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Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo

País: Portugal
Distrito: Viana do Castelo
Concelho: Viana do Castelo

Descrição

O Património Cultural, Instituto Público aprovou a inscrição da Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), conforme despacho de 15 de abril de 2026, assinado pelo presidente do Conselho Diretivo, João Soalheiro, e já publicado em Diário da República.


A inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial reconhece a importância da manifestação enquanto símbolo identitário da população desta freguesia do concelho de Viana do Castelo, em particular dos grupos de mordomas que a utilizam em contextos festivos e religiosos, transcendendo atualmente o contexto da romaria de Santa Marta de Portuzelo.

Consagra também os processos sociais e culturais nos quais teve origem, destacando o papel do artesão e armador Álvaro do Rego Sales na sua criação na década de 1950, detentor e herdeiro de um saber-fazer das artes decorativas em papel, transmitido no seio familiar desde o século XIX, assim como os modos em que se processa a transmissão intergeracional do saber-fazer associado à produção da “Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo”, a qual se tem centrado na família Sales, indo já na terceira geração de artesãos.

A Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo filia-se na categoria de produções artesanais em papel de âmbito festivo, tal como os palmitos de papel e os ramos de andor, expressões artísticas com grande tradição em Viana do Castelo. Criada em 1958 por Álvaro do Rego Sales Gomes, a pedido da Comissão de Festas da Romaria de Santa Marta de Portuzelo, a vela foi concebida especificamente para ser utilizada pelas mordomas durante essa festividade.

Atualmente, a vela continua a ser produzida pelos descendentes do autor da peça, mais precisamente pelo seu filho, Álvaro Fernandes de Sales Gomes, e o seu neto, Álvaro Miguel Gonçalves Sales Gomes. Estes artesãos desenvolvem o seu trabalho com orgulho, sentido de dever e generosidade, emprestando as velas produzidas às mordomas, a título gratuito, num autêntico serviço prestado à comunidade, ajudando assim a perpetuar esta tradição na memória coletiva local.

A família Sales Gomes insere-se no centro de uma dinâmica social que tem vindo a ser animada pela procura das mordomas e respetivas famílias, contribuindo, portanto, e de modo inegável, para o reforço da identidade e da memória coletiva local.

Em termos materiais, a vela votiva de Santa Marta de Portuzelo é constituída por uma série de elementos de dimensões diversas, apresentando um comprimento total de 60 centímetros. Destes, 15 cm dizem respeito à vela (de 1,5 cm de diâmetro), 35 cm às grinaldas (composição de flores de papel), e os restantes 10 cm à base ou punho da vela.

O conjunto pesa, ao todo, cerca de 200 gramas.  As grinaldas, ou “silvas” como são denominadas pelos armadores e floristas, são manufaturadas com recurso a papel metalizado prateado e vermelho. De papel prateado são feitos os 56 malmequeres (uma flor muito abundante nos campos de Santa Marta de Portuzelo), e de vermelho os 20 botões de rosa (ou de azul quando a vela é para ser usada por uma mordoma enlutada). As rosas são um importante símbolo desta terra, presentes no brasão da freguesia e na decoração dos cestos da Nossa Senhora do Livramento, festividade de grande tradição histórica em Santa Marta.

A vela votiva de Santa Marta de Portuzelo distingue-se das usadas noutras romaria por ser idêntica para todas as mordomas, sendo devolvidas posteriormente à família Sales, que, depois de restauradas, e sempre que possível, as tornam a colocar em circulação no ano seguinte. O seu padrão estético uniforme, assim como a prática da reutilização, projetam as velas como um adereço de dimensão inegavelmente comunitário, com conotações identitárias do território onde nasceu.

A relação existente entre a mordoma de Santa Marta e a sua vela é, aliás, umbilical, na medida em que a vela foi criada no mesmo ano, 1958, em que as mordomas começaram a fazer o desfile da mordomia na cidade de Viana do Castelo, assim lhes emprestando, para o efeito, uma imagem de maior solenidade e dignidade.

Embora a tradição do uso da vela votiva seja comum a diversas romarias minhotas, a vela de Santa Marta distingue-se pelo facto de todas as mordomas apresentarem um modelo de vela idêntico, confecionado segundo um modelo original da família Sales Gomes e reproduzido até aos dias de hoje. A vela votiva é, assim, um dos elementos mais marcantes do aparato visual da mordoma.

A atual expressão coletiva da vela votiva de Santa Marta transcende a dimensão puramente religiosa, adquirindo foros verdadeiramente identitários do território onde nasceu e afirmando-se como um ícone da freguesia.  A riqueza simbólica e o seu amplo reconhecimento social têm permitido que este singular objeto extravase a própria Romaria de Santa Marta de Portuzelo, alcançando uma autonomia que lhe permite inscrever-se em diversos contextos culturais, tais como exposições temáticas, espetáculos e oficinas pedagógicas.

A proposta de inscrição da “Vela Votiva de Santa Marta de Portuzelo” no INPCI foi apresentada pela Junta de Freguesia de Santa Marta de Portuzelo, concelho de Viana do Castelo, com base na investigação desenvolvida pela Associação Portugal à Mão, a qual inclui o envolvimento e recolhas no terreno junto dos artesãos produtores das velas e das mordomas da romaria de Santa Marta.

Em 2026 a Romaria de Santa Marta de Portuzelo realiza-se de 8 a 10 de agosto.

Fonte de informação
Património Cultural, Instituto Público
Data de atualização
15/06/2026
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