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Exposições

"Abeng – Sinal de Resistência: O Arquivo de Tony Russell"

A mostra mais abrangente do fotógrafo jamaicano até à data revela a Jamaica pós-independência e a Venezuela em plena Guerra Fria, e apresenta retratos de figuras marcantes do século XX como Bob Marley, Fidel Castro e Elizabeth II.

23 Abr a 6 Set 2026

Centro Cultural de Cascais
Avenida Rei Humberto II de Itália | 2750-800 Cascais
Abeng – Signal of Resistance é uma homenagem ao percurso do fotógrafo jamaicano Tony Russell. Tomando o seu título do abeng — instrumento de sopro historicamente associado, na Jamaica, ao aviso, à convocação e à resistência — a exposição procura não apenas assinalar a singularidade da sua obra, mas também situá-la historicamente, na convicção de que a arte pode e deve oferecer ao público uma oportunidade de reflexão crítica.

As imagens de Russell constituem um registo das múltiplas forças da história contemporânea que o fotógrafo testemunhou, e a evolução do seu olhar reflete o impacto que essas forças exerceram no percurso de vida do homem por detrás da lente. Ao percorrer os acontecimentos políticos, sociais e culturais que Tony Russell documentou como fotógrafo, a exposição convida-nos a refletir sobre o impacto da História na vida do indivíduo.

Abeng [Signal of Resistance]
TONY RUSSELL

Na sua terra natal, num contexto pós-colonial, Russell explora o processo de construção de uma identidade à sombra da herança colonial, bem como as contradições inerentes a uma jovem nação que procura afirmar um sentido de unidade assente num complexo mosaico de diversidade cultural. É também visível no seu olhar o peso das pressões geopolíticas e económicas da Guerra Fria, que condicionaram profundamente as aspirações do povo jamaicano no período pós-independência, bem como a própria vida de Russell.

No entanto, é na Venezuela que a dimensão mais intimista da exposição se revela. As dificuldades que o fotógrafo enfrenta para viver do seu ofício encontram eco no seu trabalho, onde o olhar pousa com frequência sobre processos de criação artística em contextos de profunda precariedade material. A migração forçada de Russell abre, assim, um novo momento no seu percurso, visível na forma como a sua obra interroga a relação humana com os símbolos e as mitologias do poder, convidando-nos a fazer o mesmo.

 O Colectivo Castanea agradece à Fundação D. Luís I a oportunidade de partilhar com o público esta homenagem a Tony Russell. É nessa partilha que reside a nossa maior ambição: que, no nosso trabalho de curadoria, se possa escutar o abeng como sinal de resistência, e que esse som possa inspirar a construção de um futuro mais humanista.

Jamaica 

Tony Russell nasceu em Kingston, Jamaica, em 1938, num ano marcado por convulsões sociais que expuseram as fraturas do domínio colonial britânico e abriram caminho a uma nova fase da vida política da ilha. Foi nesse contexto, entre as tensões do final da ordem colonial e a construção de uma nação independente, que se formou o olhar de um fotógrafo cuja obra viria a acompanhar de perto algumas das transformações decisivas da Jamaica do século XX.

 De ascendência portuguesa, inglesa e africana, Russell cresceu num meio modesto, mas próximo de um universo em que a memória e a imagem ocupavam um lugar concreto. O pai preservava o arquivo fotográfico familiar, enquanto um tio trabalhava como cartoonista no Daily Gleaner. Ainda jovem, frequentou aulas de arte com Edna Manley, figura central no desenvolvimento da arte moderna jamaicana e na afirmação cultural do país num período de despertar nacional.

 A sua afirmação profissional consolidou-se no final da década de 1960, quando se tornou fotógrafo-chefe do Jamaica Tourist Board, posição que lhe deu acesso privilegiado ao território, às suas paisagens humanas e aos seus acontecimentos públicos. Esse lugar permitiu-lhe documentar não apenas a imagem promocional de uma ilha voltada para o exterior, mas também um país em plena redefinição, atravessado por expectativas de progresso, tensões sociais, ambição cultural e pressões internacionais.

 A relevância da sua obra reside precisamente nessa amplitude: Russell fotografou a Jamaica para lá do postal, revelando-a como espaço histórico, político e cultural de grande complexidade. Com a aproximação política da Jamaica a Cuba e o agravamento das dificuldades económicas, Russell parte para a Venezuela em 1977, numa viragem que marcaria profundamente o curso da sua carreira e da sua vida.

A exposição é uma iniciativa da Fundação D. Luís I, em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais, e resulta do trabalho do Castanea Collective, colectivo português que investiga, organiza, preserva e divulga o arquivo fotográfico de Tony Russell. 

Venezuela 

Na região andina de Trujillo, Russell encontra um mundo profundamente ligado ao território, marcado pela pobreza rural, pela devoção popular e por uma forte continuidade entre trabalho, vida quotidiana e cultura. Esta fase altera de forma clara o contexto humano da sua obra. Já não se move com o mesmo grau de acesso institucional que tivera na Jamaica. O seu olhar aproxima-se agora de contextos em que a criação, a sobrevivência e o esforço material surgem intimamente ligados.

 Ligado ao Museo de Arte Popular Salvador Valero, Russell acompanhou um universo em que a produção artística emergia muitas vezes de condições modestas, enraizadas na experiência rural e na vida comunitária. A relevância deste período reside também aí: a sua fotografia passa a registar, com maior proximidade, práticas de criação e modos de existência que raramente ocupam um lugar central nas narrativas oficiais.

 O conjunto de imagens da Venezuela abre-se ainda a uma paisagem em que religiosidade, identidade regional e representação pública se cruzam de forma persistente. Essa dimensão torna-se especialmente visível na documentação da construção do Monumento  Virgen de la Paz. O que singulariza este trabalho é a forma como Russell se aproxima do monumento não apenas como símbolo acabado, mas através do seu processo de construção. Ao fazê-lo, desloca a atenção da monumentalidade da imagem para o universo humano, simbólico e político que a sustenta, sem perder de vista a força da sua dimensão religiosa.

 O período venezuelano confere à obra de Russell uma dimensão documental mais nítida. A sua fotografia fixa com maior proximidade contextos em que trabalho, criação artística, religiosidade e identidade colectiva se entrelaçam, ampliando o alcance humano e simbólico deste núcleo. 

Horário: De Terça a domingo das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Última entrada: 17h40
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