Exposições
Sonhar Sonhos
“Os Sonhos” de Manuel Galveias: uma porta para a eternidade?
30 Abr a 17 Mai 2025
Brincavam junto de tratores e charruas que depois seguiam para a exposição da Feira da Agricultura. Manuel relembra a experiência de sentir pela primeira vez o pulsar do seu coração com apenas cinco anos de idade, memória que guarda junto dos tempos em que observava o senhor Jorge a esculpir estatuetas em barro, na Senhora da Guia.
E foi assim que, muito naturalmente, começou também a moldar o barro. Caras de pessoas, santas, carros, barcos, aviões, bonecos, cidades, pirâmides, templos, eram o seu entretenimento nesta arte, e que depois lhe servia de brinquedo. Para além do barro, a banda desenhada era igualmente uma paixão de infância, permitindo-lhe inventar as suas próprias histórias e reproduzir a fisionomia das pessoas.
Aos dezassete anos, vai trabalhar para uma oficina em São Pedro, a esculpir pedras. É aqui que afirma ter perdido o medo de partir as pedras e ter começado verdadeiramente a arriscar.
Aprendeu também com os muitos livros que foi adquirindo ao longo dos anos. Entusiasmado com as várias técnicas e possibilidades da pedra, começa mais tarde a desenvolver a sua própria técnica e o seu método de pintura.
Manuel Galveias decide expor a sua obra pela primeira vez em 2025 na cidade de Santarém, incentivado por todas aquelas pessoas com quem foi partilhando as suas peças ao longo do tempo, e com o objetivo pessoal de dar uma continuidade ao seu trabalho. É sob o título “Sonhar Sonhos” que podemos conhecer parte da sua obra, em exposição no Fórum Mário Viegas até ao próximo sábado, dia 17 de maio (durante a semana das 14h30 às 18h30, e sábado das 10h00 às 13h00).
O tema dos sonhos surge pela pergunta acerca da existência de outras dimensões. O seu registo iniciou-se pelo simples anotar dos sonhos no momento de acordar. Via neles o potencial de desenvolvimento, de transformação ou origem de uma possível história, o que de certo modo lhes atribuía um lado mais misterioso e oculto. O fascínio por esse lado dos sonhos, há uns anos atrás, leva o artista a questionar o tempo e o espaço, e com isto, a própria realidade.
Tudo se resume ao poder que o sonho tem de mudar uma direção, um caminho, uma rota: “Há muitos anos, na minha adolescência, vivi um período muito complicado, em que tinha muitos pesadelos. Aliás, eu sentia coisas muito estranhas e menos boas e depois isso aparecia também nos meus sonhos. Nos meus pesadelos eu queria gritar e queria soltar-me e tinha uma coisa diabólica a agarrar-me. Mas depois de um sonho que está ali representado num quadro, eu nunca mais tive pesadelos. Neste sonho, o mais incrível que eu já tive até hoje, eu estava vestido com uma bata branca comprida até aos tornozelos. Estava com uma rapariga loira mas não lhe conseguia ver a cara.
Íamos de sandálias a correr, a rir, muitos felizes, e atravessamos uma ponte com flores. Ela olhava para trás na minha direção mas eu não via a cara dela, era só luz.
Depois desse sonho, eu acreditei que essa situação que eu estava a viver ia mudar. E acabou por mudar.”
Com esta exposição, o artista reflete sobre dois tipos de sonhos: os sonhos sonhados e os sonhos que queremos para a vida, para o futuro. Para além dos sonhos, pretende pensar a sociedade atual, uma sociedade onde não se deveria julgar tanto as pessoas, e onde deveria haver mais respeito pelo sagrado. Na sua experiência enquanto autodidata sublinha a importância de permitirmos que as crianças aprendam por si próprias, pela curiosidade.
“As incertezas” é o mote para o próximo trabalho artístico de Manuel Galveias: da existência e daquilo que fazemos dela.
Sílvia Mendonça

