem ou que se contradizem, que regressam ou se metamorfoseiam, que desaparecem para sempre ou nunca se repetem.

Vejamos o exemplo concreto das obras desta exposição onde, sob a unidade de um mesmo tema (campos de golfe, greens), há uma variabilidade extrema de “estilos”, pontos de vista, pretextos visuais. Dominando com virtuosismo os meios materiais de que dispõe Alexandre Conefrey ensaia sucessivas linguagens e é na História da Arte que ele procura a sabedoria com que conduz os seus recursos até conseguir atingir o objectivo antiético que persegue: o da abstração do tema que a representação figurativa suporta. A história da arte funciona nele (sempre) como ponto de apoio e inspiração para as suas arriscadas manobras plásticas. Nesta série o artista experimenta abordagens mais pacificamente naturalistas, ou mais ousadamente impressionistas (que radicaliza até ao pontilhismo) e, finalmente, aproxima-se agressivamente do fauvismo e do expressionismo, melancolicamente do simbolismo ou explicitamente da maniera Hockney.

Tanta diversidade de estratégias só pode justificar-se pelo prazer da diversão do artista que actua como jogador que goza o puro prazer de fazer/de ver as imagens a crescer no écran do papel através das múltiplas possibilidades que vai experimentando. Este prazer é abstracto, alcança-se com uma infinidade de temas e meios contraditórios; também como a escolha do tema é inicialmente supérflua. Neste caso, sendo inicialmente fruto da banal realidade de um local onde passou férias, torna-se depois metáfora de uma realidade maior para onde convergem todas as temáticas que vai desenvolvendo.

O prazer é também abstracto porque Alexandre Conefrey o alcança através do carácter obsessivo do trabalho (número de peças realizadas, número de séries realizadas, velocidade de execução e número de horas de trabalho diário) e, neste caso, porque a ignorância inicial (e depois propositada) das regras específicas do complexo jogo que realmente se joga naqueles tabuleiros verdes (como os tapetes do casinos), mas vastos, ao ar-livre, ondulantes de vento e com crescimento contínuo (tabuleiros vegetais, vivos), é condição de funcionamento da metáfora guerreira que o artista lhes acrescenta.

Os campos de golfe, como quaisquer outras paisagens representadas (ou reais), são paisagens construídas; levam, porém, essa artificialização a raros extremos acabando, por vezes, por implicar uma ameaça aos recursos naturais e sócio-históricos (águas, culturas agrícolas, realidades culturais originais) das zonas onde se implantam e que transformam, atraindo novos povoadores (os jogadores e sua entourage), gerando competição inter-pessoal e desportiva (profissional ou amadora) dentro de cada campo e competição empresarial e económica entre os diferentes campos, criando e integrando-se em redes nacionais e internacionais. Só por isso seriam, também, campos de batalha.

Ao apresentá-los vazios de jogadores como um tabuleiro sem peças ou um ecrã antes de activado o jogo Alexandre Conefrey parece negar a energia dos seus próprios gestos e a féerie polícroma de cada desenho ou conduzir-nos, através desses recursos sedutores, à armadilha de alguns dos inúmeros buracos de um green para neles nos fazer cair.

Encontramos, ao longo de toda a sua obra, cada uma das realidades que fomos evocando para esta série (compulsividade, jogo, abstracção, diversidade de linguagens, justificação histórica das imagens, tensão interna e ilustração ou metáfora da guerra) - é essa permanência na diversidade que garantem a Alexandre Conefrey a autoria indiscutível que evocámos acima.

João Pinharanda
Lisboa, 19 de agosto de 2021
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