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Os universos paralelos de Francisco Vasconcelos na Cooperativa Árvore

Francisco Vasconcelos usa uma técnica de múltipla-exposição e, através de múltiplos layers e texturas da paisagem, constrói novos universos alternando entre estes diferentes conceitos de realidades alternativas ou paralelas. 

7 Abr a 30 Abr 2017

Árvore - Cooperativa de Atividades Artísticas
Rua Azevedo de Albuquerque, 1, 4050-076 Porto


Francisco Vasconcelos

MULTIVERSE

A FOTOGRAFIA INVERSA DO MUNDO

Matéria, arquitetura e deriva.

[Algumas notas em torno de uma série fotográfica de Francisco Vasconcelos]

«Este é o retrato fora do tempo e do espaço que ele agora desejava; ele não estava certo como seria alcançado, mas estava determinado a ter sucesso»

Italo Calvino, I Racconti

Num conto a que chamou “A Aventura de um Fotógrafo”, Calvino descreve o relato ficcional de um artista que apelidou de filósofo-cético, personagem que se confronta com a popularidade, o significado e o propósito do meio fotográfico e que, através de uma vontade obsessiva de retratar o quotidiano, se apercebe que o objeto de desejo da sua lente assenta, no fundo, no desaparecimento desse mesmo objeto. Isto é, nunca nos posicionamos na presença “real” do objeto fotografado porque entre a realidade e uma sua imagem existe uma impossibilidade ontológica que se determina pela construção da representação e da arte.

É aqui que, penso, podemos consubstanciar a série de obras fotográficas de Francisco Vasconcelos a que chamou determinantemente de Multiverso. De facto, o conceito de meta-universo proposto pela física como um conjunto hipotético de universosmúltiplos encadeados e caracterizados por conterem em si mesmos as noções de espaço, tempo, matéria e energia, assim como as leis da física e as suas variantes, delimita um arco programático no trabalho de Vasconcelos que parece redirecionar o olhar a partir de um projeto fotográfico que se apresenta através de uma dupla proposição: por um lado, questionando o meio da fotografia ainda como testemunho sólido e delineador do tecido da realidade euclidiana na sua compreensão da forma e do espaço aparente, numa ideologia oscilante entre presença e ausência; por outro lado, e aqui o seu trabalho se revela pungente, ao utilizar a técnica simples da múltipla exposição abre caminho a uma série de possibilidades a partir das quais ambiciona “criar” novas formas e visões da veracidade e da consistência daquilo que a lente não pode deixar de captar. É como se Vasconcelos resgatasse do próprio registo da fotografia - e como tal do congelamento das coisas que vê e experiencia - a possibilidade desta se tornar uma dupla origem, instituindo um conjunto de imagens que definem uma postura assumida na qual a realidade que nos circunda não pode ser aferida na sua completude. Para isso, o artista apresenta uma série de trabalhos nos quais define múltiplos pontos de vista, visões caleidoscópicas do mundo (vemos água, árvores, edifícios, asfalto) que se interligam num sentido intermédio, algo entre o real e o fractal, mostrando sempre visões do natural e da presença humana através da construção em arquitetura onde o delimite e contorno dos objetos são reconstruídos a partir da sua existência arbitrária, de pontos composicionais e de pressão que Vasconcelos equilibra com rigor e com um trabalho de produção aturado. Paradoxalmente é com a possibilidade da dupla exposição e da descontinuação dessa matriz inicial que esta série de fotografias pretende reconstituir um fluxo originário que se ferra no mundo, aportando-nos, a nós observadores, uma visão estilhaçada, mas porque estilhaçada, inventiva, diligente e reconstituinte do ato de Ver, ou como acertadamente escreveu Walter Benjamin: «o chegar à pureza do olhar não é difícil, é impossível».

Hugo Barata

Francisco Vasconcelos, natural de Leça da Palmeira, Portugal, atualmente reside e trabalha em Maastricht, na Holanda. Licenciado em arquitetura, estagiou em Tóquio e desde então está ativamente envolvido no estudo e pesquisa da "fenomenologia" através da arquitetura e fotografia.  Desde cedo começou a fotografar o quotidiano das cidades nos países onde viveu: Portugal, Grécia, Japão, Alemanha e Holanda.

Das experiências anteriores e guiado pelos recentes avanços no campo da física quântica emerge o presente trabalho que questiona a noção de realidade. Alicerçado no conceito de multiverso, um estado no qual, através da análise dos fenómenos quânticos, emerge a noção de que não existe apenas um universo e pondera-se a existência de outros, simultâneos ou não, neste "tecido espaço-tempo" em que podemos equacionar até mesmo realidades paralelas em diferentes relações com o mesmo "tecido". É o confronto com a representação destas perspectivas através da fotografia, retratando a nossa vida diária e os seus múltiplos fenómenos urbanos e relacionando-os com a conceptualização multiverse que nesta exposição nos é proposto.

Francisco Vasconcelos usa uma técnica de múltipla-exposição e, através de múltiplos layers e texturas da paisagem, constrói novos universos alternando entre estes diferentes conceitos de realidades alternativas ou paralelas. Se estas variações da realidade existem ou não, se elas fazem parte de uma realidade maior ou de apenas uma, provavelmente só conheceremos aquela que os nossos sentidos nos permitem experienciar.

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