Literatura
A Voz Humana - Maria Barroso. Dia Mundial da Poesia
A Fundação Mário Soares e Maria Barroso assinala o Dia Mundial da Poesia com uma transmissão online, que contará com as intervenções de Isabel Soares, Jorge Silva Melo, Manuel Alegre, Maria da Glória Garcia, Rui Vilar e Vasco Vieira de Almeida.
21 Mar 2021 | 17h30
ID da reunião: 843 3493 3034
Maria Barroso foi uma mulher de causas e uma cidadã ativa política, cultural e socialmente. Figura maior da cultura portuguesa, atriz marcante no teatro e no cinema, foi uma amante da poesia, que dizia de uma forma única.
Nasceu na Fuseta, em 2 de maio de 1925, no seio de uma família de democratas e oposicionistas à ditadura. Filha de Maria da Encarnação Simões Barroso, professora primária, e de Alfredo José Barroso, oficial do exército, que foi destituído, preso e deportado por razões políticas.
Estudou nos liceus Dona Filipa de Lencastre e Pedro Nunes, em Lisboa, e fez o Curso de Arte Dramática do Conservatório Nacional, que concluiu em 1943, obtendo a classificação mais elevada. Seguindo a sua vocação de atriz, integrou a companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, onde contracenou com figuras como Palmira Bastos, Maria Matos, Amélia Rey Colaço e Augusto Figueiredo. Subiu à cena em diversas peças, entre as quais "Benilde u Virgem Mãe", de José Régio, e "A Casa de Bernarda Alba", de Frederico Garcia Lorca, atuação que, em 1948, levou o regime a proibi-la de continuar a representar.
A partir daí, fez militantemente recitais de poesia, muitas vezes acompanhada do coro de Fernando Lopes Graça, dizendo versos de poetas contra o regime, nomeadamente do Novo Cancioneiro, entre os quais Joaquim Namorado, Álvaro Feijó, Sidónio Muralha, Mário Dionísio e Manuel da Fonseca. Por isso, foi interrogada pela polícia política, acusada de declamar poemas "subversivos". Um dos poemas que mais polémica suscitava quando declamava era "Prometeu", de Joaquim Namorado. Como lembra Manuel Alegre, Maria Barroso foi "a voz que, contra o medo e a censura, fez da poesia uma arma de resistência".
Desempenhou vários papéis no cinema ? em filmes como "Mudar de Vida", de Paulo Rocha (1966) ou "Benilde ou a Virgem Mãe", de Manoel de Oliveira (1975) - e no teatro, onde, de entre as várias peças em que participou, foi "uma frágil Antígona ibérica" (peça "Antígona", Teatro Villaret, 1965), nas palavras de Eduardo Lourenço. "A vida deu-lhe ensejo de transpor do palco para a cena, sem artifícios da opressão humana, o seu puro grito de heroína habitada pela revolta e pela paixão da liberdade", escreveu, muito anos depois, o filósofo e ensaísta. Em 1966, subiu ao palco para interpretar o monólogo "A Voz Humana", de Jean Cocteau, sessão interrompida pela polícia política. Foi a última vez que representou no teatro.
Formada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Maria Barroso dedicou-se também ao ensino, dirigindo o Colégio Moderno, e à intervenção política, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Resistente à ditadura, foi candidata a deputada pela CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) nas eleições de 1969 e foi a única mulher a intervir na sessão de abertura do III Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, ano em que é também a única mulher fundadora do Partido Socialista. Foi, depois, deputada à Assembleia da República em várias legislaturas.
Empenhada na defesa dos mais desfavorecidos, criou a Fundação Pro Dignitate, distinguindo-se na luta pela prevenção da violência e da exclusão social e como uma voz ativa na defesa dos valores democráticos. Presidiu ainda à Cruz Vermelha Portuguesa.
Morreu em Lisboa, a 7 de julho de 2015. Nessa altura, a atriz Carmen Dolores recordou-a como "uma mulher cheia de coragem, uma mulher cheia de talento e uma cidadã extraordinária toda a sua vida e em todas as suas ações, tanto na vida privada, como na vida pública", lembrando "tudo o que fez na cultura e na poesia numa altura em que era difícil revelar determinados poetas considerados revolucionários".
I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro
como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
Eu, Marco Pólo,
farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca
nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.
II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.
E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.
"Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste" de Álvaro Feijó, dito por Maria Barroso.
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