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11 de Setembro – 20 anos depois

Os relógios marcavam 08:46 horas em Nova Iorque quando no dia 11 de setembro de 2001 o voo 11 da American Airlines com destino a Los Angeles embateu contra a Torre Norte do World Trade Center. Quando já o mundo inteiro observava as imagens e se questionava sobre o que estava a acontecer, às 9:03, o voo 175 da United Airlines embate na Torre Sul e cerca de meia hora mais tarde, o voo 77 da American Airlines atinge o Pentágono.

Não restava dúvida: Os Estados Unidos sofriam um violento atentado terrorista que causou quase 3000 mortos e a natureza da sua resposta condicionaria o rumo que este dia traria para o Mundo.

Esta abrupta alteração na ordem internacional foi objeto de numerosas publicações do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), como se pode ver pela lista abaixo, que tratou abundantemente do tema ao longo de vários anos, acompanhando a evolução da intervenção americana no Médio Oriente, as decisões da Administração Bush, o posicionamento da União Europeia e as consequências para a ordem internacional.

Reação imediata e após um ano:

No rescaldo do ataque terrorista, tentava-se perceber quais as implicações do mesmo para a estabilidade da ordem internacional e o que esperar dos principais atores mundiais. Álvaro Vasconcelos alertava que a natureza da resposta dos Estados Unidos e da comunidade internacional seria fulcral para que não se causasse uma desordem internacional, sendo imperativo clareza nos objetivos políticos da resposta com a intervenção militar e o seu impacto na estabilidade do Médio Oriente e do Golfo. Tornava-se importante definir com precisão o inimigo, tarefa que exigia uma diferenciação entre o mundo árabe e islâmico, diferentes grupos islamistas e diferentes níveis de radicalização.  George Joffé questionava-se sobre “Quem é o responsável?” e analisava as raízes da rede terrorista al-Qaeda, organização unanimemente considerada responsável pelo ataque. Porém, salientava também a quota parte de responsabilidade do ocidente no fortalecimento dessa organização.

Em setembro de 2002, no primeiro aniversário do atentado, as opiniões mantinham-se essencialmente inalteradas. Nesta altura, José Calvet de Magalhães condena o caminho de guerra permanente que a administração Bush escolheu, correlacionando esta tomada de decisão com a política petrolífera americana e pela procura de popularidade, tal como se previa inicialmente. Os textos do IEEI problematizam mais uma vez a (des)ordem internacional, debate que Gema Muñoz aprofunda fazendo uma análise do contexto socioeconómico e político dos países do Médio Oriente antes da intervenção estadunidense.

Após as alegações de Saddam Hussein e da possibilidade de uma guerra contra o Iraque em Washington, George Joffé analisa com pormenor os diferentes argumentos utilizados por esta retórica e as intenções por trás dela, incluindo a resposta dos aliados europeus e a situação das relações transatlânticas.

Outras questões essenciais que os artigos levantam:

O 11 de Setembro vai muito além da queda das Torres Gémeas e o IEEI abordou diferentes temáticas para abranger um contexto alargado sobre a questão. Começando de imediato após o atentado, vários autores analisaram as raízes do antiamericanismo na Europa, onde vários se manifestavam nas capitais europeias contra a ação militar no Afeganistão e o unilateralismo de Bush.

Os ataques bárbaros mostraram ao Mundo que as ameaças deixaram de ser exclusivamente militares e que instrumentos civis podem ser utilizados para atos de carnificina. Este novo paradigma exige uma adaptação das políticas de segurança. As políticas de segurança passam, assim, a ser condicionadas pelas alterações provocadas nas organizações internacionais, resultado das opções tomadas pela Administração Bush na chamada “guerra contra o terrorismo”, nomeadamente a alteração da prioridade dada às organizações miliares, como a NATO, em detrimento do papel da ONU. A nova dimensão do terrorismo, com o surgimento de organizações extremista “em rede”, vem consagrar a transnacionalização da segurança. Por essa razão, pondera-se também qual o papel da União Europeia e o seu posicionamento sobre a luta ao terrorismo. Para Jaime Gama, Portugal, integrado na UE, tem também um papel a desempenhar, ao contribuir para o diálogo intercivilizacional e interreligiosoa.

Cria-se um debate sobre a situação dos prisioneiros em Guantánamo e a violação de direitos fundamentais, liberdade e democracia, não ficando de fora uma abordagem sobre o Islamismo político.

Duas décadas após este dia e três presidentes depois, os Estados Unidos não deixam esquecer que as questões que se colocaram no imediato pós 11 de Setembro continuam a ser de uma enorme atualidade, como a retirada do Afeganistão o demonstra.

Cláudia Coelho
10-09-2021

Artigos e Publicações:

O mundo sem ordem
Álvaro Vasconcelos. Artigo no Jornal Público, 19 de Setembro 2001

O Mundo em Português n.º 25 – Os dilemas da Resposta (Outubro 2001)

Manhattan é o Mundo
Álvaro Vasconcelos

Desafio Global. Uma Resposta Universal?
Vários Autores

Quem é responsável?
George Joffé

A Defesa ainda existe? 
Mária do Rosário de Moraes Vaz

O Mundo em Português  n.º 26 – Vencer os medos (Novembro 2001)

Informação contra o terror
Álvaro Vasconcelos

A Economia Contra o Terror
Jurgen Brauer

Uma Tipologia do Terror?
George Joffé

As Religiões e a Crise Actual
Bruno Cardoso Reis

O Mundo em Português n.º 27 – Anti-Americanismo (Dezembro 2001)

Vícios e Virtudes do Anti-Americanismo
Álvaro de Vasconcelos

O Anti-Americanismo em Questão
Nicolas de Santis, Ian Lesser, Bruno Cardoso Reis, Mark Heller, M. R. de Moraes, Vaz Mario Telò

As Cóleras da História
Fouad Ammor

Cobrir uma Guerra num País Perdido no Tempo
Alexandra Prado Coelho

O Mundo em Português n.º 29 – Os Direitos do Inimigo (Fevereiro 2002)

Como julgar os Taliban?
Anthony Pereira

Resoluções contra o terrorismo, que efeito?
Maria João Seabra

Os Direitos do Inimigo
Álvaro de Vasconcelos

O Mundo em Português n.º 36 – A Desordem Imperial (Setembro 2002)

A desordem imperial
Álvaro de Vasconcelos

Uma guerra sem fim
José Calvet de Magalhães

Implicações económicas do 11 de Setembro
André Magrinho

A resposta europeia
Nuno Severiano Teixeira

Onde está o inimigo?
Maria do Rosário de Moraes Vaz

O ano em que a NATO aderiu à Rússia
Pedro Courela

A desordem regional árabe e o 11 de Setembro
Gema Martin Muñoz

Iraque: a América vai atacar?
George Joffé

O Mundo em Português n.º 48 – De Manhattan a Bagdad (Setembro 2003)

Império impossível, ordem improvável
Álvaro de Vasconcelos

Sérgio Vieira de Mello – Os ideais e a realidade
Gelson Fonseca

Representante Especial no Iraque – para além do mandato
Miguel Brito e Abreu

A insegurança dos jornalista – Nádia Esteves

O Mundo em Português n.º 49 – Os três mundos (Outubro 2003)

Romanos e gregos – As relações transatlânticas e o teste das intervenções militares
Bruno Cardoso Reis

O Mundo em Português n.º 50 – Debates Ibéricos (Novembro 2003)

O Islão e a democracia 
George Joffé

O Mundo em Português n.º 53 – Odisseias nos caminhos da terra (Fevereiro 2004)

Será economia, estúpido!?
Maria João Seabra

O Mundo em Português n.º 56 – Os trabalhos da União (Setembro/Outubro 2004)

11/9 – 3 anos depois
Bruno Cardoso Reis

Novos desafios políticos
Ebtisam Al-kitbi

O Mundo em Português n.º 57 – O dia seguinte (Novembro/Dezembro 2004)

O dia seguinte
Álvaro de Vasconcelos

As políticas de destruição de reputação
Peter Calvet

Segurança de Defesa na campanha presidencial
Thomas C. Bruneau

O regresso da poítica externa
Hugo Sobral

A incógnita do voto étnico
Teresa Botelho

E depois das eleições?
Carlos Lopes, Renato Janine Ribeiro, Pierre Hassner, Krzysztof Bobinski

O Mundo em Português n.º 61 – A ignorância perigosa: A crise das caricaturas (Fevereiro/Março 2006)

Inquérito
25 anos de IEEI

O Mundo em Português n.º 63 – O fim do unilateralismo? (Outubro/Novembro 2006)

Distinguir entre terrorismo e resistência
Amr Elchoubaki

Outras Publicações

La sécurité en Algérie et en Libye après le 11 septembre
Luis Martínez (2003)

A nova doutrina de Segurança Global dos EUA: Fundamentos, contradições e consequências hegemónicas
por Gilberto Dupas – XX Conferência Internacional de Lisboa

A política da administração Bush para África
por Patrícia Magalhães Ferreira – Lumiar Briefs n.º 2, 2008

Fragile States and the Democratization Process: A New Approach to Understanding Security in the Middle East
Mahjoob Zweiri, 2008