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Conferência em Lisboa liga desigualdade urbana e trabalho à herança colonial
A conferência internacional "Colonial and Post-Colonial Landscapes: Architecture, Cities, Labour" vai debater na Gulbenkian de 11 a 13 de fevereiro como as ocupações coloniais continuam a marcar as relações de trabalho e o edificado nos países que se tornaram independentes e nos antigos países colonizadores.
11 Fev a 13 Fev 2026
“Em Portugal, só surgem trabalhadores africanos na construção depois das independências, mas essa tradição foi construída antes”, afirma Ana Vaz Milheiro.
A maioria dos operários que constrói hoje as infraestruturas dos países ocidentais é oriunda de antigos impérios coloniais e produto de uma estrutura de produção montada no século XIX. Em Portugal, por exemplo, o operário comum no setor da construção é “africano ou afrodescendente”, “não especializado” e “precário”. Ou seja, através da imigração a população colonizada transformou-se no operariado atual, reproduzindo caraterísticas socioprofissionais aos longo de décadas.
É sobre esta realidade que vai refletir e debater a conferência internacional “Colonial and Post-Colonial Landscapes: Architecture, Cities, Labour”, dedicada aos temas do trabalho, colonialismo e arquitetura, que nos dias 11 a 13 de fevereiro reunirá na Fundação Calouste Gulbenkian especialistas e investigadores de todo o mundo (ver Programa em anexo). Esta conferência é organizada pelo projeto de investigação “ArchLabour - Arquitetura, Colonialismo e Trabalho. O papel e o legado do trabalho em massa na conceção, planeamento e construção de Obras Públicas nos antigos territórios africanos sob domínio colonial português”, sediado na unidade de investigação Dinâmia’CET do Iscte, e coordenado por Ana Vaz Milheiro, investigadora e docente do Iscte, que recebeu uma bolsa de 2,5 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação - ERC Advanced Grant. O ArchLabour procura compreender a construção de grandes obras públicas nas ex-colónias portuguesas a partir da perspetiva dos trabalhadores africanos, explorando as suas experiências, saberes e contributos.
“A máquina de produção montada pelos impérios coloniais no século XIX continua a alimentar as necessidades de mão-de-obra na economia atual: tal como os seus antepassados construíram os impérios europeus, os seus filhos e netos constroem hoje os prédios, as autoestradas e as fábricas nos países para onde emigraram, mantêm-nas a funcionar, limpam-nas, tratam da sua manutenção, em suma: são o operariado atual”, afirma Ana Vaz Milheiro. “Só surgem trabalhadores africanos na construção em Portugal depois das independências, mas essa tradição foi construída antes”.
A história é uma ferramenta fundamental para pensar o futuro, defende Cecilia L. Chu, arquiteta e investigadora da Universidade de Hong Kong, uma das oradoras da conferência Colonial and Post-Colonial Landscapes na Gulbenkian. “Sem pensar e analisar o passado, não nos é possível encontrar alternativas para o futuro”, afirma esta oradora que, na sua intervenção, falará sobre crise e especulação nos preços de habitação. “Só a compreensão da dinâmica histórica torna viável questionar e rejeitar os modelos económicos e sociais que levaram à normalização da especulação imobiliária e à dependência do mercado”.
Para a investigadora de Hong Kong, a atual crise da habitação não pode ser encarada apenas como um problema a nível local ou económico, mas sim como um problema a nível global, que surge como resultado de um modelo que incentiva o investimento privado e que atribui um papel central ao mercado. “No sul da Europa, existe ainda uma elevada valorização social da propriedade imobiliária”, afirma. “A habitação social continua a ser vista com alguma desconfiança, apesar da crise habitacional”.
Cecilia L. Chu sublinha que esta lógica cria um consenso social que beneficia a especulação imobiliária e dificulta a implementação de alternativas. “Quando a propriedade privada é apresentada como o principal caminho para a segurança e para a mobilidade social, todas as outras soluções tendem a ser desvalorizadas”, afirma. Segundo a arquiteta chinesa, tanto em Portugal como em Hong Kong existe uma “constante promoção governamental para a obtenção de casa própria, através da criação de políticas públicas e de benefícios fiscais de apoio à compra de casa”. Em Hong Kong, por exemplo, o governo depende fortemente das receitas obtidas através do investimento de investidores privados em habitação.
“Métodos de construção e materiais utilizados são escolhas políticas”
Nzinga Biegueng Mboup, arquiteta e investigadora do Senegal, irá propor na Gulbenkian que as cadeias de abastecimento sejam encurtadas para reduzir a dependência de sistemas globais, tornando a arquitetura mais resiliente e mais justa para as sociedades contemporâneas. Defenderá que a forma como se constrói, desde a escolha dos materiais às técnicas adotadas, é uma decisão política com impacto direto nos trabalhadores, na organização das cidades e nas economias locais. “As escolhas arquitetónicas feitas durante o processo de construção nunca são neutras”, afirma Nzinga Biegueng Mboup. “Escolher um material em detrimento de outro tem consequências no uso da energia, da mão de obra, na manutenção e na equidade social”.
A arquiteta do Senegal afirma que as escolhas ligadas às tecnologias e métodos de construção são, tal como os materiais utilizados, escolhas inerentemente políticas. “Os materiais estão ligados às indústrias, às condições de trabalho, às estruturas de poder e às cadeias de abastecimento global”, afirma. Defende que a arquitetura pode tornar-se mais resiliente e mais justa. “Enquanto arquitetos, temos de assumir responsabilidade pelas nossas escolhas e de nos perguntar quais as consequências sociais, políticas e económicas de cada uma delas”, afirma Nzinga Biegueng Mboup.
A arquiteta propõe um modelo de arquitetura focado na escolha de materiais naturais e locais e com maior atenção ao contexto social, económico, climático e geográfico.“Ambiciono mostrar na conferência em Lisboa que a arquitetura pode, e deve, estar enraizada na cultura local e nos sistemas de conhecimento, ao invés de adotar um modelo padrão”, afirma Nzinga Biegueng Mboup. “É uma forma de nos reconectarmos com técnicas e métodos de construção negligenciados e em desaparecimento”.
A investigadora quer, através do seu trabalho, mostrar as virtudes de recentrar nas pessoas e nas suas necessidades as decisões arquitetónicas. “A arquitetura ignora frequentemente as realidades das comunidades”, afirma. “Parte do meu papel enquanto arquiteta é precisamente questionar a quem servem certas decisões tomadas e quais as consequências de cada uma delas”.
Uma parte significativa do processo através do qual Nzinga Biegueng Mboup concebe uma construção passa pela pesquisa de materiais, de tipos de solo, de técnicas de construção e de sistemas de conhecimento locais adequados ao contexto de cada projeto. O primeiro passo, e a sua prioridade, é utilizar os recursos disponíveis no local, desde materiais a competências e pessoas envolvidas no processo. “É isto que molda a nossa arquitetura”, afirma. “Sem esta preocupação, não nos seria possível construir e pensar um edifício verdadeiramente sustentável: cada uma destas escolhas é política e tem impacto na economia, na sociedade e, sobretudo, nas pessoas”.
Atualmente o mercado é dominado por materiais como o betão e o aço, o que levou ao desaparecimento de técnicas antigas de construção assentes na cultura e tradições locais que eram mais sustentáveis. “Nem todas estas práticas se mantêm sustentáveis na construção e na arquitetura contemporâneas, mas é fundamental avaliar criticamente que técnicas podemos recuperar e reintroduzir na nossa forma atual de construir”, afirma Nzinga Biegueng Mboup. “Muitas destas técnicas estão em risco de desaparecimento e, com elas, o conhecimento necessário para ser utilizadas”. Segundo a arquiteta, “conhecer as nossas histórias, técnicas e materiais dá-nos alternativas e a liberdade de não sermos prisioneiros de uma única forma de construir.”
Em 2019 Nzinga Biegueng Mboup fundou o Worofilia, um estúdio de arquitetura sediado em Dakar, dedicado à arquitetura e construção bioclimática, usando materiais locais e ecológicos como alternativa aos materiais convencionais para promover uma arquitetura duradoura e em harmonia com o clima e o contexto socioeconómico. “Para assegurar uma arquitetura ética e sustentável são necessárias práticas de construção mais justas e conscientes, com sistemas de produção equitativos e localizados”, afirma a arquiteta senegalesa. “Cada projeto deve tornar-se uma oportunidade de aprendizagem, adaptação e de construção de algo pensado para um lugar e um momento específicos. Segundo Nzinga Biegueng Mboup, “esta abordagem é exigente e demorada, mas é profundamente gratificante”.
A conferência receberá também o historiador Alexander Keese, da Universidade de Genebra, como um dos oradores principais. Alexander Keese é especialista em história do trabalho forçado e história comparada da descolonização na África Ocidental e Central, incluindo Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Com vasto conhecimento e produção científica sobre o contexto colonial português, Alexander Keese é consultor do projeto ArchLabour e apresentará na Gulbenkian a sua investigação sobre os espaços e movimentos do trabalho forçado colonial. “É muito curiosa a falta de debate e de interesse mediático que se tem verificado em Portugal acerca dos 50 anos de descolonização dos PALOP”, afirma Alexander Keese. “Deveriam existir mais arquivos e mais publicações sobre este tema em Portugal”.
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