Teatro
“O Diabo em Mim”, ou quando anúncios de feiticeiros desviam um dramaturgo para o mundo da cartomancia…
Nova produção do coletivo portuense Visões Úteis sublima a entrada do autor num mundo de encantamentos e, através da casualidade do Tarot e afins, explora a experiência através da fenda de emoções que vai do desejo ao medo. Coproduzida com o Teatro Municipal de Vila Real, estreia no Teatro do Bolhão (Porto) em novembro.
27 Nov a 29 Nov 2026
A nova criação da companhia saiu do olhar singular do também escritor sobre as simples circunstâncias da vida. O qual, para o caso em apreço, partiu das palavras, transformadas em promessas, de um qualquer Professor Bacari ou de um Mestre Mafu, sobre as “performances voltadas para o futuro e, mais ainda, empenhadas na transformação” de vidas. Claro está, com a página em branco de um “amanhã sempre aberto a possíveis reescritas, com amor, saúde, dinheiro - tudo no horizonte”.
Foi, portanto, precisamente desta generosa coleção de cromos esotéricos que nasceu a inspiração. Anos depois. E o que é que poderemos ver em cena, n’O Diabo em mim? A peculiar visão de Carlos Costa sobre “práticas propiciatórias, (in)realidades capazes de operar num interstício entre desejo e medo”. Pois… lá está o jeito do criador para aquilo que mais ama: as palavras que abrem mundos, sim. Ou seja, e permanecendo na afirmativa, “sim, vamos ler cartas!”. Uma “absoluta incongruência agora que a Inteligência Artificial está ao nosso alcance”. E mais? “Mais poesia do que senso comum”…
O Tarot de Marselha, as Cartas de Jogar e o Oráculo de Lenormand - os três módulos frequentados pelo responsável do Visões Úteis nos cursos da Aradia Academy (de Camelia Elias e Bent Sorensen, professores universitários que abandonaram a carreira académica para se dedicarem exclusivamente à cartomancia) - ajudaram à festa, digamos assim.
Na sinopse que faz a arqueologia do contexto da criação e produção d’O Diabo em mim, Carlos Costa remete-nos para a estreia da peça “Versão Beta” (2021) - um solo em que mergulhava no passado -, e para o novelo com três linhas da sua própria biografia: a) a sua primeira cassete vídeo; b) a leitura de uma obra de Marcel Proust; c) e um improvável espetáculo com uma estreia prevista para 2038…
Tudo foi depois sublimado em cinco meses de trabalho intenso. Período durante o qual o aprendiz – “não de feiticeiro, mas de cartomante” – diz que experimentou um “profundo desvio cognitivo”, convencendo-se a determinada altura que, “formatado pelo século anterior, talvez não pensasse bem”, ou, então, não fosse “capaz de mais do que pensar”.
“O Diabo em mim” é, assim, a nova etapa que permite seguir em frente. Sem medos, mas sem deixar de, aqui e acolá, olhar para trás e para os lados. Não vá… o diabo tecê-las.
“O Diabo em mim”
Agenda:
27 de novembro (sexta-feira), às 19h00
28 de novembro (sábado), às 21h00
29 de novembro (domingo), às 16h00
Sempre no Teatro do Bolhão
Ficha artística e técnica:
Direção, texto, interpretação - Carlos Costa; cenografia, figurino e adereços - Maria Manada; desenho de luz - Pedro Correia; design gráfico e registo audiovisual - Sara Allen; banda sonora e desenho de som - Vasco Zentzua; coordenação de produção - Cláudia Alfaiate; produção executiva - Margarida Barreiros Feijó; parceria - Teatro do Bolhão; produção - Visões Úteis, em coprodução com o Teatro Municipal de Vila Real; agradecimentos – Ana Vitorino, Bent Sorensen, Camelia Elias, Inês de Carvalho, Joana Ferrajão, Luís Mestre e Mafalda Banquart; classificação etária – maiores de 12 anos de idade; duração aproximada – 60 minutos
Sobre o Visões Úteis:
O Visões Úteis é um projeto artístico sediado no Porto, onde foi fundado em 1994. O teatro foi a raiz de uma atividade constante e intensa que rapidamente se alargou a outras áreas das artes performativas. O coletivo recebeu em 2001 a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Cidade do Porto. O raio de ação do grupo estende-se a uma panóplia de projetos, paralelos à criação e itinerância de espetáculos, que desde sempre traduziram o desejo de confronto com outras áreas e com públicos distantes da produção artística.
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