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70 Anos depois, memória de Emmanuel Mounier (1905-1950)

Emmanuel Mounier morreu prematuramente com 44 anos fez no dia 22 de março 70 anos!


Nascido em Grenoble a 1 de abril de 1905, o filósofo cristão, fundou a revista “Esprit” em 1932, fazendo parte de uma geração de exceção. Foi colega na École Normale Supérieure, na rue d’Ulm, de Raymond Aron e de Jean-Paul Sartre. A sua vida foi marcada pela ideia de “compromisso”, especialmente depois da guerra de Espanha, momento dilacerante para os cristãos, em que tomou partido da causa republicana, apesar de denunciar a violência e a cegueira, sentida em toda a parte. Quando dos acordos de Munique (1938) demarcou-se deles desde o início. Durante o regime de Vichy ainda fez reaparecer a revista fugazmente, denunciando a “desordem estabelecida”, mas depressa se tornaria uma referência moral da “resistência”, responsável pela mobilização de muitos jovens. No pós-guerra, procurou lançar pontes à esquerda, mas sem sucesso imediato. Morreu prematuramente em 22 de Março de 1950. Deixou, porém, uma escola de cristãos livres, militantes sociais, operários e intelectuais (como Domenach e Delors), que viria a ter um papel decisivo na renovação da esquerda democrática nos anos cinquenta e sessenta (ao lado de Pierre Mendès-France), designadamente no grande debate sobre a Argélia.

Mounier teve em Portugal uma influência decisiva, sobretudo a partir dos anos cinquenta. A denúncia da “desordem estabelecida” e a ideia de compromisso das pessoas relativamente à procura da justiça e da liberdade tiveram uma importância significativa, quando muitos cristãos entenderam dever seguir um caminho de inconformismo e de rutura com o regime político que recusava a democracia. “É preciso ter presente que, nesse tempo, a Igreja, o Exército, o funcionalismo público e a burguesia da província (estruturalmente ligada à Igreja), constituíam as forças sociais de apoio à situação saída da Revolução de 28 de Maio de 1926” – como afirmou António Alçada Baptista. A reivindicação da liberdade política e religiosa, a denúncia da censura, das prisões e da polícia política e a questão colonial constituíram os grandes argumentos de rutura. Nos anos cinquenta, a Juventude Universitária Católica ganhou um protagonismo relevante, em especial graças à ação das direções de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Adérito Sedas Nunes. E não esqueçamos que no próprio clero os Padres Joaquim e Manuel Alves Correia e Abel Varzim foram afastados dos lugares onde exerciam o seu múnus por fazerem críticas às consequências da política da ditadura. Em 1958, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, foi obrigado ao exílio, por ter escrito uma carta a Oliveira Salazar denunciando as injustiças da política social e económica e a falta de liberdade dos membros da Igreja. Foi o ano em que o País se mobilizou e em que ficou a certeza de que Humberto Delgado teria ganho se as eleições fossem de facto livres. A decadência do regime não mais pararia, agravando-se depois de 1961 com o início da guerra colonial em Angola.

Foi neste contexto que se manifestou a influência de Emmanuel Mounier. António Alçada Baptista, João Bénard da Costa e Pedro Tamen, antigos dirigentes da JUC, animam a Livraria Moraes, que irá tornar conhecida a obra do autor de “O Personalismo” para o público português. Os jovens universitários dos anos cinquenta liam as revistas “Esprit” e “Temoignage Chrétien”, bem como os editoriais de François Mauriac no “L’Express”, apesar de a censura impedir que grande parte dos números chegassem aos seus assinantes. E o que estava em causa nessa proibição eram fundamentalmente os textos sobre a guerra da Argélia. Jean-Marie Domenach, diretor de “Esprit” desde 1957 era, aliás, um dos alvos preferidos da censura. Entretanto, Bénard da Costa apresentara a sua tese de licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa sobre o autor do “Traité du Caractère”, traduzindo para português “O Personalismo” – primeira obra de uma nova coleção “O Tempo e o Modo”. No prefácio afirma: “mais do que nunca, é para todos chegado o tempo dos exames de consciência, de má consciência, e porque esta é a obra que, inquietando e dividindo, a eles conduz, algo dela esperamos sobre a nossa costumeira apatia e desinteresse. Sem querermos parecer demasiado enfáticos ou demasiado proféticos, julgamos mais do que nunca chegada a hora das opções”. Estas palavras soavam a um grito de alerta. De um modo cifrado, o que o autor dizia tinha a ver com a exigência da acção crítica, que politicamente significaria criar condições para uma alternativa de oposição pluralista e democrática. A ideia de compromisso de Mounier era atractiva e necessária: «Não nos comprometemos a não ser em debates discutíveis sobre causas imperfeitas. Recusar o compromisso é recusar a condição humana » (O Person., I, VII). Mounier e Paul-Louis Landsberg (um católico alemão de origem judaica, discípulo de Max Scheler) foram elementos decisivos na tomada de consciência da importância dos compromissos efetivos pela dignidade humana, a propósito da guerra civil de Espanha. Foi então que nasceu a ideia de “compromisso” e a necessidade de apelar à ação dos cristãos (na linha de Bernanos, de Simone Weil, de José Bergamín ou de J.-M. Semprun).

Em Portugal, reeditava-se o combate contra a “desordem estabelecida”. E este exigia a criação de uma revista, sob a influência de Mounier, que tomaria o nome de “O Tempo e o Modo” e que nasceria em 1963, ano crucial do Concílio Vaticano II, no mesmo ano do nascimento dos também muito influentes “Cuadernos para el Dialogo” de Joaquin Ruiz-Gimenez, em Espanha. No Porto, estava na mesma linha o grupo que criou também em 1963 as edições “Afrontamento” (uma das palavras bandeira de Mounier). Seria a nova revista só de católicos? Se assim fosse, seria uma traição a Emmanuel Mounier, defensor em 1932 de uma revista aberta. Era preciso abrir espaço à colaboração de católicos e não católicos. E assim aconteceu. Havia católicos de um sector técnico (Adérito Sedas Nunes), havia participantes do movimento estudantil de 1962 (como Jorge Sampaio) e havia republicanos laicos (como Mário Soares e Salgado Zenha). António Alçada Baptista era o diretor. Ele, amigo de Domenach, de Pierre Emmanuel e de Edgar Morin, dirá no primeiro número: “falar no que poderia ter acontecido, ou no que poderá acontecer, ou no que aconteceu, quando se não assumem os riscos de uma acção concreta, é tarefa fácil e fácil é condenar o que se fez e lembrar o bom caminho que se poderia ter seguido”. De novo a subtileza das palavras. Todos os cuidados seriam poucos, por causa da censura. E apesar de tudo, a revista viria a ter, até 1969, seis mil páginas cortadas – o que demonstra como o projeto se tornou muito incómodo para o poder estabelecido.

Nesse tempo, já a circulação da “Esprit” estava proibida em Portugal e a ferocidade policial era tal que não era mesmo possível citar o nome da revista. Para tanto, Bénard da Costa encontrou um subterfúgio para iludir a censura. Mounier não constava das listas dos agentes, por isso “O Tempo e o Modo” passou a falar da “Revista de Mounier”, e assim a referência passava. Afinal, a censura e a polícia política tinham consciência de que os valores e as preocupações fundamentais ligadas à “Esprit” atingiam e afetavam as bases de um sistema político fragilizado e decadente. Eis como a lição e a influência de Emmanuel Mounier pesaram para além da data do seu falecimento em 1950, em especial a partir de uma leitura da ideia de “compromisso” – como sinal de inquietação e de esperança, como marca de um “humanismo interveniente” e como factor de inconformismo.

E foi fundamental aos animadores de “O Tempo e o Modo” salientarem vários factos relevantes da experiência de “Esprit”. “A Revista de Mounier fora a primeira, na Europa, a unir cristãos e não-cristãos, a ser uma revista de unidade, de confronto entre crentes e não-crentes” (TM, nº 23, Jan. 1965). Tratava-se de garantir uma colaboração pluralista e não de encontrar apenas “uma espécie de mais pequeno denominador das posições de cada um”. Daí a importância das convergências e das divergências. Jorge de Sena viria a dizer, aliás, que ninguém poderia pretender «a exclusividade da verdade ou da salvação, embora tenham o direito de querer persuadir os outros e de ‘salvá-los’». (TM, nº 27, Abril 1965). Tratava-se de fazer uma revista não confessional – como Mounier, Béguin e Domenach tinham feito – em nome da liberdade de espírito. E o “personalismo” não era uma nova ideologia nem um cabaz de receitas para aliviar consciências. Daí que Ricoeur passe a falar de “filosofia da pessoa” em lugar de um “ismo”. Por outro lado, a influência de Mounier era assumida no uso constante de expressões como “primado da Pessoa e da História humana” ou “desordem estabelecida”. Havia uma luta comum contra o espírito burguês, contra a injustiça, mais chocante do que a desordem, em nome da possibilidade de salvar os valores humanos segundo a “revolução personalista e comunitária”. “Esprit” como “O Tempo e o Modo” eram os pianos que faltavam a duas gerações inconformistas. E também havia a demarcação relativamente “a um qualquer partidarismo político concreto”. Muito embora, em sentido lato, qualquer das revistas pudesse ser classificada de “revista política, eminentemente política”, o certo é que os colaboradores tiveram diversas opções políticas, não tendo as revistas defendido este ou aquele partido, enquanto tal.

Mas se havia parentesco com a revista “Esprit” de Mounier, a verdade é que também havia diferenças. “O Tempo e o Modo” não era um órgão doutrinário, antes se afirmando como “mesa redonda”, onde se sentavam “pessoas vindas de variados sectores, unidas apenas pela mesma inquietação frente a uma dada realidade, pelo mesmo inconformismo na aceitação dessa realidade, pelo mesmo desejo de estudar os problemas concretos e urgentes dessa realidade – uns já convencidos de concretas respostas, outros hesitantes na procura delas” (TM, nº 23, cit.). O diálogo era, assim, uma marca – dentro da revista, ela mesma, e com o público. Por outro lado, era preciso compreender que na comparação entre 1932 e os anos sessenta havia profundas diferenças – a maior das quais tinha sido o facto de haver o Concílio Vaticano II, graças ao impulso luminoso de João XXIII. Com os sinais dos tempos, para os quais se exigia atenção, haveria que compreender que o próprio Papa falava já para todos os homens e mulheres de boa vontade e não apenas para os seus fiéis. Daí a importância de haver convergências e diálogo entre pessoas vindas de horizontes diferentes nos temas políticos, económicos, sociais e culturais. Eis porque uma certa dialética funcionava como exercício de democracia, sob uma ordem que proibia o exercício da liberdade.

Ler e ouvir Mounier, Landsberg, Ricoeur e Lacroix significava, num tempo de ausência de liberdade, lançar as bases da abertura democrática. O que estava em causa? A criação e a interrogação do “homem livre”. «O homem livre que o mundo interroga, e que responde : é o homem responsável» - esclarecia Mounier. «A liberdade com este fim não afasta mas une». A liberdade entrava na ordem do dia como uma exigência ética e como programa político – tendo âncora numa visão do mundo baseada na “eminente dignidade da pessoa humana” e na exigência de um compromisso permanente pela verdade e pela justiça. O facto de “O Tempo e o Modo” ter sido não uma revista marcada ideologicamente, mas apenas uma “mesa redonda”, iniciativa de cristãos que rapidamente abriram a linha editorial a não-cristãos, permitiu que tenha exercido uma influência transversal em várias gerações e famílias políticas. A verdade é que a influência de Mounier foi e é significativa. Muito mais do que uma referência ideológica, o importante foi a influência cívica e moral de Emmanuel Mounier. Em todos os quadrantes políticos registam-se influências do autor de “Introduction aux Existentialismes” e da revista “Esprit” – desde as questões políticas e das exigências da paz, da justiça e do desenvolvimento, passando pelo aprofundamento dos direitos sociais e cívicos, pelo “despertar da África Negra” ou pela importância da educação, da cultura e do conhecimento. O que devemos a Mounier? O ter sido a referência que permitiu a muitos assumirem um caminho do inconformismo. «O amor é luta ; a vida é luta, contra a morte ; a vida espiritual é luta, contra a inércia material e o sono vital. A pessoa toma consciência dela mesma não no êxtase, mas na luta da força» (O Person., I, IV). O combate da desordem estabelecida precisaria e precisa de uma semente de inconformismo e de esperança, que Mounier pôde ser na transição para a democracia em Portugal.  

Guilherme d'Oliveira Martins 

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