Dança
CCVF acolhe em estreia absoluta "Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil"
“No princípio era o corpo…”, poderia ser uma paráfrase adaptada à asserção de carácter mais religioso para uma condição geral da dança. O corpo expressa também ele um ‘verbo’, afinal a palavra substituída na frase matriz, pela fisicalidade e pelo movimento, através da sua fórmula interpretativa que a anatomia traduz de forma mais simbólica e viva de comunicação não verbal.
14 Fev 2026 | 18h30
Esta apresentação do espetáculo num dos mais conceituados festivais da área da dança contemporânea em Portugal é encarada pelos criadores, Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer, como algo que “representa uma oportunidade singular de apresentar e divulgar o mais recente trabalho da companhia ao público que o GUIdance sempre congrega: o desígnio passa por aproximar a comunidade local da pesquisa artística desenvolvida ao longo de residências nacionais e internacionais”.
Após a participação em Guimarães, a peça que já está despertar o interesse de diversas estruturas/companhias e espaços de apresentação um pouco por todo o país, vai fazer um périplo pelo território nacional (e não só), com datas já agendadas para o Teatro Aveirense, Aveiro (20 de fevereiro), Teatro-Cine Pombal (28 de fevereiro), Teatro Stephens, Marinha Grande (14 de março), Festival DDD – Dias Da Dança, Porto (9 e 10 de abril), Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco, (2 de abril), Casa das Artes de Famalicão (17 abril), Teatrão, Coimbra (30 de abril) e Teatro Rosalía de Castro, Corunha, Galiza/Espanha (30 de maio).
“Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil” resultou, enquanto projeto, de uma residência artística contínua, acolhida e realizada em diversos locais de Portugal, como Casa Varela (Pombal), Teatro Viriato (Viseu), Teatro Stephens (Marinha Grande) Fábrica Asa do Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), Armazém 22 – Kale (Vila Nova de Gaia), Teatro Aveirense (Aveiro) e o Centro de Criação e Investigação da Nuizis Zobop, no Espaço Agra (Porto).
Importa, por outro lado salientar, em abono da verdade, que esta aposta da Nuisis ZoBoP se inscreve na perfeição no domínio da programação do GUIdance e de um certo lema, mais ou menos assumido, que o festival vimaranense contempla, o de constituir “A sincronização da diversidade”. Basta pensar para o efeito que a peça integra e foi pensada para um elenco internacional de quatro bailarinas e explora em termos de conteúdo versado zonas de transição e indefinição - manifestações e emoções e sentimentos múltiplos cuja expressão se traduz quase como um binómio: entre vigília e sono, vida e morte, inspiração e expiração.
A gesta criativa da peça coreográfica tem como mote inspirador uma panóplia de referências literárias e míticas, as evocações às Mahavidyas, deusas ferozes da sabedoria impura que dói e que ri, bem como incursões por diferentes universos de gente incontornável das letras, casos de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Al Berto e Paul Celan, que no seu conjunto permitiram uma base de estruturação e construção narrativa cujo território poético se afirma por uma densidade e simbolismo assinaláveis. Da teoria da inspiração à prática da transpiração há todo um [longo] processo, que o público irá sufragar nas apresentações.
A proposta do espetáculo sugere de igual modo, isto para lá do seu carácter estético, uma reflexão crítica sobre o presente, ‘um agitar das águas’ como popularmente é descrito. O repto passa pelo debate e questionamento da existência de uma complacência institucional vigente, sendo igualmente tópicos de abordagem a autorreferência no ecossistema artístico e a fragilidade ética dos sistemas culturais. A reforçar e a fazer vingar as ideias precedentes, o projeto Dança e Filosofia: Ética, Raízes e Horizontes do Presente Frágil recusa a simplificação e defende a coerência entre estética e rigor filosófico. Trata-se de uma questão de posicionamento que vai para lá dos vetores estéticos e artísticos, aliás, como se infere.
Uma das características mais marcantes e distintivas da Nuisis Zobop, defendida pelos seus diretores artísticos Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer, radica numa dinâmica de atuação que aposta em três eixos primordiais aos quais se junta um outro tópico não menos importante a este vértice. O método aposta na investigação enquanto demanda e exploração de processos inovadores para o performer, limites e entre visível e invisível; a formação com recurso a masterclasses de imersão prática; a criação através de obras com forte dimensão simbólica e filosófica e a fase posterior de circulação em Portugal e Galiza e uma quarta alínea, que vincula, promove e explicita como uma súmula estrutural todo o processo, a edição de uma publicação de índice qualitativo que serve como memória do presente e arquivo para o futuro.

