Música
Jazz em Agosto – 42.ª edição
Uma 42.ª edição que reafirma a sua identidade de apresentar a atualidade criativa e original do jazz, música que não cessa de evoluir.
31 Jul a 9 Ago 2026
Tal como em 2025, são programados catorze concertos: um no Grande Auditório, nove no Anfiteatro Ar Livre e quatro no Auditório 2.
As características dos espaços cénicos determinam a natureza dos concertos, sendo os considerados no Auditório 2 os mais experimentais, os do Anfiteatro Ar Livre dirigidos a um público mais alargado, enquanto o único concerto a acontecer no Grande Auditório, o inicial, é um piano solo de uma figura histórica da inovação do jazz, Joachim Kühn, hoje com 82 anos, contudo sempre enérgico e surpreendente no estilo que o identifica. O interesse em ouvir, agora, este músico na plenitude da sua contribuição ao jazz provém da raridade dos seus concertos solo por sua própria imposição.
No primeiro fim de semana, várias direções estéticas se apresentam: à tarde, um duo português de Lisboa – David Maranha em órgão elétrico e Rodrigo Amado em saxofone tenor – exibindo um discurso contínuo enleante na sua dimensão espiritual. À noite, de Nova Iorque, um quarteto colaborativo de excelência, denominado Canyon, com a pianista Sylvie Courvoisier, o violoncelista Lester St. Louis, o contrabaixista Joe Morris e o baterista Jerome Deupree, um dos membros originais, nos anos 1990, da reputada banda rock Morphine; a sua música é uma laboriosa construção baseada em empatia, criativa e original.
No domingo, ainda, à tarde, uma rara combinação de voz e contrabaixo: Fred Moten, professor universitário, intelectual, escritor, lê textos escolhidos, interventivos, acompanhado por Brandon Lopez, um dos contrabaixistas mais relevantes da atualidade. À noite, outro quarteto de Nova Iorque – Shardik – em toada totalmente oposta, fazendo parte da família que o saxofonista John Zorn agrupa na sua editora Tzadik; Shardik assume o mesmo tipo de insolência a que Zorn nos habituou, com uma forte componente ativista, dirigindo-se tanto a um público do rock metal quanto ao público fã de John Zorn, explorando espetaculares efeitos no seu fragmentado discurso musical.
Nos dias úteis da semana, de segunda a sexta, continua a apresentar-se a diversidade estética do festival com a grande formação Lisbon Underground Music Ensemble (LUME), um valor do jazz português, dirigida pelo pianista e compositor Marco Barroso, que apresentará novo repertório, por certo dentro dos parâmetros jubilatórios por que são referenciados. Na terça, segue-se-lhes um quarteto francês, Bonbon Flamme, que inclui o guitarrista português Luís Lopes, semeando um aparente jogo caótico, contudo controlado. Na quarta, o grupo pan-europeu The Sleep Of Reason Produces Monsters (TSORPM) com o trompetista Italiano Gabriele Mitelli, a saxofonista dinamarquesa Mette Rasmussen, a turntablist britânica Mariam Rezaei e o baterista austríaco Lucas König dá curso à livre improvisação onde a manipulação eletrónica adquire preponderância. Na quinta, apresenta-se uma das mais reconhecidas saxofonistas e compositoras da atualidade, a canadiana Anna Webber, baseada em Nova Iorque, no projeto Shimmer Wince em quinteto, com Adam O’Farrill, trompete, Mariel Roberts, violoncelo, Elias Stemeseder, sintetizador, e Lesley Mok, bateria, cúmplices ideais de um dos projetos mais originais do jazz atual, dentro do seu leito comum. Na sexta, o projeto mais recente do baterista e vibrafonista americano Ches Smith – Clone Row – com dois guitarristas consagrados, Mary Halvorson, Liberty Ellman, e o contrabaixista Nick Dunston, apresenta novamente um repertório de compositor original, conceptualista, numa linha estética musculada e recheada de composições sedutoras.
No segundo e último fim de semana, o Jazz em Agosto apresenta quatro concertos. Sábado à tarde, o pianista inglês Pat Thomas, num solo sensorial fruto da sua exploração única do instrumento. À noite, o novo projeto do baterista americano Tomas Fujiwara – Dream Up – foca-se na dinâmica criativa da percussão, com Kaoru Watanabe em tambores Taiko e flautas japonesas, Ches Smith em vibrafone e Kweku Sumbry em percussão, oferecendo uma panorâmica percussiva, vibrante e global.
No último dia do festival, manifestam-se um dueto e um quinteto, oriundos de dois epicentros mundiais do jazz: Chicago e Los Angeles. À tarde, o Chicago Underground Duo do trompetista Rob Mazurek e do baterista Chad Taylor desdobra-se com eletrónica e multimédia, num discurso contagiante, pleno de originalidade. À noite, a encerrar o Jazz em Agosto 2026, um grupo revelação de Los Angeles da constelação do electrojazz e que vem a ser reconhecido, dirigido pela baixista elétrica australiana residente em Los Angeles, Anna Butterss – SML – que quer dizer Small-Medium-Large e que institui resoluta e claramente um novo passo de gigante numa das direções estéticas do jazz iniciadas/inventadas, há mais de 50 anos, por Miles Davis.
Rui Neves
Diretor Artístico do Jazz em Agosto

